Você está aqui: Página Inicial / Economia / Crônica de uma outra Colômbia

Economia

Colômbia

Crônica de uma outra Colômbia

por Rota Inca — publicado 29/07/2010 14h56, última modificação 11/08/2010 14h58
A cidade da afetividade

A cidade da afetividade 
Eram tantas músicas, danças e cores. Era tanta gente, sorrisos, carinho. Mas tudo que é bom dura pouco. Ou como diria o poeta: “Que seja breve posto que é chama mas que seja infinito enquanto dure.” E assim passou nosso tempo na Colômbia, é difícil medir a intensidade ou afetividade mas uma semana como essa não sei quando poderemos viver novamente. A sensação é de que esse pouco tempo que estivemos em uma pequena parte desse país de tanta generosidade nos pode ensinar muito do que é a solidariedade, a cultura e a humanidade da forma mais espontânea e sincera. Não sei se tantos anos na escola nos poderia fazer aprender tanto como pisar no desconhecido e explorar nossas dúvidas e curiosidades.

Não seria interessante escrever uma crônica nostálgica, como se agora esse tempo estivesse morto. Nos faria bem reviver em palavras essa expedição inesquecível por um canto do mundo chamado Nariño, um departamento do sul colombiano. Muito se podia pensar da Rota Inca, como uma viagem turística de estrangeiros interessados em tirar boas fotos. Mas a gente nos recebeu com seus braços abertos e pudemos perceber que na verdade fazíamos parte de uma grande expedição humanitária e cultural, ao vermos que todos éramos iguais e podíamos entender em simples gestos de carinho, em palavras e curiosidades sobre a cultura do outro, nas danças sem fronteiras de países o idades.

Todos puderam perceber que a Rota Inca não será somente uma visita a ruínas de uma civilização destruída pelas mãos dos conquistadores. E sim uma expedição a cultura viva da gente, que mantém suas tradições e crenças, sobreviventes entre o sincretismo. Pensar que seremos embaixadores de toda essa riqueza em nossos países é uma grande responsabilidade e compromisso para jovens que talvez tenham como armas mais poderosas seus sonhos e que tiveram a coragem de ir contra a corrente do conformismo e da comodidade para torná-los vivos.

Mas do que isso, na Colômbia pudemos sentir-nos verdadeiros embaixadores da alegria. Ver tanta gente nas praças e ruas curiosas para ver a chegada desses estrangeiros nos fez sentir importantes do ponto de vista cultural, já que vivemos em sociedades em que o jovem é cada vez mais visto como mão-de-obra ou mercado consumidor. Ver as comunidades organizadas para receber-nos e tão motivadas para mostrar suas culturas e conhecer as nossas foi algo incomparável. Levantar do sofá e ganhar o mundo é acumular humanismo, algo não contabilizado nas estatísticas que calculam a qualidade de vida ou a economia no planeta. O toque, o abraço, o carinho sincero de quem não conhecíamos e que possivelmente não voltaríamos a ver é algo que os meios de comunicação, por mais competentes que fossem, não poderiam nos brindar.

Se falamos da mídia nos bate no peito uma sensação de injustiça. E isso temos a obrigação de defender em nossos países: a imagem da outra Colômbia, desse país de gente amável, de cultura rica e de belezas naturais espetaculares. Passear por suas montanhas e florestas, lagoas e ilhas, sentir a natureza exuberante nos faz compreender porque a cultura indígena atribuía tanto valor espiritual ás coisas da natureza.

Apenas uma semana, um departamento visitado mas milhões de lembranças. O que fica é uma vontade absurda de voltar e conhecer a fundo esse país. E a expectativa é de que a imagem da Colômbia comece a mudar a partir de nós, e então nada haverá sido em vão. Colômbia não é só crime, não é morte. Pelo contrário, Colômbia é vida. Na verdade, se tomamos a vida como um todo ou como momentos, uma media entre o bom e o mau, o cotidiano e o surpreendente, ousaria dizer que tudo isso foi sublime, ainda melhor que a vida. E essa experiência seguirá abstratamente, em lembranças e memórias, como partes de algumas vidas, como uma marca simples, com um brilho secreto só visível a quem a viveu.