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Crescer o investimento

por Delfim Netto publicado 20/08/2012 10h24, última modificação 06/06/2015 18h19
O Brasil precisa voltar a crescer 5% ao ano. Para isso, o governo terá que aumentar a capacidade produtiva e recuperar o investimento de 25% do PIB que deixamos escapar nos últimos anos

O Brasil precisa voltar a crescer 5% ao ano. Para sustentar esse crescimento já a partir de 2013 terá de aumentar a capacidade produtiva e recuperar o investimento de 25% do PIB que deixamos escapar nos últimos anos. Alcançar esse nível de investimento vai depender fundamentalmente de ações de governo.

O setor privado brasileiro continua a investir mais de 25% de sua renda líquida (PIB, menos impostos) e não mudou nada nos últimos 30 anos. Quem investia e deixou de fazê-lo foi o governo, a União principalmente. Os governos estaduais e municipais melhoraram a poupança após a vigência da Lei de Responsabilidade Fiscal.

O PIB brasileiro cresceu à taxa anual de 7,5% (1948-1980) porque a carga tributária bruta era de 24%, e o investimento público era de 4% a 5%. Por que crescemos nos últimos 30 anos à média anual de 2,8%? A principal razão é que, com uma carga tributária bruta de 35% do PIB, o investimento público se reduziu a 2%!

O governo federal se prepara agora para acelerar o crescimento, mediante investimentos da ordem de 100 bilhões de reais em projetos de infraestrutura, com taxas de retorno capazes de atrair o que há de melhor e mais confiável na engenharia nacional. Nos próximos cinco anos, esses empreendedores vão elevar os investimentos sem sobrecarregar o orçamento federal (no qual não cabe o que já está lá dentro), fazendo crescer a renda e o consumo imediatamente e a capacidade produtiva futura – a produtividade total da economia – quando executados.

Não há dúvida de que o governo da presidenta Dilma está a trilhar o caminho certo, ao trazer a cooperação das empresas privadas para investir não apenas no setor estratégico da energia como também na importantíssima tarefa de desatar os nós da logística, colocando em concorrência os programas de concessões em rodovias, ferrovias e hidrovias e na ampliação das instalações portuárias marítimas ou fluviais.

Para o País crescer realmente é preciso multiplicar os estímulos à participação dos investimentos privados e ampliar os públicos, sem permitir o aumento das despesas de custeio.

A presidenta lida com um sério problema de tentativa de fortes reajustes na remuneração do funcionalismo público, que já recebeu benefícios extraordinários. Sua renda cresceu, nos últimos seis ou sete anos, o dobro do que cresceu o PIB. Tudo bem que o servidor público exerça funções importantes, mas ele precisa entender que há um limite e que a greve coloca a população contra as suas reivindicações. Ele parece não acreditar que a greve possa ter custos, como advertiu o ex-presidente Lula, e pode levar à suspensão do recebimento dos salários.

O governo terá de balancear isso, diante do fato de que, de um lado, estão os 196 milhões de cidadãos brasileiros e, de outro, os 600 mil ou 700 mil funcionários cujos líderes se portam como representantes de uma categoria especial, “exigindo” do governo aquilo que não pode conceder. Se ceder, vai perder o objetivo a que se propôs de voltar a investir nos projetos decisivos para a retomada do crescimento da economia.

O momento exige uma grande responsabilidade do governo, que deve manter o equilíbrio de suas contas para não pressionar a elevação das taxas de juro pelo aumento do déficit fiscal, principalmente. Se desejarmos crescer sem perder a estabilidade, não será possível transigir com as reivindicações abusivas do funcionalismo sindical. Chegou a hora de mostrar com clareza que eles são servidores, não senhores do público.

A presidenta tem razão quando diz que “não se pode brincar com as finanças públicas”. Os 196 milhões de cidadãos brasileiros “excluídos” desses benefícios devem apoiar fortemente, pela palavra e pela ação, a disposição do governo de resistir.