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Economia

Entrevista - Denis Pietton

"As empresas francesas querem trabalhar aqui"

por Luiz Antonio Cintra — publicado 28/11/2013 14h21, última modificação 28/11/2013 14h26
Segundo o embaixador da França no Brasil, as companhias estão de olho no país, mas ainda esbarram na demora exagerada para se instalar no mercado
Embaixada da França no Brasil
Denis Pietton

O embaixador francês no Brasil, Denis Pietton

No Brasil desde julho passado, o embaixador da França, Denis Pietton, tem ocupado postos importantes da diplomacia de seu país. Fluente em árabe, representou o governo francês em Jerusalém e Beirute. Antes de mudar-se para Brasília, chefiou o gabinete do ministro das Relações Exteriores, Laurent Fabius. Na entrevista a seguir, Pietton comenta o caso de espionagem do governo dos EUA revelado por Edward Sowden, a concorrência para vender os caças para o Brasil, a entrada da francesa Total no consórcio que levou o campo de Libra e a presença da China na economia global. “A França investe no Brasil, criamos empregos aqui, transferimos tecnologia, somos o quarto país em investimentos e o décimo parceiro comercial, ou seja, investimos muito mais em comparação com o comércio. A China, por sua vez, vende muito, mas no fim das contas investe pouco em outros países.”

CartaCapital: Como a França avalia as ações de espionagem do governo norte-americano?

Denis Pietton: Quando surgiram as informações sobre a espionagem norte-americana na Europa, na França, na Alemanha, em todo o mundo, tanto o presidente Hollande como o ministro das Relações Exteriores disseram que elas eram inaceitáveis e que a amplitude e a natureza dessa espionagem era um problema, tratando-se de países aliados. O ministro pediu que o embaixador norte-americano em Paris fosse convocado a ir ao ministério, e o assunto se impôs na agenda do Conselho Europeu que reúne os chefes de Estado e os ministros de Defesa. No conselho ficou decidido que a França e a Alemanha deveriam discutir a questão com os EUA, para chegarmos a novas práticas que sejam aceitáveis e respeitem a soberania dos demais países e das liberdades públicas. O tema também teve muito destaque no Brasil, a presidenta Dilma Rousseff reagiu vivamente em sua fala na Organização das Nações Unidas. E existe este projeto apresentado pelo Brasil, Japão e Alemanha na ONU (para dar mais segurança à internet), que a França irá apoiar.

CC: Recentemente a presidenta Dilma Rousseff disse que ainda aguardava um pedido formal de desculpas por parte dos EUA. No caso francês, houve esse pedido?

DP: O secretário de Estado da França declarou recentemente que a espionagem norte-americana foi longe demais. As desculpas se referem sempre ao passado, mas o que nos interessa, e ao Brasil também, é mais voltado para o futuro. Pretendemos chegar a um tratado internacional que leve em conta as soberanias nacionais e o respeito às liberdades individuais, no contexto do monitoramento eletrônico digital, com um quadro bem definido com essas prioridades respeitadas. Mas o que passou, passou, e o que importa é o futuro, ainda que possamos esperar desculpas e o reconhecimento de terem ido longe demais. Mas o mais importante é que não aconteça novamente.

CC: Recentemente surgiu a informação de que um dos desdobramentos do caso Snowden teria sido a desistência do governo brasileiro de comprar os aviões dos EUA. A França considera que surgiu aí uma oportunidade para a venda dos caças da Rafale?

DP: Prefiro olhar para este assunto com uma abordagem diferente. O caso da espionagem levou a uma consequência, o adiamento da visita que a presidenta Dilma Rousseff faria aos EUA. Eu não soube que uma decisão foi tomada pelo Brasil na compra dos caças. O que nos importa é que a proposta francesa para a venda dos Rafale está na mesa ainda. Acreditamos que são aviões multifuncionais com várias vantagens e possibilidades de uso, mas ainda em fase de desenvolvimento. De qualquer forma, é um avião que existe e já foi usado em operações militares, por exemplo, no Afeganistão. Consideramos que a proposta francesa é interessante e corresponde aos interesses brasileiros. Mas sabemos que se trata de uma decisão que cabe à presidenta, que decidirá sobre o melhor momento para a compra do avião, se agora ou mais tarde, bem como quais os caças.

