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Cautelas com as ironias do setor rural

por Paulo Yokota — publicado 09/09/2014 12h40, última modificação 09/09/2014 12h56
Ele responde de forma eficiente aos desenvolvimentos nas pesquisas, mesmo que haja dificuldades climáticas, mas continuam existindo fome em países africanos, do Sudeste Asiático ou Oriente Médio

Todas as grandes economias do mundo se preocupam com a sua independência alimentar e procuram assegurar que o seu setor rural forneça o grosso de suas necessidades, bem como determinadas matérias-primas para algumas atividades básicas como a do setor têxtil. Também utilizam seus recursos naturais como as terras cultiváveis e seus recursos humanos, mesmo de modestas qualificações, não somente para proporcionar um razoável padrão de vida para a sua população, como excedentes que exportados ajudam a gerar as divisas indispensáveis para suas necessidades de importação para sustentar o seu processo de desenvolvimento. Investimentos vêm sendo efetuados para aumentar a eficiência do setor rural, que responde de forma satisfatória, mesmo que sujeitos aos azares das variações climáticas, inclusive no Brasil.

As cifras dos recursos indispensáveis para a adequada manutenção do setor rural estratégico são assustadoras. São indispensáveis recursos como de créditos para os custeios das produções, investimentos em equipamentos e inovações tecnológicas, além da comercialização da produção, que tende a se concentrar num período de safra, para consumo ao longo do ano.

Informa-se que no Brasil, como consta do Suplemento Especial sobre o Crédito Agrícola do jornal Valor Econômico que eram de R$ 94 bilhões em 2011, passaram para R$ 115 bilhões em 2012 e chegaram a R$ 143 bilhões em 2013. No Plano de Financiamento da Safra de 2014/2015 os recursos disponíveis devem passar a R$ 156 bilhões com um aumento de 14,7% sobre a anterior. Os bancos privados e públicos concorrem para proporcionar estes financiamentos, havendo necessidade do governo assegurar a compra das produções a partir de um determinado preço mínimo estabelecido para alguns produtos.

Algo semelhante é também efetuado nos Estados Unidos como na China, havendo casos em que os excedentes das produções exigem que as autoridades cheguem a pagar aos produtores rurais para que não plantem, pois não haveria recursos para as aquisições e depósitos para armazenamento da produção, nem condições dos excedentes serem colocados nos mercados internacionais, onde os preços futuros já estejam depreciados.

Os setores rurais em alguns países europeus chegam a ser considerados estilos de vida. Subsídios e proteções são estabelecidos para evitarem importações de países mais eficientes nas suas produções, gerando tensões com os países agrícolas, entre eles muitos emergentes.

Um artigo publicado no The Wall Street Journal por Isabella Steger informa que a China não conta com condições de armazenar sua atual supersafra de grãos, notadamente de arroz, trigo e milho. Também a produção de algodão está excessiva e os preços praticados naquele país estão acima das cotações da Bolsa de Chicago devido à atuação governamental, afetando também os produtores norte-americanos. Na realidade, com os problemas enfrentados no passado, as autoridades chinesas precisam contar com a capacidade produtiva do seu setor rural para não ter dificuldades, o que acaba acontecendo também no Brasil, pois qualquer insuficiência provocada por dificuldades climáticas pressiona a inflação de forma difícil de ser controlada.

No fundo, o setor rural do mundo relevante responde de forma eficiente aos desenvolvimentos nas pesquisas, dos estímulos creditícios e de preços mínimos, mesmo que se registrem algumas dificuldades climáticas. Continuam existindo problemas da fome em países como os africanos, alguns do Sudeste Asiático ou Oriente Médio, onde questões de toda a ordem não permitem a produção necessária, mas, também, eles não dispõem de recursos para a importação, exigindo doações dos países mais desenvolvidos.

Pesquisas atuais como a da segunda revolução verde continuam ocorrendo, para superar as restrições das irregularidades climáticas, como o que acontece com o arroz, permitindo aumentos de produções nas inundações, secas e até picos de elevadas temperaturas. Os problemas da fome se tornaram pequenos e há lamentáveis distorções localizadas, mas para se assegurar este avanço, corre-se o risco de excedentes de produções nos anos regulares, em muitas regiões do mundo.

Há um forte contraste destas atividades rurais com outras econômicas como as industriais e de serviços, que mesmo não estando sujeitas às variações climáticas, continuam apresentando acentuadas flutuações que não conseguem serem neutralizadas pelas autoridades.

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