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A ressaca do álcool

por Gerson Freitas Jr — publicado 07/03/2011 09h21, última modificação 10/03/2011 15h56
Após dobrar de tamanho na última década, a produção brasileira de etanol esbarra na falta de competitividade para continuar a crescer. Por Gerson Freitas Jr.
A ressaca do álcool

Após dobrar de tamanho na última década, a produção brasileira de etanol esbarra na falta de competitividade para continuar a crescer. Por Gerson Freitas Jr. Foto: AP

Os dias de euforia com o etanol no Brasil ficaram para trás. Depois de dobrar a produção de cana em menos de uma década, com o objetivo de abastecer com álcool a frota doméstica de carros bicombustíveis e os mercados externos, os usineiros encontram-se frustrados. Os investimentos sumiram, a produção estagnou e os preços na bomba dispararam. O aumento afugentou os motoristas, que já preferem abastecer seus carros flex com gasolina. Uma notícia ruim para um País que tenta promover seu combustível renovável mundo afora.

Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que, em 2010, os brasileiros consumiram 22,1 bilhões de litros de etanol, 2,9% menos que em 2009. Foi a primeira queda desde 2003, quando as montadoras lançaram seus primeiros modelos capazes de rodar tanto a álcool quanto a gasolina. A redução só não foi maior porque as vendas de gasolina C, que contém 25% de álcool anidro, cresceram 17,5%. As vendas do etanol hidratado, aquele vendido na bomba, cederam 8,5%. Como resultado, a participação do etanol nas vendas globais de combustíveis caiu de 20,6% para 18,2%.

O fato é que o biocombustível tornou-se pouco atraente para os consumidores. Como é menos eficiente, o etanol só vale a pena – ao menos, do ponto de vista do bolso – quando custa até 70% do preço da gasolina. Em 2010, os preços só ficaram abaixo desse patamar em cinco estados: São Paulo, Mato Grosso, Goiás, Paraná e Tocantins. Em todos os demais, a gasolina mostrou-se tão ou, na maioria dos casos, mais competitiva. O preço médio pago aos produtores saltou quase 20%, de 76 para 91 centavos de real por litro, maior patamar dos últimos anos.

O aumento deve-se a um desajuste entre a demanda, que cresce em ritmo acelerado, e a oferta, mais lenta. Depois de atingir a marca recorde de 27,1 bilhões de litros, na safra que foi de abril de 2008 a março de 2009, a produção brasileira de etanol parou de crescer e, agora, ameaça cair. Segundo estimativa da consultoria Datagro, a produção deverá recuar 4%, de 27,2 bilhões para 26,1 bilhões de litros, na safra 2011-2012, que começa em abril. A queda é a primeira em dez anos. Já as vendas de carros continuam a crescer e devem bater novo recorde em 2011, preveem as montadoras.

É verdade que o clima não ajudou. O excesso de chuvas, em 2009, e a estiagem, no ano passado, comprometeram a produção de cana-de-açúcar. Apesar de uma colheita recorde, estimada em 617 milhões de toneladas, quase 40 milhões se perderam na última safra. Mais do que isso, as intempéries prejudicaram o trato dos canaviais. Muitos não receberam aplicações adequadas de defensivos, ficando mais expostos a pragas e doenças nos próximos ciclos. Por isso, prevê a Datagro, a produção deste ano deverá cair para 611 milhões de toneladas, reflexo de uma perda de produtividade de até 5%. Será a primeira redução em 11 anos.

Mas os maus resultados estão longe de refletir apenas as dificuldades impostas pelo clima. Os próprios usineiros admitem que perderam produtividade em razão da falta de investimentos. “Hoje seria possível colher, no mínimo, 10 toneladas a mais de cana-de-açúcar por hectare plantado. Isso significaria uma oferta adicional de 70 milhões de toneladas”, afirma Antonio de Padua Rodrigues, diretor-técnico da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica).- O volume seria suficiente para colocar mais 5 bilhões de litros de etanol no mercado, mantendo a mesma área de plantio.

Rodrigues atribui a falta de investimentos à forte queda na receita do setor em 2008 e 2009. Altamente endividados, após a expansão dos anos anteriores, os usineiros foram pegos de calças curtas pela crise internacional, que derrubou o preço das commodities. “Vendemos álcool- e açúcar abaixo do preço de produção, acumulamos prejuízo e perdemos a capacidade de melhorar a lavoura.” Resultado: o canavial brasileiro é o mais envelhecido da última década. Apenas 7% da cana a ser colhida neste ano está no primeiro corte, menos da metade do considerado adequado – cultura perene, a cana-de-açúcar perde o equivalente a 10 toneladas por hectare de produtividade a cada ano.

Os usineiros também reclamam do aumento dos custos de produção. Há cinco anos, conta Rodrigues, 42 reais eram suficientes para remunerar uma tonelada de cana. Hoje, são necessários 56 reais. Um aumento de 35%. O representante da Unica- afirma que as usinas tiveram de gastar mais para reduzir seu passivo trabalhista e ambiental. “O problema é que não houve uma contrapartida, tanto do ponto de vista da produtividade quanto do preço.”

