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Caminhada no nevoeiro

por André Siqueira — publicado 02/03/2011 16h24, última modificação 03/03/2011 09h48
O BC decide a taxa de juros em meio a incertezas sobre a economia. Por André Siqueira
Caminhada no nevoeiro

O BC decide a taxa de juros em meio a incertezas sobre a economia. Por André Siqueira. Foto: Marcelo Justo/Folhapress

Na quarta-feira 2 de março, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidirá o novo valor da taxa básica de juros. Para o mesmo dia está previsto o detalhamento do corte anunciado de 50 bilhões de reais no Orçamento Federal de 2011. O duplo anúncio acontece no momento em que está difícil decifrar os indicadores da economia, internos e externos. A inflação continua em alta, mas os dados de produção industrial e de volume de empréstimos apontam um forte desaquecimento. O risco, no momento, é que as diversas medidas adotadas desde o fim do ano passado derrubem a atividade mais do que pretendia o governo. Após sucessivas reduções na expectativa de crescimento entre os agentes privados, o Planalto, embora não oficialmente, passou a admitir uma expansão inferior aos 5% projetados no início do ano.

A necessidade de tirar o pé do acelerador e conter o ritmo de crescimento do PIB, que atingiu 7,8% em 2010, pelas contas do Banco Central, é reconhecida até pelos mais desenvolvimentistas do governo. Uma prova dessa visão convergente é o apoio à proposta de aumento do salário mínimo para 545 reais, apenas com a reposição da inflação passada, aprovada pelo Senado na quarta-feira 23. Logo no dia seguinte, o ministro de Relações Institucionais, Luiz Sérgio, confirmou o reajuste de 4,5% na tabela do Imposto de Renda – a contrapartida oferecida à aprovação do novo mínimo.

Os dados mais recentes revelam que, de fato, as pressões inflacionárias vão além do choque dos preços das commodities. Mesmo assim, as expectativas do mercado, captadas na pesquisa Focus do BC, mostram o índice oficial, o IPCA, ainda dentro do teto da margem de 6,5% admitida pelo sistema de metas. E a oferta de crédito bancário reagiu instantaneamente às medidas de restrição ao financiamento ao consumo adotadas em dezembro. Os empréstimos acumulam alta de 20,5% em 12 meses, mas o avanço em janeiro foi de apenas 0,5%, conforme revelou o BC na quinta-feira 24.
Enquanto se discutem medidas ainda menos favoráveis à atividade produtiva, o déficit nas contas externas cresce ao sabor do descompasso entre as importações, que seguem aceleradas, e as exportações, desfavorecidas pelo câmbio valorizado. O saldo em janeiro ficou negativo em 5,4 bilhões de dólares, o pior resultado da série histórica para um início de ano. A cifra pode levar à revisão, para cima, da previsão oficial de 64 bilhões de dólares de déficit em 2011.

O resultado externo só não assusta mais porque a entrada de investimento estrangeiro direto (IED) também bate recordes sucessivos. Em janeiro, o ingresso de recursos beirou 3 bilhões de dólares, e entre 1º e 23 de fevereiro a soma chegou a 6,7 bilhões de dólares. O IED em alta, aliado à facilidade de obtenção de empréstimos internacionais, afasta, ao menos por enquanto, o perigo de descontrole no setor externo.

O pesquisador da FGV Paulo Picchetti, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S), lembra que, no início do ano passado, o choque de oferta dos alimentos foi praticamente o único vetor da alta de preços. À época, os preços administrados estavam em patamares mais comportados, tanto que houve deflação no meio do ano, quando esse efeito cessou (gráfico à pág. 31).

“Neste início de 2011, há mais dois fatores em jogo: o IGPM passado (índice fortemente influenciado pelas commodities), que influenciou contratos e tarifas, e a recuperação muito forte do emprego, com ganho real de renda, que abriu espaço para repasses de preços na área de serviços.” Posto o argumento, o professor alerta para a impossibilidade de afirmar se os movimentos incipientes de repasses de preços vão ganhar força ou se dissipar nos próximos meses. “Entre o último trimestre de 2010 e o começo deste ano houve, de fato, uma disseminação da inflação entre os preços livres, mas eles não respondem pela elevação tão exagerada dos índices. E é cedo para dizer que essa dinâmica vai se manter.”

O professor da USP Alberto Borges Matias acredita que o debate sobre a alta dos juros passa pelos interesses do setor financeiro: a despeito dos bons resultados obtidos em 2010, os bancos vão perder dinheiro com as medidas de restrição ao crédito. “Essa rentabilidade (dos empréstimos) terá de ser substituída por maiores spreads e ganhos maiores em operações de tesouraria. Isso explica, fundamentalmente, o clamor dos porta-vozes do setor por juros mais elevados.”

As pressões do mercado por elevações da Selic acima do meio ponto porcentual esperado, ou cortes de gastos superiores aos 50 bilhões de reais anunciados, estão menos calcadas na realidade do que em conceitos subjetivos, como o “resgate de credibilidade” da equipe econômica ou a “afirmação da autoridade” do BC. Além disso, a reiterada tentativa de colar no ministro da Fazenda o rótulo de “gastador” ignora o fato de que, durante o ajuste fiscal de 2003 – bem mais duro que o atual –, Guido Mantega respondia pela pasta do Planejamento, onde os cortes são definidos.
O aperto orçamentário, realizado por um setor público que tem a solidez fiscal garantida por mais de 300 bilhões de dólares em reservas, parece atender a um objetivo muito mais simples: reduzir a expansão da demanda e abrir espaço para a queda da taxa de juros em um futuro próximo.

Na visão da Fazenda, portanto, não há contradição entre as medidas para desacelerar o crescimento econômico e a continuidade dos estímulos ao investimento – a exemplo dos recentes aportes do Tesouro no BNDES e na Caixa Econômica Federal, que contam com mais fôlego para bancar projetos do setor privado. O detalhamento do ajuste fiscal deverá mostrar uma redução de despesas “crível” e, ao mesmo tempo, capaz de preservar os projetos do PAC e as obras que vão preparar o País para abrigar a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

Na segunda-feira 21, Dilma Rousseff revelou o tom da ordem dada à equipe econômica: “Nós estamos, sim, fazendo uma consolidação fiscal. Temos perfeita consciência de que para que não haja, de fato, no Brasil pressões inflacionárias – que nós não deixaremos que aconteçam – é importante que a oferta de bens e serviços, sobretudo a taxa de investimento, cresça acima da demanda por bens e serviços. Daí porque nós mantivemos integralmente os investimentos”.