Você está aqui: Página Inicial / Economia / Agora, com o pé direito

Economia

Calçados

Agora, com o pé direito

por Luiz Antonio Cintra — publicado 08/11/2010 17h46, última modificação 11/11/2010 19h08
A indústria de Franca, de eternas crises, cresce no ritmo nacional e consegue até exportar
Agora, com o pé direito

A indústria de Franca, de eternas crises, cresce no ritmo nacional e consegue até exportar. Por Luiz Antonio Cintra. Foto: Samuel Lorenzetti

Na linha de produção da Democrata, em Franca, a 416 quilômetros da capital paulista, o número de funcionários cresceu 30% desde o início do ano, e o trabalho é intenso. As caixas pretas ao fim do processo de montagem indicam os produtos destinados ao mercado doméstico e as brancas, para exportação. Na tarde da quinta-feira 28 e a despeito do real valorizado a encarecer os produtos made in Brazil, as caixas claras representam pouco mais de um quarto do total produzido.

Dentro das caixas for export, pares de um modelo social em estilo italiano, costurado à mão, solado em couro curtido e quase nada de matéria-prima sintética, como preferem europeus, norte-americanos e asiáticos endinheirados. Os pares seguirão para o mercado inglês, onde serão vendidos com a etiqueta de uma marca estrangeira conhecida na Europa.

Quem anda pela cidade não vê sinal de crise, mesmo com a queda do dólar a turbinar as importações. Longe disso. Falta mão de obra qualificada, os salários crescem e Franca está em vias de superar o recorde histórico de produção, registrado em 2004, diante da expectativa de fabricar 35,5 milhões de pares até dezembro. Mesmo as exportações fecharão em alta de 20% em relação a 2009 – e há quem esteja vendendo sapatos inclusive para os chineses, via Hong Kong.

Capital brasileira do calçado masculino tipo exportação, Franca já apanhou muito no mercado internacional. Na cidade, são frequentes os relatos de empresas que, após ganhar escala e passar a competir no exterior, entraram na descendente e fecharam as portas por causa da dependência das vendas em dólar e às oscilações do câmbio. Sem falar nas mudanças de hábitos de consumo e na concorrência pesada dos asiáticos, a começar pelos chineses. Samello e Agabe, ambas em recuperação judicial, são dois casos sempre citados.

Professor da Poli-USP, o economista Renato Garcia acrescenta ainda as dificuldades de sucessão nas empresas familiares. “As empresas maiores não conseguiram resistir. Desta vez, o crescimento forte vem do mercado interno e puxa a indústria local, tecnicamente muito competente, mas ainda dominada pela informalidade. Por causa da valorização do real, os compradores internacionais já não mantêm escritórios de representação na cidade, que operam por décadas. Também por isso levou tempo para Franca começar a desenvolver a parte da criação. A piada segundo a qual a máquina fotográfica era o principal equipamento na cidade para inovar já não é tão verdadeira”, comenta Garcia.

Se ainda falta capacidade criativa à indústria francana, avalia o especialista, o esmero técnico na execução dos projetos encomendados vai de vento em popa e ajuda a explicar as crises -superadas. Enquanto caminha entre os equipamentos da fábrica, o diretor-financeiro da Democrata, Carlos Roberto Cintra, deixa entrever por que a empresa é apontada como exemplo em inovação, responsabilidade social e mesmo competitividade nos mercados mais disputados como a China, imbatível na produção em larga escala e a preços ínfimos. A classe média chinesa anda, porém, ávida por comprar sapatos de maior qualidade, handmade em couro, tradicionalmente fabricados na Itália, ainda um fabricante importante de calçados finos e equipamentos para a indústria.

“Em agosto, fomos a Xangai numa missão de seis fabricantes, alguns de Franca, outros do Rio Grande do Sul. A expectativa é fecharmos encomendas diretamente com a China e novamente com Hong Kong. São 400 milhões de chineses na classe média, com alto poder aquisitivo.”

Resultado de uma parceria da Abicalçados, a associação nacional das empresas maiores, e Apex, a agência federal de incentivo às exportações, a visita à China concentrou-se em fabricantes brasileiros de produtos de maior valor agregado, intensivos em mão de obra. São em geral encomendas pequenas, de alguns milhares de sapatos. Além da Democrata, participaram da ofensiva a Albanese e a Anatomic & Co., ambas também de Franca, e a Miezko, Via Uno e Dumond, do Rio Grande do Sul.

Com 9 mil pares produzidos ao dia, a Democrata segue a tendência de outras empresas de porte de Franca, que mantêm unidades no Ceará, onde o governo estadual há mais de uma década reduziu os impostos e deu outros incentivos para atrair novos empreendimentos. Com isso, elas pegam carona no crescimento do mercado doméstico, particularmente do nordestino, que cresce acima da média nacional.

