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Bom que seja

por Delfim Netto publicado 29/09/2010 10h31, última modificação 29/09/2010 10h31
A última ata do BC traz uma revelação: a instituição parece ter percebido a dificuldade de prever os resultados do aumento dos juros, hoje os grandes responsáveis pela sobrevalorização do real. Resolver esse problema é tarefa que cabe à política monetária

A última ata do BC traz uma revelação: a instituição parece ter percebido a dificuldade de prever os resultados do aumento dos juros, hoje os grandes responsáveis pela sobrevalorização do real. Resolver esse problema é tarefa que cabe à política monetária

É generalizado o sentimento que a taxa de câmbio brasileira está sobrevalorizada. Esta sobrevalorização é produzida por um movimento de capitais estimulado pelo enorme diferencial entre a taxa de juro real interna e a taxa de juro externa. Ela depende muito mais da política monetária do que de qualquer outro tratamento que se possa ter na evolução do processo econômico. A evidência desse fato se revela não apenas nas exportações industriais; ela é manifesta no empobrecimento do componente industrial de cada bem durável produzido no Brasil.

A questão se agrava quando se percebe que setores da nossa atividade agropecuária também estão sendo atingidos por esses problemas. Parece-me importante, então, que um número cada vez maior de pessoas esteja tomando consciência de sua gravidade. Ainda esta semana, o ministro Guido Mantega, da Fazenda, demonstrou uma grande preocupação com a possibilidade de uma valorização ainda maior do real com o lançamento das ações da Petrobras. Foi muito sugestiva, a esse propósito, a manifestação do presidente Henrique Meirelles dizendo que está sempre atento aos sinais de desequilíbrio e com todas as letras que o Banco Central se manterá alerta para a possibilidade de uma sobrevalorização devido à capitalização da Petrobras.

É bom que assim seja, porque o exercício da política monetária terá importância crucial para a continuidade do desenvolvimento da economia nos próximos anos. Há uma probabilidade muito grande de chegarmos ao fim de 2010 com um crescimento de 7,5% do PIB brasileiro e até ligeiramente acima. É um resultado significativo, porque ele acontece sem tensões inflacionárias importantes, derrubando as apostas daqueles que insistem em exagerar as dificuldades naturais da economia para defender a continuidade da elevação das taxas de juro.

É possível, sim, que tenhamos alguns problemas com a produção de grãos diante da instabilidade do clima em algumas regiões e com a elevação dos preços externos de alguns produtos agrícolas e minerais. Eles ainda não têm reflexos internos, mas estão subindo a uma taxa maior do que a da valorização do real, de forma que teremos de lidar com seus efeitos.

Será, no entanto, que um aumento do preço do feijão poderá ser contido com a elevação da taxa de juros? Não há a menor hipótese de que um aumento da taxa Selic vá reduzir lá na frente o preço do feijão que está sendo produzido para uma demanda que é estável e resiste muito às variações de preços porque faz parte dos hábitos de consumo dos brasileiros. Como sabemos, sua oferta é extremamente variável dependendo do tempo. Quando tem um aumento, três ou quatro meses depois vem uma safrinha, logo se colhe uma segunda e os preços voltam ao patamar anterior.

No início de 2010, ao ignorar esses fatos, o BC “tomou a nuvem por Juno”, elevou a taxa de juros e depois foi necessário rever a questão. O segundo erro foi aceitar uma taxa de juros neutra muito alta, taxa em que se utiliza toda a capacidade produtiva sem acelerar a inflação. Hoje ele reconhece que ela é algo muito difícil de estimar diante de variáveis que não são conhecidas. Em terceiro lugar, enrolou-se com o chamado PIB potencial, uma coisa também fugidia e que, portanto, só é possível conhecer na prática.

Por esses motivos é que vejo, na última ata do BC, uma grande revelação. Ela chama atenção também para a alta variabilidade das defasagens entre a modificação dos juros e os resultados que se espera obter. Há, portanto, uma mudança muito importante na concepção da política monetária a partir dessa ata, e é bom que assim seja. Acredito que, de agora em diante, o BC terá muito mais cuidado do que demonstrou em abril deste ano, quando subiu a taxa de juros. Ele estava errado quando estimava que a taxa de juros real do Brasil tem de estar entre 6% e 7% ao ano, enquanto em todo o mundo civilizado ela se situa em níveis inferiores a 3%.

Pela primeira vez, como se vê na ata, coloca-se em dúvida toda essa parafernália. Para o desenvolvimento da economia brasileira nos próximos anos é sumamente importante que o BC tenha incorporado tais fatos e os leve em conta nas próximas decisões.