Os produtores de etanol só conseguem repassar seus custos até um limite determinado pela concorrência com a gasolina, controlada pelo governo. Plínio Nastari, presidente da Datagro, calcula que o preço real do combustível fóssil caiu 26% desde outubro de 2005, apesar do aumento nos preços do petróleo. “O preço do álcool- ficou emparedado, apesar da pressão de custo.” O especialista admite, porém, que não há razão para o governo reajustar agora. “O preço da gasolina brasileira está atualmente 3,8% acima da média mundial.”

Sem estímulo para fabricar etanol, os usineiros aumentaram a produção de açúcar, atraídos pelos preços mais altos dos últimos 30 anos. Na última colheita, os produtores destinaram 54,2% do açúcar total recuperável (ATR) da cana para a fabricação de álcool – dois anos antes, essa proporção havia se aproximado de 60%. Para a temporada 2011/2012, prevê a Datagro, a fatia deverá ser ainda menor: 52,1%. A opção pelo açúcar é mais um fator a agravar o problema da oferta do etanol, embora não seja a causa principal. Os estoques de passagem deste ano devem ser suficientes para cobrir apenas nove dias e meio de consumo, nível considerado crítico. No ano anterior, o volume era três vezes maior.

Nastari pondera que as vendas de açúcar ajudaram as usinas a se recuperar financeiramente, o que dará mais fôlego para investimentos na lavoura. Isso, por si só, deverá garantir um aumento na oferta de etanol a partir de 2012.

Rodrigues afirma, porém, que os usineiros não vão ampliar a capacidade de produção até que se crie um ambiente mais favorável ao etanol. Segundo ele, cerca de 50 usinas anunciadas nos últimos anos nunca saíram do papel – e lá deverão permanecer. “Em 2008, havia 30 novos projetos em execução. Esse número caiu para 19 em 2009, 10 em 2010, e 4 ou 5 agora”, afirma o executivo, que conclui: “As condições que foram criadas lá atrás, e estimularam a forte expansão dos últimos anos, já não são mais suficientes para atrair investimento”.

Na verdade, algumas das expectativas alimentadas pelo setor nunca se concretizaram. A abertura de outros mercados é a principal delas. Com exportações irrisórias, o aumento da produção acumulado entre 2003 e 2009 ficou represado no mercado interno, o que pressionou os preços. Outro antigo pleito dos usineiros, a redução dos impostos ficou restrita a quatro estados – aqueles onde o etanol consegue competir com a gasolina. São Paulo, dono da maior frota do País, é o principal deles. Em 2003, reduziu a alíquota do ICMS sobre o produto de 25% para 12%. “Se os demais estados não seguirem o mesmo caminho, vamos crescer basicamente para atender à demanda de São Paulo”, afirma Rodrigues. A lentidão dos projetos de cogeração de energia elétrica, a partir da queima da palha da cana, e do desenvolvimento de novas tecnologias, como o etanol de segunda geração, também é motivo de frustração. Ao descartar a palha, os produtores desperdiçam cerca de um terço de toda a energia contida na cana-de-açúcar.

O destino do programa do etanol preocupa o governo, que teme problemas de abastecimento. A presidenta Dilma Rousseff determinou a criação de grupo de trabalho a envolver as pastas da Agricultura, da Fazenda, do Desenvolvimento e de Minas e Energia. O objetivo é criar uma ampla política de apoio ao setor. Medidas podem ser anunciadas nas próximas semanas.

Segundo Rodrigues, as medidas em discussão visam a aumentar o tamanho do mercado interno. Uma das possibilidades é que o governo conceda incentivos fiscais à produção de “carros verdes”, mais eficientes que os atuais flex fuel. “Os carros precisam consumir menos etanol, e já existe tecnologia para isso.” Os antigos motores a álcool, observa, tinham uma eficiência de 85%, se comparados aos motores a gasolina. Nos atuais, essa relação é de apenas 70%. “Hoje perdemos mais de 3 bilhões de litros de etanol por causa da ineficiência dos carros.” Outra medida seria a redução e unificação das alíquotas do ICMS.

O governo deverá exigir garantias de abastecimento. “O apoio envolve compromissos que a presidenta quer colocar na mesa; quando se trata de combustível, é preciso que a relação seja de combustíveis e não dá para fazermos duas negociações: uma com produtores agrícolas e outra com produtores de combustível”, declarou Wagner Rossi, ministro da Agricultura, durante um evento na terça-feira 15. Rodrigues garante que o setor está pronto para oferecer garantias: “O que precisamos é retomar o investimento. Podemos aumentar a produção de cana para 900 milhões de toneladas nos próximos cinco anos. Quando isso acontecer, a preocupação com o abastecimento vai desaparecer”.