CC: Na construção do submarino nuclear, o Brasil e a França são parceiros. O fato de a França e os EUA serem aliados afeta a transferência da tecnologia do projeto para o Brasil?

DP: Existem duas frentes de cooperação, uma para a construção de um submarino convencional e outra para o de propulsão nuclear. Ambos avançam muito bem. Estive na base de Itaguaí, onde os projetos estão sendo desenvolvidos normalmente. São projetos muito complexos, por isso são muitos os problemas que surgem, praticamente todos os dias, mas tive a confirmação da Marinha brasileira de que o contrato está sendo cumprido de maneira satisfatória. Em relação aos EUA, uma característica da França é que quando decidimos exportar produtos com tecnologias sensíveis não temos obrigação de pedir autorização para ninguém. E isso porque a França é dos poucos países a dominar todo o conjunto dessas tecnologias, e isso vale para a construção dos submarinos, mas também para a construção aeronáutica. A palavra da França é suficiente para garantir o nosso compromisso integral, sem levar em conta quaisquer interferências.

CC: No leilão do campo de Libra, a francesa Total entrou no consórcio vencedor com a Petrobras. Aqui no Brasil houve muitas críticas em relação ao chamado regime de partilha, em que a participação estatal seria, segundo esses críticos, excessiva. Como o sr. avalia a participação da Total e essas críticas?

DP: Para nós, a participação da Total no consórcio é evidentemente uma boa notícia. A Total é uma das maiores empresas petrolíferas com presença internacional, com toda a tecnologia de exploração de petróleo. E recentemente ela adquiriu vários blocos para exploração petrolífera na região Norte do Brasil. E agora estamos mudando de dimensão. Existem indicações bem precisas segundo as quais há muito petróleo no pré-sal. Para a Total, será um grande investimento. A empresa terá de transferir para o Brasil nos próximos anos de 20 a 30 bilhões de dólares, trata-se de um investimento de longo prazo no Brasil. Como embaixador da França, só posso considerar essa uma boa notícia porque se trata de um elemento estrutural nas relações entre os dois países. O fato de a Total decidir aceitar essa participação mostra a plena confiança na PPSA, que será a operadora dos campos do pré-sal, e Petrobras. E o fato de existirem pessoas competentes do lado brasileiro foi decisiva para a Total se comprometer com esse investimento de uma maneira tão forte.

CC: As empresas francesas possuem vários investimentos na economia brasileira, notadamente no setor industrial, caso da indústria automobilística. Quais críticas o sr. faria ao ambiente de negócios no Brasil?

DP: Tenho constatado que as empresas francesas querem trabalhar aqui, de modo geral com a criação de subsidiárias no País. Mas nunca é fácil, há de modo geral muita demora para se instalar de fato, isso antes de começar a atuar no mercado brasileiro. Mas, uma vez instaladas no País, elas se tornam sociedades brasileiras e, de modo geral, estão muito satisfeitas em trabalhar no Brasil. É isso que explica o fato de o estoque de investimentos franceses no Brasil cresceu muito. Éramos o quinto país com mais investimentos aqui e, a partir do investimento em Libra, provavelmente somos agora o quarto colocado. As empresas francesas também estão satisfeitas porque o mercado brasileiro é enorme, além da posição que o Brasil ocupa na América do Sul.

CC: E como enfrentar a concorrência chinesa?

DP: A China é um concorrente comercial, mas é também uma grande parceira. É uma grande parceira para o Brasil e para a França também, particularmente no setor aeronáutico e nuclear. Em relação à China, não podemos fazer avaliações simplistas. No caso das relações com o Brasil, há uma diferença: a França investe no Brasil, criamos empregos aqui, transferimos tecnologia, somos o quarto em investimentos e o décimo parceiro comercial, ou seja, investimos muito mais em comparação com o comércio. A China, por sua vez, ela vende muito, mas no fim das contas ela investe pouco em outros países. E quando investe às vezes é complicado, por isso, para o Brasil, são relações muito diferentes.