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Economia

G-20

Cada um por si

por Delfim Netto publicado 28/07/2010 16h19, última modificação 28/07/2010 16h21
Não houve consenso, na reunião do G-20, sobre os ajustes a serem feitos pelos países. O Brasil mostrou que não precisa fazer grandes mudanças, mas é um equívoco pensar que todo o aperto fiscal leva à recessão. A Alemanha deverá provar isso ao mundo, se conseguir, ao mesmo tempo, estimular o setor privado

Não houve consenso, na reunião do G-20, sobre os ajustes a serem feitos pelos países. O Brasil mostrou que não precisa fazer grandes mudanças, mas é um equívoco pensar que todo o aperto fiscal leva à recessão. A Alemanha deverá provar isso ao mundo, se conseguir, ao mesmo tempo, estimular o setor privado

Ao término da reunião do G-20 em Toronto, no último domingo de junho, as lideranças mundiais retornaram a seus países mais ou menos cientes de que cada um vai fazer aquilo que achar melhor para si. Os países desenvolvidos (e mais endividados) assumiram o compromisso de reduzir à metade seus déficits fiscais até 2013 e estabilizar ou reduzir a dívida pública em relação ao PIB até 2016. Certamente os países da Europa vão ter de lidar com o maior peso das restrições em razão desse comprometimento. Cada qual terá de saber como fazer o ajuste fiscal, o que não quer dizer que, obrigatoriamente, isso os levará a uma recessão.

Com relação ao Brasil, o ministro Guido Mantega, que nos representou (o presidente Lula preferiu ficar no País, atendendo ao drama das inundações no Nordeste), mostrou com clareza que não precisamos de restrições de nenhuma natureza. E defendeu a manutenção dos estímulos ao crescimento.

Certamente o Brasil precisa mudar a qualidade dos gastos públicos, mas o déficit é perfeitamente aceitável: cerca de 2,5% do PIB, (um pouco mais, um pouco menos) e nossa dívida líquida situa-se em torno de 41% ou 42% do PIB. Mesmo a dívida bruta, que causa um pouco de preocupação, é menor que 70% do PIB, de forma que a parte fiscal do Brasil não apresenta nenhuma dificuldade maior. Por isso, o ministro Mantega fez muito bem quando argumentou que não é possível uma medida de caráter geral, envolvendo todos os países. Cada um tem de fazer aquilo que lhe pareça adequado para resolver o seu problema.

Uma coisa importante é entender que não existe nenhuma indicação na teoria econômica, como algumas pessoas acreditam no Brasil, de que um choque fiscal seja necessariamente deflacionário. Keynes, lá por 1931, (em meio à Grande Recessão) tinha intuído que existem choques que podem ser expansionistas. Ele precisa ter credibilidade e ser muito bem-feito: quando não aumenta a carga tributária, corta corretamente despesas, quando estimula a competição, melhora um pouco a regulação das atividades financeiras e é acompanhado por uma desvalorização cambial.

Na Eurolândia, se todos os países fizerem esses ajustes, não significa que vão ter processos recessivos. Pelo contrário. Começando pela Alemanha, que tem uma política fiscal absolutamente crível. Ela tem condições de fazer um ajuste fiscal importante, ligeiro e, digo mais, tornando sua economia capaz de crescer rápido, fazendo com que ela aumente mais depressa que todas as demais. Como já tem aquelas condições, a Alemanha vai se aproveitar da desvalorização do euro. De todos os países da União Europeia é o que tem grande participação de comércio fora do euro. Como detém as maiores facilidades de fora da zona (dentro, a taxa de câmbio é fixada) pode-se suspeitar que o ajuste fiscal da Alemanha será um sucesso. Produzirá uma expansão econômica mais rápida. E isso é a melhor coisa que pode acontecer para todos os países da Eurolândia. Porque a União Europeia precisa de uma locomotiva que puxe a economia, que lidere o seu crescimento com o mínimo de distorções.

Essa ideia que circulou por aí, de que todo ajuste fiscal é necessariamente recessivo, é um equívoco. Não tem suporte nem na teoria nem na prática. Existem vários experimentos, como no caso da Dinamarca,- em que se fizeram os ajustes que pareceriam recessivos (de acordo com o keynesianismo de pé quebrado), e no fim se revelaram expansivos.

Modelos mais elementares esquecem o papel das expectativas: quando se reduz a demanda do Estado, que acontece no ajuste fiscal, é preciso que aumente a procura do setor privado. Só aumenta a demanda do setor privado se o corte dos gastos do Estado for de tal natureza, de tal ordem, que aumente as expectativas sobre o equilíbrio econômico e, assim, se renove o espírito animal dos empresários para que eles ampliem seus investimentos. O aumento dos investimentos e das exportações compensa a queda da demanda do setor público. É isso que acredito que vai acontecer na Alemanha. •