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Paulo Daniel

Ainda sobre Belo Monte…

por Paulo Daniel — publicado 02/12/2011 10h00, última modificação 06/06/2015 18h57
Os globais, os alunos da Unicamp, Marx e as 'consequências ecológicas' do capitalismo
Vídeo que satiriza produção de globais em campanha contra Belo Monte. Imagem: Reprodução Youtube

Vídeo que satiriza produção de globais em campanha contra Belo Monte. Imagem: Reprodução Youtube

. Um com uma excelente produção e atores globais, diga-se de passagem, com um razoável conteúdo contra a construção de Belo Monte e, outro, realizado em sua maioria por estudantes da Unicamp (Universidade de Campinas) e, também, com excelente conteúdo, entretanto, em defesa da construção da Usina Hidrelétrica no Pará. Em ambos a questão central discutida é o meio ambiente. Neste sentido, gostaria de ampliar as provocações ou, quem sabe, talvez, procurar discernir algo.

As palavras “ecologia” e “meio ambiente” mantêm um grau elevado de neutralidade diante dessa realidade. Elas se tornaram impróprias e perigosamente inadequadas, de forma que seria necessário substituí-las por outras mais apropriadas. Isso só poderá ser feito no quadro de uma crítica renovada do capitalismo que vincularia, de forma indissociável, a exploração dos dominados pelos possuidores de riqueza e a destruição da natureza e da biosfera.

Para entender as relações do capitalismo com suas condições de produção “externas”, é necessário retornar às origens e aos fundamentos sociais desse modo de produção e de dominação social. A guerra travada pelo capital para arrancar o campesinato à terra e para submeter a atividade agrícola inteira e exclusivamente ao lucro, da qual vivemos novos episódios hoje em dia, é uma guerra fundadora do novo modo de produção e das formas sociais de dominação que lhe são próprias.

Marx foi quem melhor explicou as consequências, digamos, ecológicas do capitalismo. Na longa quarta seção do livro I do Capital, sobre a produção da mais-valia relativa, ele trata da exploração dos operários agrícolas e industriais no quadro de desenvolvimentos mais amplos sobre a relação entre a agricultura e a grande indústria. Uma leitura minimamente atenta indica até que ponto, para Marx, a ideia de progresso está subordinada à de revolução: “Com a crescente preponderância da população das cidades que ela aglomera em grandes centros, a produção capitalista, de um lado, acumula a força motora da história; de outro lado, ela destrói não somente a saúde física dos operários urbanos e a vida intelectual dos trabalhadores rústicos, mas ainda perturba a circulação material entre o homem e a terra”.

Hoje como ontem, em condições históricas distintas, toda a questão está na capacidade de auto-organização dessa população, majoritariamente urbana, de vendedores de sua força de trabalho a ponto de ser capaz de desempenhar esse papel de “força motriz da história”, isto é de sujeito político decidido a acabar com o capitalismo.

Na ausência ou numa situação de paralisia de tal sujeito político, o que domina é a consolidação e a acentuação de um processo em que “cada progresso da agricultura capitalista é um progresso não somente na arte de explorar o trabalhador, mas também na arte de depenar o solo; cada progresso na arte de aumentar a fertilidade por um certo tempo torna-se um progresso na ruína das fontes duradouras da fertilidade. Quanto mais um país, os Estados Unidos por exemplo, se desenvolve na base da grande indústria, mais rápido ocorre esse processo de destruição”. E Marx terminava com essa frase da qual se fez uma utilização teórica bastante, ou mesmo muito limitada: “A produção capitalista só desenvolve a técnica (…) esgotando as duas fontes das quais jorram toda a riqueza: a terra e o trabalhador”.

Portanto, a necessidade da construção de grandes centrais hidrelétricas na Amazônia deriva, não só porque deverá arrefecer o movimento de aumento do preço da energia no mercado atacadista, mas também, para a manutenção do multifacetado capitalismo brasileiro. É intrínseco ao capital sua acumulação e produzir uma enxurrada de mercadorias, por isso, a energia é essencial, não somente para a utilização dos “i tudo”, mas para sua produção. Além do que, me desculpem meus(minhas) amigos(as) verdes, mas não é possível discutir energias alternativas no capitalismo, isso é, tão somente só, paliativos e marketing ambiental.

Por fim, o vídeo dos globais me coloca em dúvida. São contra a construção de Belo Monte, pois a oferta de energia aumentará e, por sua vez, de acordo com sua distribuição (neste sentido, o Estado é essencial para regular, distribuir e interferir nesse tipo de mercado), tenderá a diminuir aqueles(as) que vivem nas trevas? Ou porque são realmente contra o processo produtivo que estamos vivendo, ou seja, o capitalismo? Se, for pela segunda opção, sugiro um segundo vídeo; com o seguinte tema: Produzir o quê? E para quem?

Será que alguém toparia?

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