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Economia

China

Ainda crescem

por Delfim Netto publicado 29/11/2011 09h38, última modificação 06/06/2015 18h57
A China já sente os efeitos dessa retração global na atividade da sua indústria, especialmente em setores direcionados para as exportações

Demorou um pouco, mas os chineses deixaram de lado as meias-palavras para admitir que também estão pondo as “barbas de molho”, aceitando como inevitável uma redução do ritmo do crescimento para os próximos anos. Eles procuraram retardar ao máximo essa mudança no “plano de voo”, até se convencerem de que a economia mundial vai permanecer estagnada por um longo tempo.

A China já sente os efeitos dessa retração global na atividade da sua indústria, especialmente em setores direcionados para as exportações. Um sinal de alarme foi acionado na semana passada quando se conheceram os resultados preliminares da pesquisa com os dirigentes de compra realizada pelo Banco HSBC, revelando uma forte queda no índice da atividade calculado para este mês de novembro em relação a outubro, a mais importante -desde  -março de 2009.

Fatos com oesse levaram os governantes chineses a anunciar a preparação de um novo programa de incentivos para a produção de equipamentos industriais nos setores de energia alternativa, construção civil, biotecnologia e tecnologia da informação, prioritariamente. Notícias filtradas durante o encontro da Comissão Conjunta de Comércio China-EUA em Pequim falam de estímulos que podem somar 1,7 trilhão de dólares nos próximos cinco anos, um pouco mais do dobro do que foi aplicado para sustentar o crescimento da economia chinesa desde a crise 2008/2009.

O desaquecimento nas demais economias vai obrigar a China (segundo maior exportador mundial) a olhar menos o comércio exterior e priorizar a expansão de seu mercado interno. Não se faz um redirecionamento dessa ordem sem traumas, mas “sempre será melhor um crescimento desequilibrado do que o declínio equilibrado”,como acredita o vice-primeiro-ministro Wang Qisham, apostando que essa pode ser “a melhor opção para lidar com o estado crônico de fraqueza da economia mundial”.

Wang está reconhecendo a mesma situação que levou o governo brasileiro, há seis meses, a acelerar o processo de redução da taxa de juros, reorientando a ênfase da política para o crescimento econômico. Foi a escolha certa para enfrentar a perspectiva de crescimento da economia mundial, que era muito ruim e só fez piorar desde então.

Há um estado de confusão quase inacreditável nos Estados Unidos, com o prolongamento da briga política entre republicanos e democratas, que só conseguem enxergar no horizonte a disputa eleitoral de outubro do ano que vem, enquanto o chão lhes foge embaixo dos pés e cresce a erupção do vulcão da indignação popular em todo o país.

Na antiga Europa, rebrotam os desentendimentos produzidos pela impossibilidade das operações do Banco Central Europeu. Basicamente porque países como a Alemanha se recusam a permitir que o Banco Central venha a exercer o seu papel de emprestador de última instância, sob o argumento de que os países que se comportaram mal vão se acomodar e não farão os duros ajustes que lhes são cobrados.

A clivagem política nos Estados Unidos, o enfraquecimento econômico da Zona do Euro e mais a certeza de um desenvolvimento mais lento da economia chinesa aumentam as dúvidas sobre os níveis de crescimento nos demais países. Certamente afeta a vida dos brasileiros. Desde o início das crises, nossa economia tem resistido bem, crescendo relativamente mais que a maioria dos nossos parceiros.

Nesta fase mais recente do aperto europeu, o Brasil teve de reduzir o ritmo do seu desenvolvimento, mas continuou com a economia em boas condições, graças à reação do governo reforçando a oferta do crédito e ampliando os investimentos, especialmente em obras que fazem parte do PAC.  Apesar das dúvidas sobre o volume dos investimentos, basicamente em razão da situação mundial, a desaceleração foi menor do que se previa.

O ano de 2011 praticamente está dado: o PIB crescerá 3% sobre 2010, podendo a taxa variar entre 3,2% e 2,9%, nada muito diferente. Para 2012, estima-se que a taxa de investimento poderá chegar a 21% do PIB. É uma possibilidade apontada pelo secretário-executivo do Ministério da Fazenda, o competente economista Nelson Barbosa. Um nível de investimento que, embora não seja o que todos gostaríamos, é capaz de suportar um crescimento acima de 3,5% em 2012, podendo perfeitamente chegar a 4% ou 4,5%, que é o desejável. O importante é saber que o governo está se empenhando para preparar a economia para alcançar esse resultado em 2012.