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Alta da inflação preocupa e deve causar aumento dos juros

por Sul 21 — publicado 14/12/2010 17h56, última modificação 23/12/2010 10h11
Apesar das medidas do governo para desacelerar a economia e reduzir o crédito, inflação sobe, mas continua dentro da previsão para o ano
Alta da inflação preocupa e deve causar aumento dos juros

Apesar das medidas do governo para desacelerar a economia e reduzir o crédito, inflação sobe, mas continua dentro da previsão para o ano. Foto: Olga Vlahou

por Felipe Prestes

A inflação oficial brasileira está acima da meta, de 4,5%. Estudo divulgado pelo Banco Central, nesta segunda-feira (13), aumenta a estimativa da inflação oficial em 2010, de 5,78% para 5,85%. Economistas afirmam que o índice não é motivo para pânico, já que está dentro do limite previsto, de 6,5%. Mas não negam que o governo deve se preocupar com o tema.

“Há razão para preocupação, mas não para alarme, porque a inflação ainda está em um nível, digamos, civilizado”, afirma o ex-ministro da Fazenda Marcílio Marques Moreira, para quem os índices de preços acendem o “sinal amarelo” no país. O professor de economia da PUCRS, André Scherer, também não vê maior problema no atual índice de inflação. “Ele ainda está dentro da faixa de inflação que o governo dá. Então não tem grande problema com relação a isso”.

Para conter a inflação, a taxa básica de juros, a Selic, deve subir em 2011, passando dos atuais 10,75%, para 12,25% até o final do ano que vem, sinaliza o estudo do Banco o Central. E para evitar que os juros subam, o governo federal toma uma série de medidas, como fez na semana passada, visando a redução do crédito e a desaceleração da economia. Os especialistas, porém, acreditam que dificilmente o objetivo será alcançado.

“O BC já tomou medidas e diz que agora vai esperar o efeito, mas é provável que seja necessário aumentar a taxa de juros”, diz Marcílio Marques Moreira. O economista da FEE Antônio Carlos Fraquelli tem opinião semelhante: “Usaram todas as medidas agora para não ter que subir os juros. Mas acredito que vai acabar acontecendo em 2011”.

Fatores externos

André Scherer discorda da necessidade de aumento dos juros para conter a inflação. O economista explica que esta medida não alteraria os fatores externos que vêm causando a alta da inflação. O principal é o aumento dos preços das commodities no mercado internacional, o que eleva o preço de vários produtos no país. “É o tipo de inflação que não adianta a gente combater com aumento de juros. Que efeito isto vai fazer sobre as commodities mundiais? Para fazer algum efeito com aumento de juros, a gente precisaria de muito aumento, e isto seria contraproducente para nossa economia”, afirma Scherer.

O alto preço das commodities se dá por duas razões. Uma delas é o crescimento econômico da China e da Índia, que aumentam a demanda por commodities e pressionam seus preços. O outro é que as aplicações financeiras não estão rentáveis nos EUA e na Europa, devido à crise. Assim, investidores abarrotados de dólares têm aplicado seu dinheiro em commodities, pressionando também os preços de produtos consumidos pelos brasileiros, como a carne bovina e o açúcar.

“Há muito dólar e pouco rendimento. Então os detentores destes dólares aplicam em bolsas de commodities. Quando muitos fazem isso, o preço sobe”, afirma Scherer. O economista da FEE Antônio Carlos Fraquelli dá explicação semelhante ao aumento da inflação. “Quando o investidor deixa de ter atração pelo investimento nos EUA e na Europa, ele começa a aplicar nas commodities. Isso aumenta o preço dos alimentos”, diz.

“O contexto internacional não é tão favorável como no período entre 2003 e 2008. Hoje, temos tendências inflacionárias”, diz Marcílio Marques Moreira. Ele aponta fatores semelhantes aos apontados por Fraquelli e Scherer para esta tendência: o excesso de dólares e euros no mercado, na tentativa de norte-americanos e europeus se livrarem da crise, e os crescimentos, chinês e indiano. “Com os bancos centrais dos EUA e da Europa abrindo as comportas (emitindo moeda), isso se traduz em tendências inflacionárias. Tanto que a China está com quase 10% de inflação e a Índia com mais de 10%. A inflação é uma coisa que se espalha”, diz Moreira.

Segundo Antônio Carlos Fraquelli, o aumento dos preços das commodities preocupa porque influencia outros preços. O Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M), por exemplo, é medido, em parte, pelos preços de alimentos no atacado, e é utilizado para reajustar o de aluguéis de imóveis. Assim, a alta da carne pode influenciar, por exemplo, no aumento dos aluguéis. Isso para não falar de commodities que influenciam a economia mundial de maneira significativa, caso do petróleo, que vem mantendo alta cotação graças ao crescimento econômico da China.

Novos conceitos

André Scherer acredita que a política econômica do país tem tido uma mudança importante, que deve se acentuar no próximo governo. Segundo ele, o governo não vê a taxa de juros como a única maneira de manter a economia estável. Ele cita medidas para restringir o crédito como importantes para controlar a inflação. E exemplifica lembrando que, com o crédito fácil, o mercado de automóveis já sofria neste ano com a falta de peças, o que causaria aumento no preço dos carros. Entretanto, ao restringir o crédito, o governo conteve este aumento. “É preciso tirar a centralidade dos juros como único meio de acertar a atividade da economia”, afirma Scherer.