É a expansão interna que garante os bons ventos em Franca, apesar da gradual recuperação das exportações. E que afasta o fantasma da desindustrialização, sempre a rondar a cidade. Mais acertado, dizem os especialistas, é falar em reconfiguração industrial, com ganhos de produtividade decorrentes inclusive dos investimentos em maquinário importado mais eficiente, facilitados pelo dólar barato.

Há 20 anos, o empresário Geraldo Ribeiro, proprietário das marcas Opananken e OPNK, notou que poderia sair na frente da concorrência, aproveitando as inovações tecnológicas que conheceu em um ano e meio como supervisor de produção de fábricas em Portugal e Espanha, que produziam para vender na extinta União Soviética. “Quando voltei da Europa, procurei alguma fábrica interessada em produzir um modelo que eu trouxe, mas não achei ninguém. O jeito foi abrir a minha própria fábrica”, diz seu Geraldinho, como é conhecido na cidade, 40 anos de experiência no “chão da fábrica”, onde passa a maior parte do dia.

Para os especialistas, seu Geraldinho deu o bote na concorrência quando lançou um calçado mais largo que o normal, com uma palmilha anatômica, feita em resina moldável. “Criei o conceito do sapato antiestresse, que reproduz a sensação de andar na areia descalço. Agora o meu calçado é o mais pirateado de Franca. Usamos solado em poliuretano injetado, cuja resistência permite o uso de costura sem a necessidade de colar.” Feito em couro de cabra, os calçados da marca flertam com o estilo dos calçados médicos ou para pessoas com diabetes, neste caso com selo de certificação.

Sempre pronto a criticar a carga excessiva de impostos, especialmente em relação aos produtos para exportação, José Carlos Brigagão, presidente do Sindifranca, não tem como negar a boa onda nos negócios, que também foram beneficiados pelo crescimento da renda dos mais pobres. Os empresários locais sabem, contudo, que não há outro caminho a não ser investir em produtos mais elaborados, já que os sapatos tipo commodity da China são imbatíveis.

“Fabricamos calçados há 190 anos, mas agora estamos finalmente acertando com o Inpi a criação de um selo de procedência, como fazem os franceses no caso do vinho. A nossa indicação geográfica estará atrelada a compromissos que as empresas terão de assumir em relação ao meio ambiente, combate ao trabalho infantil, destinação dos resíduos industriais, que são um problema da indústria de calçados”, diz Brigagão. O caso mais complicado são as sobras de couro, cujo processo de tratamento inclui o cromo, um produto tóxico de difícil decomposição. “Com essas medidas, conseguiremos agregar valor aos produtos, o que a China não consegue, já que eles têm problemas trabalhistas e ambientais seriíssimos.”

Brigagão comenta outro aspecto da reconfiguração que a indústria local atravessa. Nos últimos anos cresceu de forma consistente a participação dos calçados femininos no conjunto da produção. A Democrata, por exemplo, finaliza a sua primeira coleção, a ser lançada nos próximos meses. O sindicato estima que os calçados para mulheres representem atualmente perto de 14% da produção.

Apesar da retração do mercado externo, no plano geral a indústria brasileira de calçados não tem do que reclamar – o mercado como um todo crescerá aproximadamente 25% em relação a 2009. A taxação em 13,85 dólares por par de calçados importados da China, válida desde março deste ano, ajudou a turbinar o mercado doméstico, que fechará o ano com quase 1 bilhão de pares fabricados. Com o resultado, o País estará atrás da China (9,5 bilhões) e Índia (2 bilhões) em número de pares de calçados produzidos anualmente.

Além dos novos equipamentos e da eficiência técnica, a indústria de Franca também se beneficia do núcleo de design do Senai, em atividade na cidade há décadas e reequipado desde 2002. Nos próximos meses, será inaugurado o primeiro curso superior de Tecnologia e Design em Calçados. “Iniciativas como as do Senai são importantíssimas. A indústria local forjou-se com a vantagem competitiva de produzir sapatos de boa qualidade, mas ainda são raros os casos de excelente qualidade. E com preços razoavelmente baratos. No mercado de tênis, não há como competirmos com os chineses, mas no caso de calçados em couro feitos à mão as nossas chances são bem maiores”, avalia Garcia, da Poli-USP. “Os polos brasileiros de calçados se beneficiam também da proteção de que desfrutam. Temos impostos elevados, que freiam a entrada de calçados de outros países, como a Argentina, por exemplo, e agora a China. Mas, para dar um salto, falta qualificar a mão de obra, particularmente para a criação, e qualificar também os empresários, para que as grandes companhias possam prosperar, sem falar na tolerância zero com a informalidade.”