Você está aqui: Página Inicial / Economia / De ponta cabeça

Economia

Sextante

De ponta cabeça

por Delfim Netto publicado 08/11/2010 10h00, última modificação 11/11/2010 19h08
O governo Dilma vai encontrar situações delicadas no mundo, logo de início, como o possível recrudescimento da guerra cambial a que se referiu o ministro Mantega
De ponta cabeça

O governo Dilma vai encontrar situações delicadas no mundo, logo de início, como o possível recrudescimento da guerra cambial a que se referiu o ministro Mantega. Por Delfim Netto. Foto: Agência Brasil

O governo Dilma vai encontrar situações delicadas no mundo, logo de início, como o possível recrudescimento da guerra cambial a que se referiu o ministro Mantega

É inegável que se realiza no Brasil uma transição de governo em clima político de grande civilidade e, simultanea­mente, em condições de equilíbrio econômico e social como poucas vezes aconteceu em nossa história moderna. Após conviver, nesses últimos dois anos, com uma conjuntura extremamente adversa nos negócios mundiais, o governo Lula se aproxima do final de seu segundo mandato com índices de desenvolvimento material (produção, consumo e emprego em alta) e de progresso social (redução da pobreza e da desigualdade) invejados pela comunidade das nações, a maioria das quais ainda não se livrou dos malefícios trazidos pela crise.

É verdade que os acertos de sua administração foram favorecidos, em parte, pelo período de expansão da economia mundial, duplamente turbinada pelo crescimento chinês e pela empolgação dos mercados financeiros desde a virada do século. O mérito brasileiro foi saber aproveitar o aumento da demanda mundial por alimentos e minérios, sem se deixar enganar pela irracionalidade que passou a comandar os mercados financeiros.

Sabiamente, utilizou a disponibilidade de crédito para alavancar o crescimento do mercado interno, direcionando-o preferencialmente ao estímulo ao consumo da numerosa população de renda mais modesta, tornada estável pelo aumento da oferta de emprego e inflação sob controle.

Se as circunstâncias internas continuam bastante favoráveis relativamente à atividade econômica, o mesmo não se pode esperar da evolução que a economia externa tem apresentado: na maioria dos países líderes do mundo ocidental, e em muitos emergentes, não há a recuperação esperada na direção do aumento da oferta de emprego e, portanto, da melhora do consumo e do crescimento do comércio. Os efeitos ainda não superados da crise financeira dificultam o entendimento para a redução das práticas extremamente agressivas utilizadas nos últimos tempos nas relações de comércio entre as nações. A leitura direta é saber se os novos subterfúgios protecionistas e os escandalosos recursos aos subsídios piratas vão se intensificar ainda mais e degenerar em guerra comercial entre os países.

Esta é, efetivamente, uma perspectiva nada agradável neste instante de transição de equipes de governo. O fato é que a administração Dilma vai se confrontar com situações muito delicadas no mundo externo, logo em seu início, com o possível recrudescimento da guerra cambial a que se referiu o ministro Guido Mantega, em decorrência das fricções que opõem basicamente a insistência chinesa em manter o câmbio do yuan subvalorizado e a necessidade americana de desvalorizar continuadamente o dólar para reduzir seu déficit comercial.

Estados Unidos e China são hoje as duas economias mais poderosas e se obrigam a sustentar a mesma face de duas moedas, o que perturba a normalidade do comércio dos demais países, do mesmo planeta.

A questão de fundo (e já escrevi aqui sobre isso) nestes próximos 10 ou 20 anos é saber como lidar com a necessidade chinesa de suprimento de recursos naturais, que ela tem de buscar no resto do mundo para sustentar o ritmo de crescimento de sua economia e o consumo de sua população de renda ascendente. O PIB chinês já corresponde a 12,5% do PIB mundial e atende 20% da população global. O governo de Pequim diz, em primeiro lugar, que não é o yuan que está valorizado; é o dólar americano que se desvaloriza muito, o que o obriga a fazer o mesmo com sua moeda. Logo em seguida, porém, apela para o argumento de que não pode valorizar o câmbio porque suas empresas exportadoras iriam à falência e seus empregados teriam de voltar ao campo, onde não teriam trabalho, criando uma situação de instabilidade social insuportável.

Não é apenas um problema político, é uma grave questão moral e física que diz respeito à sobrevivência de 1,3 bilhão de seres. Trata-se, então, de convencer os chineses de que, com os recursos e tecnologia hoje disponíveis no planeta, não há  condição de acomodar seus 9% ou 10% de crescimento de PIB ao ano. Isso só poderia ser feito se os outros 80% da população mundial se conformassem em sacrificar seu crescimento e bem-estar, e aceitassem a violação de todas as regras de intercâmbio comercial entre as nações e de convivência econômica internacional para manter no poder a atual estrutura política, concentrada nas mãos do Partido Único, o PC Chinês! Ou, quem sabe, criando outro admirável mundo novo...