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Economia

Crise financeira

Coadjuvantes e beneficiários

por Delfim Netto publicado 12/08/2012 10h14, última modificação 06/06/2015 18h19
Seria pretensioso dizer que os economistas foram a causa da crise. Mas alguns ajudaram a criar a fantasia dos “mercados perfeitos”

Com todos os desdobramentos da crise que domina a economia mundial, o Brasil vive hoje uma situação melhor do que a maioria dos países. Isso porque entendeu desde o início, em 2008, ser condição essencial garantir o emprego para não afundar com os outros. Na defesa desse objetivo fundamental, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva buscou não apenas salvar os empregos, mas aumentar o seu nível, criando as condições para a expansão do consumo e uma rápida melhora dos padrões de renda na sociedade.

Deixando perplexos os governos “desenvolvidos” e seus economistas (ainda mais desenvolvidos), que confundiam a salvação nacional com o socorro à banca, o operário Lula conduziu uma política que levou o Brasil a uma situação bastante confortável em matéria de emprego. Uma situação que contrasta totalmente com os procedimentos na grande maioria dos países desenvolvidos, onde as considerações em relação à proteção dos níveis de emprego foram solenemente ignoradas.

Na preparação e na expansão dos fatos que levaram à eclosão da crise em 2008, não existem inocentes: os governos falharam miseravelmente; o setor financeiro sem regulação, como o velho escorpião da fábula, cumpriu o seu objetivo matando o setor real da economia. E alguns economistas, gloriosamente, “teorizaram matematicamente” a alta qualidade dos malfeitos...

Seria ridículo e pretensioso dizer que os economistas foram causa eficiente da crise. Eles foram apenas coadjuvantes (e algumas vezes beneficiários) do processo. Ajudaram a criar uma “ideologia” que pretendia dar base “científica” ao papel do mercado financeiro na aceleração do desenvolvimento econômico e do bem-estar do mundo, desde que convenientemente “desregulado”.

A mensagem construída a partir da fantasia dos “mercados perfeitos” tinha como consequência subliminar a aceitação da ideia segundo a qual “os governos não são a solução, são o problema”! Mas é ridículo, também, isentá-los de qualquer responsabilidade.

Produziram trabalhos científicos na Academia, onde se faria “ciência pela ciência”, na qual não é proibido inventar universos que não existem, como uma sociedade com um único produto, com uma função agregada de produção domesticada, com um agente representativo a incorporar todos os consumidores e os produtores, mas onde não há o crédito ou as Bolsas de Valores.

Fui muito criticado em um artigo que foi parar na “rede” (onde a ignorância não tem freios) por economistas do mainstream, cuja grande ambição era desconstruir Keynes, apoiados em uma formalização matemática enganosa, sem ligação com o mundo vivo.

Já em 1936, Keynes introduzira o crédito e a Bolsa de Valores em seu modelo, que é um prodígio de antecipação do importante papel dessas duas instituições no processo capitalista, destacando a inerente instabilidade das Bolsas. Seu pensamento revela a genial intuição, aliada ao domínio da realidade, ao dizer que, “quando o desenvolvimento do capital em um país transforma-se em subproduto de atividades de um cassino, ele não será benfeito”.

Paradoxalmente, nesse processo no qual parece não haver ator que tenha sido sua causa eficiente, há quem esteja a receber a conta do malfeito. São os mais de 30 milhões de desempregados nas ruas, recusando-se a pagar as “falhas” dos governos – a serem provavelmente corrigidas nas urnas – e as “falhas” do mercado financeiro, cujos responsáveis esperam ver julgados e condenados pela Justiça. Acreditaram que “os governos e os mercados sabiam o que faziam”. Desempregados, continuam sendo ignorados pelos estudos mais recentes de economistas ainda presos ao paradigma destruído pela crise.

Não se estuda o “verdadeiro” custo social do desemprego. Insiste-se em continuar a estimar os efeitos sobre o bem-estar (o consumo) produzidos pelas flutuações do PIB, na velha e abusada tradição de Robert Lucas (Prêmio Nobel de 1995!), para quem as flutuações do emprego são pouco mais do que “ataques de vagabundagem que, ciclicamente, atingem a mão de obra”. Chega-se à conclusão de que sobre este ser inefável e metafísico – o consumidor representativo – “o custo social é pequeno”.

As estimativas variam fortemente porque todos conhecem – mas ninguém leva a sério – a afirmação do economista C. Otrock: “É trivial fazer o custo do bem-estar produzido pela variação do PIB do tamanho que cada um quiser, simplesmente escolhendo uma forma conveniente da preferência do consumidor...”