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Como fabricar o futuro próximo

por Delfim Netto publicado 17/02/2013 10h11, última modificação 06/06/2015 18h42
Restabelecer o clima de confiança entre o empresariado e o governo será decisivo

No que depende da intervenção pessoal da presidenta Dilma Rousseff, deve-se reconhecer que houve avanços importantes nos níveis de relacionamento com os empresários. Minha insistência é com a necessidade de se estabelecer um clima de mais harmonia entre os agentes públicos e os setores privados que trabalham na aceleração das obras da infraestrutura. Disso vai depender muito o aumento dos investimentos que vão determinar o nível do crescimento brasileiro em 2013, que não está escrito nas estrelas e muito menos nos modelos de nossos catastrofistas.

Restabelecer um clima de mais confiança entre os setores privados e o governo será decisivo para permitir aos empresários compreender os problemas dramáticos do segundo e reconhecer o fato de que o poder incumbente é o elemento regulador dos mercados, para aumentar a competição em um ambiente favorável aos negócios e não aos “amigos negociantes”. E aos administradores estatais que aceitem que devem manobrar com inteligência e paciência, obtendo a cooperação empresarial para alcançar seus objetivos.

Em resumo, cabe ao governo formular os objetivos, mas resignar-se à sua baixa capacidade de executá-los fisicamente e entender que seu bom desempenho depende de um tratamento amigável com relação ao setor privado, transferindo-lhe, com leilões inteligentes, os investimentos de infraestrutura e controlando-o por meio de agências reguladoras que estimulem a competição, sempre que possível blindadas à política partidária.

A passagem ao setor privado de monopólios “naturais” é uma questão política e técnica altamente complexa e contaminada pelo fato de que eles, quando não controlados, são ainda mais cruéis nas mãos do setor privado. Os estímulos ao setor privado devem ser universais e promovidos pelos preços relativos construídos no mercado. Os subsídios (claramente consignados no orçamento) devem ser reservados àqueles projetos que, sem dúvida, possuem taxa de retorno social maior do que a do mercado, como é, seguramente, o caso de alguns projetos de infraestrutura.

Não há justificativa social ou econômica para subsidiar ganhadores, “escolhidos” para criar gigantescos oligopsônios e oligopólios privados em detrimento, mais dia menos dia, dos interesses dos consumidores. É uma ilusão pensar que, deixada a si mesma, a organização natural dos mercados levará a um equilíbrio eficiente. Ilusão maior ainda é imaginar que exista uma receita universal produzida pela “ciência econômica”. Na organização do mundo, Deus deu aos economistas como objeto de estudo o homem, um átomo que pensa, que imita, aprende, inova e transmite sua experiência. Dessa forma, em cada momento, ele é mais rico e diferente do que no anterior pela acumulação da informação e imersão social.

Nunca há equilíbrio e, por isso, nunca o futuro será igual ao passado. Cada observação de uma série de tempo não é uma amostra extraída ao acaso de uma “urna” que contém os seus estados possíveis. Não há, como no mundo físico, a estabilidade do universo observável, onde, para todos os fins práticos, o presente reproduz o passado e esse antecipa o futuro, um processo ao qual se dá o nome de “ergódico”. Como o agente econômico incorpora as informações do passado e está sempre aprendendo no presente, o futuro não poderá ser a repetição de nenhum dos dois. Ele vive um processo “não ergódico”.

Essas observações tiram toda a esperança de que possa existir uma teoria econômica universal, independente da história e da geografia, que permita colocar a política social e econômica no “piloto automático”, como, por exemplo, o famoso “tripé” a que se apegam com vigor quase religioso alguns de nossos mais notáveis sacerdotes. Os enormes conhecimentos acumulados nos últimos 250 anos e a experiência histórica vivida não autorizam a pensar que o voluntarismo que os ignora possa manter um voo longo e bem-sucedido.

Com a estagnação do PIB per capita em 2012, o nível do crescimento será definido: 1. Pela confiança entre o setor privado e o governo, entre as instituições e pelo “ambiente” econômico e social. 2. O estoque de mão de obra empregado e a sua utilização. 3. O estoque de capital (infraestrutura, máquinas, equipamentos etc.) e sua utilização.

A taxa de crescimento dependerá da modificação para melhor dessas três condicionantes, todas sensíveis a manobras inteligentes do governo em 2013.

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