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Axel Kicillof, o homem-chave na crise argentina

por Deutsche Welle publicado 01/07/2014 10h06
O ministro da Economia é figura central nas negociações com credores internacionais. Brilhante e polêmico, ele corre contra o tempo à busca de uma saída para seu país
Telam / AFP
Axel Kicillof

Axel Kicillof fala sobre a dívida argentina durante entrevista coletiva em 23 de junho

O barco que faz a viagem de Colônia do Sacramento, uma pequena cidade turística no Uruguai, até Buenos Aires, localizada na margem oposta do Rio da Prata, está lotado de passageiros, num dia quente de fevereiro de 2013. A bordo, muitos argentinos que buscaram dólares em caixas eletrônicos uruguaios. Devido às regras absurdas na Argentina, não há outra possibilidade de se conseguir a moeda dos EUA numa cotação mais favorável.

De repente, a situação fica agitada: gritos e ofensas ecoam pela cabine. Elas são dirigidas a um jovem casal com duas crianças pequenas. O vice-ministro da Economia, Axel Kicillof, está a bordo com sua família. "Saiam do barco! Saiam do barco!", gritam diversas pessoas para eles – ainda no meio do rio. Por fim, o capitão do barco os leva em segurança para a sala de comando da balsa.

Acadêmico brilhante e político polêmico

Quase nenhum político argentino gera tantas emoções quanto Kicillof, de 42 anos. Pela população, ele é ou odiado ou adorado: não existe uma opinião de meio-termo. "Galã, superpai, dedicado": assim a revista Vanity Fair qualificou o ministro.

O homem que atualmente decide a política econômica argentina tem uma carreira meteórica: formou-se no Colégio Nacional de Buenos Aires, uma instituição de elite, graduou-se em economia na Universidade de Buenos Aires, recebendo nota máxima por sua tese de doutorado sobre o economista britânico John Maynard Keynes.

No passado, já como membro do diretório universitário, ele tinha posições extremamente esquerdistas, porém negando ser marxista. Ainda assim, para ler a versão original de O capital de Karl Marx, quis aprender a língua alemã. Mas o brilhante acadêmico não se interessa somente pela área acadêmica: política e poder o fascinam da mesma forma.

Com o início da era kirchnerista, Kicillof entrou para a política. Ele começou sua ascensão ainda durante o mandato do presidente Nestor Kirchner, morto no final de outubro de 2010. Durante o primeiro mandato da esposa e sucessora Cristina Kirchner, Kicillof se transformou definitivamente num "superastro".

A presidente o colocou como diretor da estatal Aerolíneas Argentinas, mas ele não conseguiu impedir o prejuízo diário de 2 milhões de dólares por dia da companhia aérea. Mesmo assim, passou de vice-ministro para ministro da Economia em novembro de 2013. "Eu encantei a presidente", teria dito a amigos sobre sua chefe.

Axel Kicilloff é considerado autoconfiante e arrogante. "Ele sempre foi um excelente estudante", afirma um antigo professor. "É hiperinteligente. Mas o que lhe quebra o pescoço é o pequeno Napoleão que tem dentro de sua cabeça."

Homem mais poderoso do gabinete

Nenhum outro membro do gabinete é tão ouvido por Kirchner como Kicillof. "Ele pertence ao grupo dos muito poucos que têm acesso direto à presidente", explica a jornalista Laura di Marco, que já escreveu diversos livros sobre o "kirchnerismo".

"Ele vai até mesmo almoçar na residência privada da presidente. Um privilégio de que pouquíssimas pessoas desfrutam. E mantém esse discurso político de esquerda – mesmo que sua política nem sempre corresponda. Eu digo sempre que ele é o filho que Cristina gostaria de ter tido."

Como ministro mais influente de todos, Kicillof esteve por trás da estatização da companhia petrolífera YPF, em 2012, antes propriedade da espanhola Repsol. Embora a ação tenha ajudado a aumentar a popularidade do governo junto a seus apoiadores, para os investidores o efeito foi o contrário, gerando pânico. Contudo: "Nós não podemos aceitar que uma empresa multinacional nos diga o que fazer com nosso gás e óleo", declarou Kicillof na época.

Reorientação ou desnorteamento?

Nos últimos meses, porém, o ministro da Economia negociou uma indenização à Repsol, além da renegociação da dívida argentina com o Clube de Paris. Para analistas como Marina dal Poggetto, de Buenos Aires, esse é um sinal claro.

"Ele se voltou para os mercados, para que o país possa novamente obter crédito. Ele não acredita mais que o controle cambial seja uma solução, mas sim que precisamos da injeção de novos capitais para construir um financiamento disciplinado", analisa a economista.

Sobre isso, os críticos de Kicillof têm suas dúvidas. Eles condenam todas as medidas com as quais o ministro tenta reforçar a economia argentina: preços da energia ditados, preços de alimentos congelados, exportações altamente tributadas e bilhões de dólares destinados a programas populistas – ou seja: economia planificada no sentido mais estrito de termo.

Agora, Axel Kicillof está perante o maior desafio de sua vida: por meio de negociações, ele tem que impedir que – como prescreve a decisão da Justiça dos EUA – a Argentina tenha que pagar aos detentores de bônus que não aceitaram a renegociação da dívida após a moratória de 2001. Caso a sentença seja aplicada, o país estará novamente à beira da falência, e milhões de argentinos sob ameaça de pobreza.

Não foi um bom começo a tentativa de Kicillof de minar a sentença com o "truque" de antecipar a transferência bancária da parcela para os credores que aceitaram a reestruturação da dívida. O ministro gosta de lidar com questões relacionadas a números: diplomacia e discrição, por outro lado, nunca foram o seu forte.

  • Autoria Marc Koch, de Buenos Aires (fc)
  • Edição Augusto Valente