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Economia

Entrevista

Austeridade sem vassalagem

por Luiz Antonio Cintra — publicado 02/12/2010 17h50, última modificação 06/12/2010 17h32
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, promete ajustes e diz que Tombini não carrega os vícios do mercado
Austeridade sem vassalagem

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, promete ajustes e diz que Tombini não carrega os vícios do mercado. Por Luiz Antonio Cintra. Foto: Fabio Pozzebom/Abr

Cerca de três horas após o anúncio oficial de sua permanência no Ministério da Fazenda, Guido Mantega tratava de reforçar a CartaCapital a tese de que 2011 será de austeridade nos gastos públicos.

Na entrevista a Luiz Antonio Cintra, Mantega indica que o corte da demanda estimulada pelo governo será compensado por estímulos que ampliem a participação privada, de modo que a economia continue a “rodar”, como ele diz, próxima dos 5% ao ano. Ao elogiar a escolha de Alexandre Tombini para o Banco Central, acabou por criticar os presidentes da instituição egressos do sistema financeiro. “Ele (Tombini) não deve vassalagem ao mercado.”

CartaCapital: O senhor fala em austeridade, autonomia do Banco Central e manutenção do sistema de metas de inflação. O que esperar de 2011?

Guido Mantega: O que está por trás disso é uma estratégia anticíclica do governo. Assim como nos últimos dois anos tivemos de ter uma participação maior do Estado para garantir o andamento da economia, agora a economia está reativada, então temos de recuar. Significa redução dos gastos de custeio, alguma dilação de investimentos... o Estado tem de dar uma ajustada, é inevitável. Mesmo porque a cada eleição todo mundo faz isso mesmo. A ideia é atenuar os excessos que a economia produz. O BNDES, por exemplo, vai ter muito menos recursos do que teve porque não é mais necessário. Também estamos criando mecanismos para que o setor privado possa complementar isso ou substituir o BNDES. É preciso fazer esse ajuste fiscal, o que ajuda a reduzir juros, porque se diminui a demanda. Trata-se de reduzir a demanda estatal e ampliar a demanda privada.

CC: Com relação às medidas de alongamento do crédito, o que será feito?

GM: Ainda faltam alguns aperfeiçoamentos, mas fundamentalmente que-remos estimular o mercado de debêntures, reduzir o custo, alongar. O principal é a questão do mercado secundário (de debêntures), que hoje não existe. É isso o que está sendo estudado. A ideia é criar oportunidade para que o setor privado possa entrar mais no financiamento de longo prazo a taxas mais baixas e competir com o setor público. Essas medidas deverão ser anunciadas em duas ou três semanas.

CC: O governo vai aumentar o superávit primário em 2011?

GM: Nós não vamos mexer, já que há uma projeção para os próximos anos e preferimos mantê-la. Era de 3,3%, agora tiramos a Eletrobrás e vai ficar em 3,1%, o que me parece ser um bom superávit a ser cumprido. Em 2011, se fizermos uma poupança adicional, vamos colocar no Fundo Soberano ou reduzir impostos. Não vejo necessidade de aumentar o superávit primário, ainda que o trabalho a ser feito será o de cortar o que dá para cortar.

CC: No caso do BNDES, qual será o tamanho do corte?

GM: Ainda não temos o tamanho, mas, certamente, eles receberão menos do que vão pedir.

CC: E o câmbio? O senhor estava muito preocupado com o que chamou de “guerra cambial” e dos efeitos desse cenário sobre o real. Foi o grande tema do G-20.

GM: E aí veio a crise na Irlanda.

CC: E agora se fala em Portugal.

GM: Exato. A crise na União Europeia dá uma acalmada ao valorizar o dólar, o que deu uma estabilizada no câmbio, mas os problemas não foram resolvidos. Acredito que o problema europeu será equacionado, o que não é muito simples, porque é um conjunto de países numa situação precária, mas a União Europeia e o FMI têm condições de equacionar.

CC: Diante dessa conjuntura, o controle cambial está descartado?

GM: Não tem nada descartado. Estamos fazendo o necessário. Não se deve ter a mão pesada com o câmbio, ele é muito sensível e pode gerar fluxos adversos de uma hora para outra. Procuro não me-xer mais do que o necessário. E acho que estamos conseguindo, ainda que não seja uma maravilha. Estamos com o dólar a 1,72 real, mas com uma certa estabilidade e não importa a razão. Não é o câmbio dos nossos sonhos, mas temos de levar em conta que, por questões estruturais, em algum momento o real deve-ria se desvalorizar. Estamos com o défi-cit em transações correntes relativamente maiores do que no passado, algo como 2,5% do PIB, e já tivemos algo como até 6% e, por isso, não chega a ser muito preocupante. Por esse resultado deveria ha-ver uma reação do câmbio, que não acontece porque há essa questão conjuntural de muita oferta monetária.

CC: O que representa o comando do BC nas mãos de Alexandre Tombini?

GM: O Tombini é um profissional de carreira com uma formação sólida. Ele esteve cinco anos no FMI, tem demonstrado competência no relacionamento com a Fazenda, que é mais intenso do que se imagina. O Tombini tem sido muito eficiente nessa relação. Ele tem a vantagem de ser um funcionário de carreira, portanto, não vem do mercado financeiro, não traz vícios e não deve vassalagem ao sistema financeiro. Se algum dia ele ti-ver de contrariar algum interesse, terá capacidade de fazê-lo. O problema são aqueles que vão e vêm, o cara está lá de passagem e quer agradar.

CC: O senhor mencionou medidas para reduzir a demanda pública. Também haverá necessidade de fazer o mesmo com a demanda privada?

GM: Há uma acomodação na demanda privada porque o ritmo de atividade da economia já se desacelerou. A gente fala em 7,5% (de crescimento do PIB em 2010), mas é a média, que inclui os 11% do primeiro trimestre e os 5,5% que devemos estar rodando ou nem sequer isso. Então a economia já deu uma desacelerada. Trata-se então de fazê-la rodar mais ou menos nesse patamar (atual).- De fato, se o governo sair mais, será preciso que a iniciativa privada entre mais, por isso a política monetária é importante. Será ela que vai estimular o setor privado. Caso contrário, o nível de atividade da economia poderá cair. Esse é o equilíbrio delicado que nós temos de administrar para o ritmo não cair abaixo de 5%, o que seria indesejável.

CC: Nicolas Sarkozy, que assumiu a presidência do G-20, falou que pretende abordar a alta dos preços das commodities, que para ele representa aumento de custos. Como o senhor vê esse debate?

GM: Agora a culpa é das commodities? A culpa é dos franceses que não recupe-raram a economia. Quando ficam jogando contra a China, eu digo “pera aí”, mas a China atrelou sua moeda ao dólar, os americanos é que estão puxando para baixo o dólar, uma moeda universal e reserva de valor. A China está correndo atrás. Por isso digo que precisamos -olhar mais para o dólar do que para a moeda chinesa, que é de um país ainda em desenvolvimento. Todas as vezes que o dólar se desvaloriza cria problemas para a economia internacional, é histórico, já aconteceram várias vezes. Essa questão do Sarkozy... ele não tem muitos aliados e nós vamos descer o cacete, porque é muito cômodo estabelecer um limite para o preço ou cobrar uma taxa, se apropriando da renda das commodities.

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