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Japão

Consequências

por Delfim Netto publicado 29/03/2011 10h08, última modificação 30/03/2011 12h58
Além da perda irreparável de vidas, a sociedade japonesa vai sofrer as consequências do choque dramatico na economia.
Consequências

A substituição do petróleo, que parecia caminhar tranquilamente, vai demandar investimentos de muito maior intensidade e pesquisas caras. E a sociedade japonesa vai sofrer as consequências desse choque dramático de atravessar o processo de retomada de crescimento. Por Delfim Netto. Foto: Kyodo/AP

O Japão apenas começava a se restabelecer após praticamente dez anos de estagnação econômica quando foi atingido pelo terrível desastre produzido pelo tsunami que se seguiu ao violento terremoto de quase 9 pontos na escala Richter, o segundo de maior intensidade com registro no planeta. Além da perda irreparável de vidas, a sociedade japonesa vai sofrer as consequências desse choque dramático que vem atrasar o processo de retomada de seu crescimento.

Algumas pessoas, inclusive gurus conhecidos e prestigiados nos mercados financeiros, dizem acreditar que os efeitos sobre a sociedade nipônica não reduzirão necessariamente o crescimento da economia mundial. São afirmações temerosas, pois escondem o fato de que ela continua sendo a terceira maior economia do planeta e o duro golpe que sofreu vai reduzir a sua demanda e a demanda mundial.

Esses efeitos começam no sensível setor da energia, onde se restabeleceu a dúvida sobre o sistema de eletricidade dependente da energia nuclear. Há 55 reatores nucleares instalados em 17 localidades no território japonês, onde os riscos tinham sido reduzidos na medida da evolução dos equipamentos, permitindo imaginar que a energia atômica poderia tornar-se o principal instrumento de substituição do petróleo na geração da energia elétrica. Essa dúvida voltou a assustar o mundo e destrói a confiança exagerada que o setor nuclear tinha transmitido a uma parte da população e dos governos, pois não acontecia um acidente de vulto desde há 25 anos – como lembrou o professor José Goldemberg em recente entrevista.

Houve realmente uma redução importante dos riscos, como se viu agora no Japão, mas os equipamentos estavam preparados para certos níveis previsíveis e não para a catástrofe que a chanceler Angela Merkel, da Alemanha, classificou como “apocalíptica”. Ela repercutiu imediatamente a preocupação dos alemães defendendo a ordem de fechamento das sete mais antigas usinas nucleares do país e o abandono dos projetos de novos reatores em favor dos investimentos em fontes de energia renovável.

Essas coisas vão ser revistas em todo o mundo, onde até recentemente havia em estudo projetos para a construção de 300 novos reatores nucleares. A China, sozinha, tem 27 ou 28 projetos que com certeza terão de ser revisados, bem como retirados de pauta os 75 projetos bem adiantados para ser realizados em mais de 20 países nos próximos 20 anos. A União Europeia vai debater esses problemas de segurança na próxima reunião de cúpula em Bruxelas e já anunciou a intenção de realizar testes em todas as usinas nucleares dos países da organização. Nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama pediu aos responsáveis pelos investimentos nas pesquisas do setor energético que intensifiquem os esforços na busca de soluções alternativas que não exijam a ampliação das instalações nucleares.

Não devemos ter ilusões sobre as consequências dessas mudanças no comportamento da economia mundial. Os custos da energia vão subir na proporção das necessidades de se construírem mecanismos de defesa mais poderosos e eficientes, que permitam ampliar a utilização da energia do átomo. E aí o preço do petróleo vai ser empurrado ainda mais para cima. A Agência Internacional de Energia reúne informações em todos os continentes, o que lhe permite discutir probabilidades que, embora sem muita garantia, ofereçam  alguma visão do futuro em relação às fontes alternativas de energia. Pelos cálculos da AIE, em 2050, o petróleo continuará sendo o principal fornecedor de energia do mundo. Toda a sua substituição por fontes alternativas, pela bioenergia e outras, não chegará a representar 17% do total.

Uma coisa é certa: a substituição do petróleo na área dos transportes e da geração de energia, que parecia estar caminhando tranquilamente para as alternativas do biocombustível e nuclear, vai demandar investimentos de muito maior intensidade e pesquisas profundas e caras. No caso da energia atômica, no desenvolvimento de novos processos que aumentem as condições de segurança, notadamente.

A destruição de vidas e instalações no Japão foi produzida pelo tsunami, mais do que pelo terremoto. Isso mostra que há riscos que são passíveis de estimar e outros, não. Como, por exemplo, estabelecer as distâncias de áreas críticas (previsíveis) para a construção de reatores? Pode-se colocar a 500 quilômetros do litoral, mas isso vai reduzir somente um nível de risco e, com toda certeza, vai ocasionar um enorme aumento de custos em todos os projetos.

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