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Brasil em transformação e contribuições para uma nova agenda

por Carlos Vidotto — publicado 20/08/2013 16h39
Livro de João Sicsú dá sentido à trajetória sócio-econômica do Brasil nos dez anos de governo do PT

2013: uma promissora safra de interpretações, com foco nestes (primeiros?) dez anos em que o Partido dos Trabalhadores esteve à frente do governo federal, começa a brotar das editoras.

A década transcorrida desde a posse de Lula veio acompanhada de eventos não menos extraordinários. As recentes jornadas callejeras, por exemplo, conferiram ao debate político máxima prioridade – mesmo que parte de seus protagonistas, não se dando conta do paradoxo, pretenda-se apolítica. Depois disso, e às portas de nova disputa presidencial, é natural que as lições aprendidas e as propostas para o Brasil atual deparem-se com um severo escrutínio da cidadania.

João Sicsú, portanto, acertou o timing. Seu novo livro, Dez Anos Que Abalaram o Brasil. E o Futuro?, traz por subtítulo Os resultados, as dificuldades e os desafios dos governos Lula e Dilma, não permitindo dúvidas sobre seu conteúdo a ninguém, antes de o abrir. E após abri-lo, acreditamos, qualquer leitor sairá melhor equipado para o exercício da cidadania.

Num ensaio relativamente curto (130 páginas), escrito com a preocupação de tratar bem os leitores, perfilam evidências que dão sentido à trajetória sócio-econômica do Brasil nesse período. Ao analisá-las com as técnicas do pesquisador, Sicsú conduz a leitura ao foco de suas preocupações. Para ele, se chegar até aqui foi algo socialmente positivo, o sucesso traz consigo a exigência de um salto de qualidade nas políticas, sob a forma de uma nova e talvez mais difícil agenda de reformas.

A primeira parte, “Analisando o retrovisor, mas de olho no futuro”, cobre o isolamento das ideias neoliberais, a relação público-privada no momento seguinte e retrata a superação da paralisia, quando foram dados os primeiros passos desenvolvimentistas do governo Lula.

A política de investimento público, a mudança na política monetária e as políticas sociais são discutidas a partir de seus resultados concretos. Ao abordar a nova pauta da sociedade, o autor não fecha os olhos a uma debilidade flagrante das forças progressistas, relacionada ao controle oligopólico dos meios de comunicação. E ao chamar a atenção para a necessidade de um projeto de desenvolvimento, ele defende que, ao lado da dimensão social, também se contemple uma componente nacionalista.

Na segunda parte do livro, “Dez anos de tempos estranhos”, Sicsú apresenta quadros e estatísticas que dissecam a área social e, em particular, a evolução do mercado de trabalho brasileiro. Nesse percurso, enfrenta o que considera mitos sobre a economia brasileira, como o da emergência de uma nova classe média, a “gastança” pública e o tema da inflação, entre outros.

Por fim, resta dizer que o título da obra, uma alusão ao clássico de John Reed, carrega certa liberdade retórica. Não é "o tempo" que promove mudanças, mas a ação de indivíduos e atores coletivos. Seria excelente que ao lado dessa reflexão, focalizada em como o PT mudou o Brasil, também dispuséssemos de ensaios sócio-políticos que analisassem como o Brasil também tem mudado o PT.

Em particular, um cotejo com a trajetória dos tucanos antes e depois do poder, das salas de aula aos boards dos bancos (sem besteiróis ao estilo do “ornitorrinco”) poderia ser útil para evitar que nosso "sal da terra" social-democrata perdesse as propriedades reformistas que marcam sua história.

Vamos torcer, portanto, para que a safra de balanços desses dez anos seja diversificada, e do nível desse ensaio. A propósito, uma edição caprichada da Geração Editorial, coisa não muito comum nesse tipo de obra."

*Carlos Vidotto é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal Fluminense