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Concentração à vista

por Gerson Freitas Jr — publicado 09/02/2011 16h24, última modificação 10/02/2011 14h44
O número de fusões e aquisições no setor de petróleo e gás bate recorde
Concentração à vista

O setor de petróleo e gás do Brasil teve em 2010 o ano mais movimentado de sua história e o número de fusões e aquisições bate recorde. Foto: Agência Brasil

O setor de petróleo e gás do Brasil teve em 2010 o ano mais movimentado de sua história. As perspectivas criadas em torno do pré-sal, a decisão do governo de privilegiar os bens e serviços produzidos no País e o apetite dos chineses por ativos estratégicos fizeram com que o número de fusões e aquisições do setor batesse recorde. Entre janeiro e dezembro, registraram-se 34 acordos entre empresas ligadas à cadeia. Em 2009, tinham sido apenas nove. De acordo com a consultoria KPMG, responsável pelo levantamento, o número superou em 30% o recorde anterior, que não era ameaçado desde 2002.
O aquecimento dos negócios reflete, em boa parte, a empolgação dos investidores estrangeiros com as oportunidades surgidas no Brasil após a descoberta do pré-sal, bem como a escalada nos preços internacionais do petróleo. A China puxou o movimento, tendo patrocinado as duas maiores aquisições desse setor no ano passado. Em outubro, a Sinopec anunciou sua entrada no capital da Repsol do Brasil, pela qual desembolsou 7,1 bilhões de dólares. Com a transação, concluída dois meses mais tarde, a companhia chinesa passou a deter 40% da subsidiária da petroleira espanhola no Brasil. Em maio, outra petroleira chinesa, a Sinochem, adquiriu 40% do campo de Peregrino junto à norueguesa Stateoil, por 3,07 bilhões de dólares. Com isso, passou a ter acesso a uma reserva estimada em 2,5 bilhões de barris de óleo.
As duas transações responderam por mais da metade dos investimentos chineses no Brasil em 2010, avaliados em quase 20 bilhões de dólares, e ao menos um sexto de todos os investimentos produtivos da China no mundo, que alcançaram a cifra recorde de 59 bilhões de dólares. Comenta-se que a Sinopec teria ainda interesse em comprar a participação de 20% a 30% dos ativos que a OGX, do magnata Eike Batista, pretende vender na Bacia de Campos, no Rio de Janeiro, quando começar a produzir. O movimento reflete a corrida da China por ativos considerados estratégicos para sustentar o crescimento da segunda maior economia do mundo. Em todo o mundo, as estatais chinesas avançam sobre empresas nos setores de energia, mineração e alimentos.
Mas não são apenas  os chineses que buscam um lugar ao sol no Brasil. Em março, os britânicos da BP compraram da norte-americana Devon Energy ativos petrolíferos nas bacias de Campos e Camamu-Almada, numa negociação que ultrapassou a casa dos 7 bilhões de dólares. A aquisição marcou o retorno da petroleira às atividades de exploração e produção no Brasil, de onde estava ausente desde 2004 – a BP vinha se dedicando exclusivamente à produção de biocombustíveis. Sobrou até para a angolana Sonogol, que comprou a petroleira brasileira Starfish, numa operação estimada em pouco mais de 200 milhões de dólares.
O movimento de fusões e aquisições não se limitou à investida de grupos estrangeiros no Brasil. Segundo o levantamento da KPMG, empresas brasileiras também foram às compras no exterior. Ao menos seis negociações do tipo foram registradas em 2010. Embora reflitam um maior grau de internacionalização das companhias nativas, Paulo Guilherme Coimbra, sócio da KPMG especialista no setor de petróleo e gás, diz que as aquisições no exterior são pontuais e atendem a objetivos estratégicos. Para ele, os investimentos estrangeiros no Brasil é que devem prevalecer como tendência para os próximos anos. “Com a descoberta do pré-sal, as empresas e investidores de fora passaram a ter uma perspectiva de longo prazo mui to interessante no Brasil”, afirma Coimbra, segundo o qual o movimento tende apenas a se intensificar nos próximos anos.
