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Economia

Agronegócio

Consultoria britânica defende juros mais altos ao agronegócio

por Rui Daher publicado 06/02/2015 11h20, última modificação 17/06/2015 17h18
A razão? É uma das atividades que mais consomem recursos naturais e deve pagar por isso
Agência Brasil
Irrigação

Agronegócio consome mais recursos naturais, por que não pagar mais por isso?

Patrimonialismo sem Levy

 

Quando a ministra da Agricultura, Kátia Abreu, declarou não haver mais latifúndios no País, escrevi que sin duda los hay, mas que é bom distingui-los entre produtivos e não. Uns trazem riqueza a seus donos e ao País; os demais somente aos primeiros.

Sobre o tema é esclarecedora observação do norte-americano Joseph Stiglitz sobre as teses expostas pelo francês Thomas Piketty no livro “O Capital no Século 21” (Editora Intrínseca, 2014), ambos críticos da concentração de renda no planeta.

Enquanto o francês acusa a acumulação de poupança e o crescimento de renda nas classes ricas pela desigualdade, Stiglitz contesta: “uma boa fração do aumento da riqueza corresponde a um aumento do valor da propriedade imobiliária e não do volume de bens de capital”.

Sacaram a quem servem os latifúndios quando improdutivos?

Não pisquem na frente de banqueiros

Em dezembro do ano passado, esteve por aqui certo Mr. Richard Mattison, CEO da consultoria britânica Trucost. Veio apresentar a banqueiros e seus economistas-chefes, ou porta-vozes em folhas e telas cotidianas, o estudo “Exposição a Riscos do Capital Natural no Setor Financeiro do Brasil”.

A tese é clara: a agropecuária é uma das atividades que mais consomem recursos naturais e por isso deve pagar, pois representa um risco que não está sendo precificado.

Como? Ora, bolas, na forma de juros mais altos nas operações de financiamento, é claro. Assim como nós, consumidores e maus pagadores, somos precificados em cheques especiais, cartões de crédito e míseros carnês.

Trechinho do que o CEO disse ao “Valor”, de 16/12/2014 (precisei reescrever, pois apesar de assinante do jornal e de citá-lo como fonte, suas normas não me permitem copiar/colar - civilizado, não?):

“Os bancos terão que reposicionar sua carteira de financiamento em setores e empresas com impacto menor”.

Sentiram a barra, ruralistas? Onde seus berrantes?

Bacias ou canetas hidrográficas?

“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia” (Fernando Pessoa - 1888/1935).

“Onde eu nasci passa um rio/Que passa no igual sem fim/Igual, sem fim, minha terra/Passava dentro de mim” (Caetano Veloso, 1942-).

E aí comentaristas infalíveis? Chegou a minha vez. Quais versos falam mais lindo a suas alminhas internautas? Manifestem-se.

No Brasil, estão algumas das maiores bacias hidrográficas do planeta. Entre elas, a Amazônica e a do São Francisco. Juntas têm dimensão três vezes maior do que Congo, na África; Mississippi, nos EUA; Prata, na América do Sul; e Obi, na Federação Russa.

Nosso clima é tropical e subtropical. Exceção a parte do Nordeste, temos chuvas abundantes o ano inteiro. Dois anos de seca em regiões pontuais, de tradição pluviométrica equilibrada, não justificam o caos atual. Caso contrário, não estaríamos ano após ano batendo recordes de produção agrícola.

O que a Federação de Corporações não registra são autoridades públicas competentes e honestas o ano inteiro.

Bodas rurais

A ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Kátia Abreu, casou-se com o engenheiro agrônomo Moisés Pinto Gomes, no dia de sua posse no Senado. Para que pudesse regressar a tempo para a festa, seus colegas permitiram-lhe furar a fila para votar em Renan Calheiros, velho-novo presidente da Casa.

A senadora pelo Tocantins, hoje no PMDB, já foi filiada aos partidos PFL, DEM e PSD. Além da presidente e do vice-presidente da República, estava presente na festa o padrinho da noiva, Gilberto Kassab, hoje empenhado em refundar o Partido Liberal (PL).

Que os horizontes matrimoniais e políticos tragam felicidade à pecuarista Kátia. Quem sabe assim terá mais motivação para dobrar a classe média rural do País.

Lua de mel na Etiópia

O brasileiro José Graziano da Silva, diretor-geral da FAO, braço da ONU para alimentação e agricultura (perdi a conta de quantas vezes me prometi não explicitar o que é a FAO; quem se interessa por agricultura já deveria saber), ainda acredita nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). As metas que deveriam acabar com a pobreza até 2015.

Bem, ainda que meio na velocidade de Rubinho Barrichello, chegamos a 2015. Temos 11 meses para vermos alimentados cerca de 900 milhões de pessoas que ainda passam fome no planeta.

Em artigo com o sugestivo título “Casamento Promissor”, Graziano propõe uma nova rodada de ODM e crença em Papai Noel, abençoando as núpcias da comida saudável com o agricultor familiar.

Considerando que faltam 85 anos para o fim deste milênio e que muitos afirmam que o melhor sexo vem na quarta idade, é bem possível que esse casamento seja mesmo promissor.

Foco na profissão

Voltando de almoço na Padaria 13 de Maio (“Basilicata”), em Moema, São Paulo, enquanto dirijo, ouço amigo que havia se excedido em taças de vinho dizer: “Acabo de ver um carro cor de sorvete passas ao rum”. Respondo: “durma, provavelmente são uvas secas do Vale do São Francisco sendo trocadas por melaço do Caribe”. Ele: “você tem razão, tudo é agronegócio”.