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Economia

Os juros e a inflação

A resposta do Copom

por Delfim Netto publicado 16/04/2013 07h36, última modificação 06/06/2015 18h42
O BC não deve se apressar e tem de estar preparado para subir os juros quando necessário. Mas a Selic não resolve tudo

Em clima de expectativa, muito ampliado nos últimos dias, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reúne-se nesta terceira semana de abril para tratar do dilema: o Brasil deve elevar ou não a taxa de juros real para gerar algum desemprego e, assim, reduzir a perturbadora taxa de inflação que teima em cortejar o limite superior da meta inflacionária?

Na pauta da reunião – apesar da excitação externa –, o tranquilo comentário de Alexandre Tombini, em audiência recente no Senado Federal: “Se e quando for necessário, o Banco Central usará os instrumentos de política monetária para a convergência da inflação para a meta se materializar mais à frente”. Segundo Tombini, a autoridade monetária jamais deixou de considerar a taxa de juros como seu instrumento de combate.

O Copom não pode e não deve se apressar, mas tem de estar preparado para usar esse instrumento, quando necessário. A redução permanente da taxa de inflação no Brasil para limites civilizados está longe de poder ser resolvida apenas pela manipulação da Selic. Exige uma ação coordenada de todo o governo e o suporte da sociedade na redução dos benefícios ilegítimos de que se apropriaram amplos grupos dos setores públicos e privados.

A adesão e o apoio da sociedade são fundamentais. Consulta recente (Datafolha) mostrou em todas as respostas um apoio ao governo de mais de três quartos dos entrevistados, superior a 75% em todos os itens, menos no quesito inflação. Quando se perguntou se ela diminuirá ou ficará como está, menos da metade acreditava na hipótese da estabilidade, o que mostra um temor da maioria com a volta da inflação.

É ruim a inquietação em relação ao comportamento da inflação. Os modelos e a experiência mostram que a taxa de inflação depende muito da expectativa da sociedade sobre a sua evolução. É um processo extremamente complicado, em que a expectativa acaba por produzir o resultado, como a previsão que se autorrealiza. Um processo que só pode ser interrompido se quebrar a crença sobre o comportamento.

Uma das formas de quebrar esse ciclo é aumentar a taxa de juros: com isso, produz-se o desemprego, a moderação salarial, os salários crescem menos do que a produtividade do trabalho e, eventualmente, as coisas caminham para a redução da inflação. Acontece que o custo social para conseguir isso é absurdamente alto.

No momento, ainda que estejamos com baixo grau de desemprego, a economia cresce muito pouco, abaixo da capacidade. Isso fala a favor de uma estagnação da produtividade total dos fatores, produzida pelo choque de oferta da agricultura, pelo evidente problema estrutural do mercado de trabalho e a mudança induzida da taxa de câmbio no comportamento da indústria e serviços. E pela visível deterioração da infraestrutura, durante 30 anos abandonada.

Há praticamente três décadas o Brasil iniciou um engenhoso e bem-sucedido programa de estabilização, concebido por competentes economistas, o Plano Real, após quatro ou cinco tentativas frustradas. Desde o começo, no entanto, a partir de 1994, nunca tivemos sucesso na conquista de uma inflação realmente civilizada, algo como 2% ou 3% anuais. E não reconquistamos o dinamismo do desenvolvimento, um crescimento em torno de 5% do PIB anual.

No primeiro mandato de FHC, a taxa média anual de inflação foi 9,7% (o crescimento do PIB de 2,5%). No segundo mandato, foi de 8,8%, e o PIB cresceu 2,1%, na média anual. No primeiro mandato de Lula, ela esteve acima de 6% (PIB superior a 3,5%). No segundo mandato, a média foi 5,1% de inflação e crescimento de 4,6%. Neste período do mandato de Dilma Rousseff, a média é 6,2%, com crescimento de 1,8%.  Nos anos de 1995 a 2012, o Brasil sobreviveu com taxa média de inflação de 7,4% ao ano. Simultaneamente, houve um crescimento muito baixo da economia brasileira, e PIB per capita de 1,8%.

É verdade, melhoramos a inserção social e aumentamos a igualdade de oportunidades, fatores civilizatórios, mas isso poderia ter sido melhor com um crescimento do PIB per capita mais robusto e uma inflação menor.

É forçoso reconhecer: não soubemos atacar com a energia necessária os gargalos institucionais e, principalmente, o estrangulamento estrutural pelo abandono dos investimentos na infraestrutura, capazes de desacelerar o desenvolvimento e gerar os atritos dissipados em maior taxa de inflação.

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