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Açúcar no leite

por André Siqueira — publicado 18/01/2010 17h06, última modificação 16/09/2010 17h30
Como dizia minha avó, é com leite talhado que se faz doce. A frase me veio à memória ao ter acesso, na manhã da sexta-feira 15, ao fato relevante enviado à Bovespa pela Laep Investments Ltd., fundo controlador da Parmalat.

Como dizia minha avó, é com leite talhado que se faz doce. A frase me veio à memória ao ter acesso, na manhã da sexta-feira 15, ao fato relevante enviado à Bovespa pela Laep Investments Ltd., fundo controlador da Parmalat. O documento diz que a companhia assinou contrato para emitir 120 milhões de reais em ações em nome do fundo de investimeno GEM – Global Yield Fund Limited. Um reforço considerável de caixa, que altera significativamente o cenário descrito na reportagem , publicada na atual edição impressa de CartaCapital.

O texto trata dos problemas enfrentados pela empresa para efetuar pagamentos a pecuaristas em Goiás e no norte fluminense. Dívidas na casa de 6 milhões e 5 milhões de reais, respectivamente, prejudicavam o abastecimento de leite às unidades de beneficiamento da companhia. Uma situação calamitosa para uma empresa em recuperação judicial, sujeita a falência imediata caso não pague as contas em dia.

Como se vê, o aporte de capital do GEM cobre com folga as necessidades mais imediatas da Parmalat e garante sobrevida à empresa. Mas ainda permite ruminar algumas questões. O último balanço divulgado pela empresa, referente ao terceiro trimestre de 2009, relata endividamento financeiro na casa de 150 milhões de reais, e prejuízo operacional de 157 milhões de reais. O patrimônio líquido era negativo em quase 125 milhões de reais. Em outras palavras, a companhia continuaria no vermelho mesmo se utilizasse integralmente o dinheiro novo para cobrir o rombo.

É certo que o equacionamento das dívidas pode dar fôlego novo à Parmalat e garantir melhores resultados na operação. Ainda assim, restaria perguntar como fica a empresa em meio a um cenário de acelerada concentração do setor. Os frigoríficos, como o JBS Friboi, avançam sobre os laticínios, que procuram se agrupar para ganhar porte e sobreviver no concorrido mercado do leite. Ao assumir a empresa, em 2007, o dono do Laep, Marcus Elias, foi às compras com o objetivo de tornar a Parmalat uma grande consolidadora, capaz de absorver uma série de concorrentes.

Elias foi pego no contrapé pelas crises no mercado leiteiro e nas finanças internacionais. Se viu obrigado a vender novamente, só que em baixa, os ativos comprados na alta, com grande prejuízo. Acostumado a grandes operações casadas (condicionou a compra da Parmalat à venda da Batavo para a Perdigão, por 100 milhões de reais), o empresário pode ter mais cartas na manga. É o que devem esperar os acionistas que, de especulação em especulação, já elevaram em mais de 400% os combalidos papeis da Laep, em cerca de um mês.

O aporte do GEM não dá à Parmalat os músculos necessários para enfrentar a concorrência crescente no setor de laticínios. Para continuar no terreno das metáforas, seria mais comparável a uma lipoaspiração, com direito a implante de silicone e bronzeamento artificial, para fazer da companhia a candidata ideal a um bom casamento.