A compra de ativos brasileiros (ou situa-dos no País) por parte de grupos estrangeiros foi a maior desde 2004, quando a KPMG começou a distinguir a nacionalidade dos investimentos. Em 2010, o capital estrangeiro patrocinou 43% de todas as fusões e aquisições na área de petróleo e gás no Brasil. Sem novos leilões da Agência Nacional de Petróleo (ANP) – o último foi em 2008 –, a única maneira de entrar na exploração e produção de petróleo e gás no Brasil é por meio da aquisição de áreas já licitadas, o que ajuda a impulsionar o número. Contudo, observa Coimbra, ainda há um enorme campo a ser explorado na cadeia de equipamentos e serviços – uma área ainda fragmentada, pouco capitalizada e com enorme potencial.
Estimativas sugerem  que as empresas fornecedoras terão de investir entre 400 bilhões e 600 bilhões de reais até 2014 apenas para fazer frente à demanda gerada pelo programa de investimentos da Petrobras, que ainda não contabiliza o pré-sal, estimados em 224 bilhões de reais. Por decisão do governo e da Petrobras, dois terços de todas as encomendas da estatal precisarão ser produzidos localmente. Para o investidor estrangeiro, é a garantia de que aqui haverá demanda como em poucos lugares no mundo. “A consequência será um processo muito grande de consolidação entre os fornecedores”, afirma Coimbra. Para ele, a tendência é de que o setor observe movimento semelhante ao ocorrido na cadeia de açúcar e álcool, que passou por uma forte reestruturação nos últimos anos.
O movimento deverá ser conduzido tanto pela chegada de empresas estrangeiras quanto dos fundos de private equity, uma indústria ainda incipiente no Brasil. Também chamado de capital de risco, busca participação no controle de empresas com grande potencial de crescimento e valorização, com vistas a uma venda futura ou abertura de capital. Segundo levantamento da PricewaterhouseCoopers, o capital comprometido por fundos de private equity no Brasil quintuplicou nos últimos cinco anos. Saltou de 8 bilhões de dólares, em 2005, para 41 bilhões em 2010. Já a sua participação em novas fusões e aquisições de empresas saltou de 11%, em 2006, para 42%, em 2010. O excesso de liquidez no mundo e as perspectivas em relação à economia brasileira atraem esses investidores, que atuam como “consolidadores”. O resultado: em 2010, a economia brasileira registrou mais de 787 fusões e aquisições entre empresas – um recorde, com crescimento de 22% em relação ao ano anterior.
A participação desse tipo de investidor no setor de óleo e gás ainda é tímida, mas a expectativa é promissora. Apenas os fundos criados no ano passado pretendem captar cerca de 4 bilhões de reais para aplicar em empresas do ramo. Só a Mare Investimentos, em associação com o Santander, prevê levantar 2 bilhões junto a investidores locais e estrangeiros para a composição de dois fundos. A gestora, que tem entre os sócios Rodolfo Landim, ex-presidente da OGX e da BR Distribui dora, e Demian Fiocca, ex-presidente da Nossa Caixa e do BNDES, pretende concluir a primeira captação no primeiro trimestre. Serão de 400 milhões a 600 milhões de reais para investimento em cinco a sete empresas com faturamento anual acima de 250 milhões de reais.
Landim ganhou  notoriedade depois de deixar a Petrobras, após uma bem-sucedida carreira de 26 anos na estatal, e se unir a Eike Batista. Foi o grande responsável pela criação da petroleira OGX, que captou 1,3 bilhão de dólares em uma oferta privada de ações de uma empresa que só existia no papel. A companhia arrematou 21 blocos de exploração leiloados na 9ª Rodada de Licitações da ANP, em novembro de 2007, e ajudou a impulsionar a fortuna de Batista. Landim enfrenta o empresário na Justiça num processo de mais de 600 milhões de reais. Recentemente, anunciou a criação de uma nova petroleira, a YXC. A sigla, pronunciada em inglês, parece formular a pergunta: “why X?” (por que X?). Aparentemente, uma provocação ao ex-patrão, que sempre coloca um “X” no nome de suas empresas.
Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, em parceria com gestores privados, também estruturam fundos de investimento para participação em empresas de óleo e gás. Para Coimbra, os recursos vão ajudar a estruturar e fortalecer o setor. “A formação de fundos de private equity já reflete uma aposta na consolidação, visando à demanda do pré-sal”, explica. Aparentemente, a cadeia de petróleo e gás será formada, cada vez mais, por poucos e grandes.