Você está aqui: Página Inicial / Economia / Custos sem benefícios

Economia

Economia Mundial

Custos sem benefícios

por Delfim Netto publicado 24/11/2010 10h24, última modificação 24/11/2010 10h24
Para o ajuste fiscal funcionar, o crescimento da despesa de custeio tem de ser menor que o aumento do PIB. É isso que permitirá liberar recursos para os investimentos

Para o ajuste fiscal funcionar, o crescimento da despesa de custeio tem de ser menor que o aumento do PIB. É isso que permitirá liberar recursos para os investimentos
Seul, sem nenhuma surpresa, terminou sem que os países do G-20 chegassem a alguma definição quanto aos rumos da economia mundial: numa larga medida, se comportaram de acordo com a singela antevisão do nosso ministro Guido Mantega, segundo a qual “vai continuar sendo cada um por si, mesmo...”
Estados Unidos e China continuam evitando se comprometer com mudanças que permitam iniciar qualquer ajuste a curto prazo. Em meio ao fogo cruzado dos demais parceiros, chamaram os bombeiros nos quais ninguém mais confia: pediram ao FMI que apresente propostas factíveis para repartir os custos do desajuste. Preferencialmente com os outros, enquanto seus problemas internos pioram: a China com pressões inflacionárias que se mostram mais sensíveis nos custos dos alimentos (inflação importada devido ao excesso de liquidez mundial, segundo as autoridades). Do ponto de vista do comércio exterior, no entanto, vão continuar comprando do Brasil e colocando seus produtos baratos entre nós.
Os EUA, por sua vez, não conseguem fazer decolar a economia e reduzir os altos índices de desemprego. Estão liberando 600 bilhões de dólares para a compra de títulos e a irrigação da economia. Há pouco mais de um mês, Obama lançou um vasto programa para aumentar as exportações e o Brasil figura como um dos objetivos dessa expansão. Ele precisa desvalorizar o dólar porque tem um desequilíbrio imenso e precisa sair dele. As consequências para o Brasil não são nem um pouco interessantes, pois a desvalorização do dólar ajuda a promover ainda mais a sobrevalorização do real.
A questão é que não resolve o problema da recuperação da atividade nos Estados Unidos, porque não se restabeleceu a confiança do consumidor americano. A verdade é que (ao contrário do que aconteceu aqui no Brasil durante a crise) o presidente Obama não conseguiu fazer uma liga com o sistema empresarial produtivo, e muito menos motivar o cidadão e fazê-lo continuar a consumir.
Se olharmos hoje, o aumento da liquidez deixou nos caixas das empresas não financeiras 3 trilhões de dólares e mais 1 trilhão de dólares nos bancos. Estes não emprestam e não irrigam o mercado de consumo por falta de confiança dos próprios consumidores; e as empresas não financeiras estão tendo lucros enormes usando as políticas que estimulam a depreciação: em lugar de contratar trabalhadores, elas compram máquinas novas poupadoras de mão de obra que não usam para aumentar a produção, e sim para aumentar a produtividade. Com isso, não se reduz o desemprego. Piora o quadro social e aumenta a incerteza do consumidor em relação ao seu futuro.
No Brasil, a economia chega ao fim do ano com bons índices de crescimento e estabilidade, mas tendo de se ajustar para a mudança dos ventos externos. O PIB cresce 7,5%, a inflação se comporta dentro da meta, com 5% em 2010, as reservas externas estão em 280 bilhões de dólares, com a previsão de déficit da ordem de 50 bilhões de dólares em conta corrente este ano.
Nossa economia precisa  se ajustar para enfrentar as consequências do excesso de liquidez nos mercados financeiros, que pressiona o real e prejudica ainda mais as exportações, e produzir o ajuste nos gastos internos para liberar recursos para aumentar os investimentos. O Brasil tem de estar preparado para um grande programa de redução dos juros. Por enquanto, o recurso ao IOF é apenas um ato de defesa diante do aumento do ingresso de capital especulativo.
O próximo governo deverá fazer o ajuste fiscal não pelo recurso a aumento de impostos ou corte de despesas, mas reduzindo o ritmo de crescimento da despesa de custeio. Se há alguma coisa correta na economia é que o equilíbrio fiscal não se faz aumentando tributos, e sim reduzindo o ritmo das despesas. Há estudos teóricos razoáveis e comprovação empírica muito sólida de que ajuste fiscal feito com aumento dos impostos não funciona. Ele tem de ser feito com controle de gastos, porque há uma lei natural que diz que o gasto sempre procura a receita. Para funcionar, o crescimento da despesa de custeio tem de ser menor que o crescimento do PIB.
É isso que permite liberar recursos para que os investimentos públicos voltem a crescer, atraindo os investimentos privados, com o Estado agindo como indutor do desenvolvimento. O Brasil dispõe de uma oferta de grandes projetos cujas taxas de retorno são extremamente satisfatórias, de 12% ou 14% reais ao ano, pelos próximos 20 ou 25 anos.