O professor de economia da PUCRS afirma ainda que o Brasil precisa alterar o conceito de inflação oficial. Segundo Scherer, deveria haver, como nos Estados Unidos, um “núcleo de inflação”, que não inclui os preços dos alimentos. “Nos EUA a inflação oficial, que baliza a taxa de juros, não leva em conta os preços de alimentos, porque tu podes ter problemas com as bolsas internacionais. Podes ter seca. O que tu controlas sobre isso? Se tiver seca, o que adianta subir a taxa de juros?”, questiona.

Outra forma de conter a inflação é investir mais e consumir menos. Scherer comemora o fato de os investimentos terem ultrapassado os 19% do PIB nacional em 2010. Há vários anos, o país tem consumido mais do que produzido, aumentando as importações. O investimento, contudo, tem tido crescimento mais acelerado, maior que o do consumo, tendência que vem se consolidando. Segundo Scherer, o equilíbrio entre o que se produz e o que se consome é também essencial para que tenhamos uma inflação sob controle. Investir, ao invés de gastar, é um modo de segurar a alta inflacionária.

“A política do governo é no sentido de desestimular o consumo excessivo – por exemplo, a compra de automóveis em 90 prestações – e transitar para que estes recursos caiam no lado do investimento. Mantega vai lançar um pacote estimulando o setor privado a investir no longo prazo, que é um dos grandes gargalos da economia brasileira. Aos poucos estamos transitando do consumo para o investimento como fator dinâmico do PIB. Este ano de 2010 marca a consolidação desta tendência. Dá certa esperança no sentido de controlar a inflação”, afirma Scherer.

Corte de gastos

O ano de 2011 poderá ser marcado por contradições entre BC e Ministério da Fazenda, caso o banco aumente a taxa de juros até chegar a 12,25%. É que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, havia anunciado na semana passada que pretende diminuir a participação da dívida pública no PIB nacional dos atuais 41% para 30% até o final de 2014. Aumento de juros gera aumento da dívida. A não ser que haja um aperto dos gastos públicos, tese defendida por Marcílio Marques Moreira.

“É necessário um ajuste fiscal bastante severo. Precisamos aproveitar o momento ainda bastante favorável de arrecadação, de crescimento econômico para fazermos agora, não em um futuro onde este ajuste pode ter repercussão bem mais desfavorável”, afirma o ex-ministro. Para Marques Moreira, o governo precisará evitar “aumentos substanciais” com pessoal, e do salário mínimo, como vem fazendo. Ele afirma que, embora seja importante termos bons salários no país, o Brasil não pode cortar em investimentos. “Sempre é desejável que as pessoas ganhem mais, mas é preciso não perder capacidade de investimento. O investimento neste ano já está acima de 19% do PIB, o que é uma melhora significativa, mas nós precisamos chegar a 25% de investimento. Também poupamos muito pouco, apenas cerca de 16% do PIB”, diz o ex-ministro.

André Scherer tem visão bem diferente da do ex-ministro. Para o professor gaúcho, a busca pela redução da dívida pública deve ser, de um lado, com o crescimento do PIB e, de outro, com a redução dos juros. “Há pessoas que falam em reduzir gastos, mas a principal fonte do gasto público são os juros. O governo só vai conseguir atingir a meta de reduzir a dívida em relação ao PIB de duas formas: aumentando o PIB e evitando que a dívida aumente muito. O governo vai evitar de todas as formas o aumento dos juros”.

De acordo com Scherer, a disposição do ministro da Fazenda, de reduzir a dívida pública, se concretizada, deve inclusive auxiliar uma possível redução dos juros. Com menos títulos da dívida pública, menor é a pressão do mercado financeiro para que se aumente a taxa de juros.

A crise em vários países europeus está sendo causada por um descontrole da dívida pública, que é justamente o que Mantega quer evitar. Na Grécia, por exemplo, o descontrole dos gastos faz com que o país tenha apenas duas opções: ou aceitar empréstimos a juros altíssimos, ou aceitar o receituário de cortes severos de gastos imposto pelo FMI. A Grécia escolheu a segunda opção. “O Brasil quer dizer para o mundo que não teremos problema com a dívida. Quer evitar de incorrer no mesmo erro que a Europa”, explica Antônio Carlos Fraquelli.

Para Fraquelli só uma reforma tributária, que aperfeiçoe a arrecadação de tributos no país, pode reduzir a dívida pública. O economista afirma que o Brasil pode arrecadar mais sem desestimular a economia, tomando medidas que facilitem, por exemplo, a criação e a sobrevivência das empresas. Para a dívida ser reduzida é preciso que o governo gaste menos do que arrecada – o chamado superávit. O crescimento que o país vem tendo, segundo Fraquelli, torna ainda mais realizável a tarefa de elevar o superávit, sem afetar a economia. Para tanto, basta fazer a reforma tributária.

“É preciso colocar o tributo pela base da população. O país passou 25 anos com crescimento econômico insuficiente e começou a crescer. Então, não há este problema de imaginar que a pessoa vai pagar mais. O país deve aumentar a base de quem vai contribuir, reduzir obstáculos para criação de empresas, acabar com a guerra fiscal”, afirma o economista.