Você está aqui: Página Inicial / Economia / Abuso de poder econômico, sem moderação

Economia

Economia

Abuso de poder econômico, sem moderação

por André Siqueira — publicado 03/03/2009 15h15, última modificação 20/09/2010 15h18
Domingo de carnaval, sol fortíssimo, acabou a cerveja do freezer. A turma do churrasco foi ao boteco mais próximo, naquela cidadezinha serrana, no interior fluminense, para renovar o engradado de garrafas de 630 mililitros. Pedimos Skol. “Com esses cascos não dá”, disse a atendente, para espanto geral. “Só com a garrafa da Ambev.” Ouvimos a moça se queixar da dificuldade que é separar os vasilhames, mas como deixar de vender a marca? Prometemos destrocar depois, argumentamos um pouco e a moça se convenceu. Mas eu não. A Ambev não estava proibida de usar vasilhames diferentes? Se não, quem liberou uma sandice dessas, que dificulta a vida do revendedor e do cliente?

Domingo de carnaval, sol fortíssimo, acabou a cerveja do freezer. A turma do churrasco foi ao boteco mais próximo, naquela cidadezinha serrana, no interior fluminense, para renovar o engradado de garrafas de 630 mililitros. Pedimos Skol. “Com esses cascos não dá”, disse a atendente, para espanto geral. “Só com a garrafa da Ambev.” Ouvimos a moça se queixar da dificuldade que é separar os vasilhames, mas como deixar de vender a marca? Prometemos destrocar depois, argumentamos um pouco e a moça se convenceu. Mas eu não. A Ambev não estava proibida de usar vasilhames diferentes? Se não, quem liberou uma sandice dessas, que dificulta a vida do revendedor e do cliente?

De volta a São Paulo, minha dúvida virou cinza na quarta-feira. Foi ressurgir, como uma fênix, na semana passada, quando soube do fechamento da fábrica da Ambev em Mogi. É aquela mesma antiga unidade da Cintra que a cervejaria Petrópolis tentou comprar, há apenas um ano e meio. À época, a Ambev garantiu que a compra, claramente injustificada do ponto de vista comercial, não era uma manobra para evitar o avanço da concorrência no mercado paulista. Agora anuncia que vai transferir toda a produção, e alguns funcionários, para outras unidades e parar a planta, simplesmente. Sai caro desligar uma fábrica. Puseram a culpa em um aumento nos impostos sobre algumas marcas, o que configura um lobby igualmente oneroso. Mas não para a maior cervejaria do mundo.

Então lembrei que, para a maior cervejaria do mundo, não era custoso, tampouco, pagar a multa de 100 mil reais diários que a Secretaria de Defesa Econômica (SDE) impôs caso eles insistissem na venda da tal garrafa diferenciada. Eles chegaram a arcar com essa despesa por algum tempo. Lembrei também que, no fim, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) permitiu a venda dos vasilhames no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. Mas só enquanto a SDE investigava o possível crime contra a concorrência. Em comprovada a prática desleal, será o equivalente a ter dito ao assaltante: ‘ok, mas só pode roubar os bancos de tal região’.

Em tempo, liguei para a Ambev, que não soube informar a quantas anda o processo. Numa rápida pesquisa no site do Cade, me espantei com a avalanche de documentos enviados pela companhia, suficiente para manter o caso comodamente inconcluso.

Veio-me à mente também o acúmulo de processos de assédio moral movidos por ex-funcionários contra a Ambev. Muita gente, inclusive eu, ouviu falar de vendedores que iam para a rua vestidos de mulher, ou com melancias penduradas no pescoço, por não terem batido as metas do período. As ações corriam em regiões diferentes, o que pode sugerir que as tais práticas faziam parte do manual de vendas da empresa. Não sei se as coisas mudaram, mas já recebi releases dando conta de doações de veículos da frota da fabricante à Justiça do Trabalho. O ajustamento de conduta, nesse caso, foi um agrado aos magistrados, não às partes lesadas.

Agucei ainda mais minha memória e comecei a recordar as promessas, lá atrás, quando da compra da Antarctica pela Brahma/Skol. De evitar as demissões de funcionários da Antarctica. De criar um grande grupo cervejeiro exclusivamente nacional. De não elevar excessivamente os preços. De manter uma concorrência saudável. A lista não é pequena e, como se vê, não vai parar de crescer. Já é passada a hora de as autoridades de defesa da concorrência reagirem à altura. Não tenho absolutamente nada contra os produtos da Ambev, como o episódio do meu churrasco carnavalesco bem comprova. Mas certas histórias eu não engulo, nem com moderação.