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A política vai à Bolsa

por André Siqueira — publicado 19/10/2010 08h49, última modificação 19/10/2010 11h29
O sucesso da capitalização não tira da berlinda a estatal, sujeita a toda sorte de especulações
A política vai à Bolsa

Em artigo, economista Paul Singer explica as origens da crise econômica mundial e analisa os movimentos de ocupação como os de Wall Street. Foto: Evelson de Freitas/AE

A bem-sucedida operação de capitalização, finalizada em 24 de setembro, fez da Petrobras a segunda maior petroleira do mundo e engordou seus cofres em 120 bilhões de reais, mas não pôs fim ao inferno astral da companhia. Relatórios publicados tardiamente por bancos que participaram da venda de ações da empresa – e se imaginaram na obrigação de respeitar o período de silêncio imposto à companhia – deram início a um reajuste, para baixo, nas cotações. Mas estão longe de ser a única explicação para a intensa flutuação das últimas semanas.

Uma onda de boatos sobre supostas reportagens com denúncias de corrupção na empresa e a própria indefinição sobre a sucessão presidencial foram forças a pressionar as ações. Até mesmo a elevação das taxas sobre investimentos estrangeiros em renda fixa soma-se à lista de fatores atípicos que colaboraram para a queda acentuada dos papéis da empresa nas últimas duas semanas. Nas palavras de um analista de mercado, “empurraram o bêbado ladeira abaixo”.

Nos primeiros dias após a capitalização, as ações da Petrobras chegaram a demonstrar certa resistência ao movimento mais comum após ofertas de ações daquela natureza: os preços disparam durante a operação, puxados por demandas superiores à oferta, e segue-se uma queda causada pelas vendas de quem pretendia obter lucros em curtíssimo prazo. Entre altas e baixas não muito pronunciadas, a empresa parecia seguir o caminho natural e iniciar a correção da grande la-cuna que ainda separa a cotação dos papéis do preço-alvo, ou “justo”, apontado pelas corretoras.

As semanas seguintes foram, porém, marcadas por uma sequência quase ininterrupta de quedas. Levantamento da consultoria Economática com 340 empresas, divulgado na quinta-feira 14, aponta as ações preferenciais da Petrobras como as únicas a apresentar, em 2010, valorização inferior à do Índice Bovespa, que reúne as ações de maior liquidez no Brasil. A justificativa- técnica encontrada para o movimento foi a divulgação de relatórios negativos sobre a empresa, elaborados por instituições financeiras que atuaram na operação – a maior oferta pública de ações realizada até hoje no mundo, convém lembrar.

Como a maioria dos grandes bancos possui áreas responsáveis por assessorar empresas nas emissões, de um lado, ao mesmo tempo que vendem conselhos a investidores e fazem a corretagem dos papéis, as instituições acharam por bem não publicar relatórios sobre a Petrobras até que a própria empresa deixasse o chamado período de silêncio – os dias anteriores e posteriores ao fechamento da operação. Há controvérsias sobre a necessidade de discrição por parte das instituições, até porque, para o investidor, ficou a impressão de que os bancos demoraram demais a rever seus palpites sobre a empresa que venderam.

Os relatórios mais polêmicos foram os das corretoras do Itaú e do Morgan Stanley, que participaram da capitalização e depois reviram para baixo os preços-alvo das ações da petroleira. É preciso ressaltar que a revisão foi feita com base em dados amplamente conhecidos pelo mercado. Primeiro, a diluição do peso individual de cada ação, pois a emissão elevou o número de cotas de 8,7 bilhões de cotas para 12,8 bilhões. Outro fator negativo, conhecido deste antes da capitalização, foi o preço final dos barris da cessão onerosa feita pelo governo para participar da operação, acima do esperado pelos analistas. A União ampliou sua fatia na companhia em troca dos direitos de exploração de 5 bilhões de barris, cotados a 8,51 dólares (excluído o custo de produção).

Era natural, portanto, que as avaliações fossem revistas para baixo, ainda que os preços-alvo tenham se mantido acima das cotações atuais. Os relatórios foram publicados na mesma semana da divulgação dos resultados do primeiro turno das eleições presidenciais, realizadas no domingo 3. O que adicionou à empresa um fator de risco, não evidenciado nas análises de mercado: o segundo turno entre Dilma Rousseff e José Serra. As quedas nas cotações, no período, superaram 5%.

O candidato de oposição tem entre seus colaboradores o ex-diretor da Agência Nacional de Petróleo (ANP), David Zylbersztajn, que tem se manifestado contrariamente ao modelo de exploração dos recursos do pré-sal levado ao Congresso pelo governo Lula. O ex-genro de Fernando Henrique Cardoso afirma ter aconselhado Serra a manter o sistema de concessões no pré-sal, capaz de “colocar dinheiro no Tesouro” imediatamente, em lugar do modelo de partilha, que teria como principais vantagens fortalecer o papel da Petrobras nas explorações e reforçar a cadeia nacional de fornecedores de equipamentos à indústria petrolífera. “Acho que, qualquer que seja o governo, ter uma estatal comprando e vendendo petróleo é uma janela para a corrupção. É um modelo completamente estapafúrdio”, afirmou recentemente Zylbersztajn.

Na quarta-feira 13, o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrieli, respondeu ao ex-diretor da ANP por meio de uma nota à imprensa. “Para o pré-sal, o risco regulatório é mínimo e o sistema de partilha de produção, em discussão no Congresso, permite, como o próprio nome indica, uma melhor divisão entre as empresas e o governo dos ganhos futuros das potenciais descobertas”, afirmou. O executivo criticou a administração da estatal durante a gestão tucana: “Para o governo FHC, a Petrobras morreria por inanição. Os planos (...) eram para desmontar a Petrobras e vendê-la”.

Num reforço às especulações de natureza política, uma onda de boatos varreu praticamente todas as mesas de corretagem entre a quarta-feira 6 e a quinta 7. O falatório dava conta de que a revista Veja publicaria uma reportagem sobre irregularidades na administração da Petrobras. Quando há interesse em influenciar as cotações para lucrar, conforme lembra um analista, o natural é que esse tipo de informação fique restrito a poucos agentes de mercado, diferentemente do que ocorreu. O que reforça a tese de que o interesse maior de quem fez a fofoca era prejudicar a imagem da empresa.

A Petrobras não confirma, mas cobrou explicações da publicação. A empresa tomou conhecimento dos boatos, mas não havia sido procurada por nenhum jornalista de Veja. A resposta teria sido a de que não havia qualquer investigação, nessa linha, em andamento. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) informou, por meio de sua assessoria de imprensa, não poder se manifestar sobre casos particulares envolvendo companhias de capital aberto.

CartaCapital procurou os profissionais que assinam relatórios referentes à Petrobras em algumas das principais corretoras do País para comentar o peso do contexto político sobre a movimentação dos papéis. A maioria só aceitou comentar os chamados “fatores de mercado”. Informalmente, porém, quase todos concordam que houve uma dose de exagero na desvalorização dos últimos dias, possivelmente sob influência do cenário político.

“Houve uma redução do preço justo das ações, mas a história da Petrobras continua a ser contada da mesma maneira”, afirma o analista da corretora Geração Futuro, Lucas Bendler. “Os preços vão se reverter na medida em que os investimentos forem executados e gerarem resultados para a empresa.”

O analista da corretora do Banco do Brasil, Nelson Rodrigues de Matos, em vias de revisar sua recomendação para as ações da Petrobras, concorda que pouco mudou na avaliação de longo prazo da companhia. “O fato de o governo ter aumentado em alguns pontos sua participação não faz diferença. Por ser estatal, a empresa é influenciada pelo governo, mas também ganha um destaque que as gigantes estrangeiras não têm. Com a vantagem de que o calcanhar de Aquiles do setor é a falta de reservas, e a Petrobras não enfrenta esse problema”, avalia.

Marco Saravalle, da corretora Coinvalores, diz que mantém a recomendação de compra da ação, mas apenas para investidores de perfil mais conservador, com vistas aos resultados de longo prazo. “O papel vai retomar a trajetória de alta, mas as revisões mais recentes mostram que esse movimento pode demorar mais do que o previsto.”

Outro analista identificou um movimento não apontado por nenhum relatório, até agora, mas nem por isso menos relevante, por intensificar as flutuações no mercado. Ao anúncio da elevação da alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) exigido no ingresso de recursos estrangeiros no País,- de 2% para 4%, o volume médio de negociações com as ações da Petrobras praticamente dobrou, para cerca de 2 bilhões de reais ao dia.

Como a taxação foi elevada apenas para as aplicações em renda fixa, investidores com interesse na rentabilidade dos títulos públicos brasileiros teriam passado a comprar e revender os papéis da companhia no mesmo dia, como forma de pagar “pedágio” reduzido. Valem-se da alta liquidez dos papéis, mas colaboram para intensificar as tendências de alta ou baixa no dia.

A situação foi identificada pela área econômica do governo, que, na sexta-feira 8, decidiu iniciar a cobrança dos 2% adicionais de quem migra a aplicação. Resultado: na quarta-feira 13, primeiro dia típico após a medida (houve feriado nos Estados Unidos, na segunda-feira 11, e no Brasil, no dia 12), o volume negociado de ações da petroleira retornou ao patamar de 1 bilhão de reais. Coincidência ou não, na quinta-feira 14 os principais papéis da Petrobras recuperaram valor. Fecharam com altas de 2,80% (os preferenciais, sem direito a voto) e 1,54% (ordinários).