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A política cambial e a ‘crise’ da exportação de manufaturados

por Roberto Amaral publicado 28/02/2012 16h03, última modificação 06/06/2015 18h58
O desenvolvimento sustentável brasileiro só vira se tivermos três reformas: a tributária, a de desburocratização do Estado e a agrária

O Banco Central mantém a política de comprar dólar no mercado para tentar  para impedir a sobrevalorização do real. A justificativa é nobre: salvar as exportações de manufaturados.  A moeda norte-americana, todavia, segue ladeira abaixo (nas suas pegadas virá o euro), e nossos produtos permanecem perdendo espaço, porque  há outros fatores não considerados, como o chamado "Custo Brasil", e o baixo índice de inovação de nossa indústria. As autoridades monetárias insistem numa operação arriscadíssima,  que não supera nem muito menos resolve as questões estruturais que deprimem nossa competitividade internacional. Ou seja, estamos botando dinheiro fora. De outra parte, essa mesma operação  aumenta o endividamento interno, pois  financiamos a compra da moeda estrangeira emitindo títulos da dívida pública (que já está em 1,86 bilhões de reais) pagando por eles os estratosféricos juros brasileiros, e os dólares adquiridos são aplicados no mercado norte-americano, a juros baixíssimos. Na contra-mão dos investidores norte-americanos (lembrando que a Coca-Cola Co. tem deixado boa parte de seu caixa fora dos Estados Unidos, em resposta ao nível baixíssimo dos juros no país, e o Brasil tem sido um destino frequente, disse o diretor-financeiro Gary Fayard no Valor Econômico em 23/fev./2012).

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Trata-se, pois  de  inócuo e dispendioso esforço, e valerá com um tiro no pé se as previsões do mercado para o restante deste ano se confirmarem, e a primeira expectativa é de um brutal aumento de liquidez internacional apontando para grande ingresso de dólares em nosso mercado. Ainda que alguma parcela resulte em investimentos (como compra de empresas nacionais), o grosso desse dinheiro se destinará fundamentalmente à ciranda especulativa. De uma forma ou de outra, uma massa de ativos apreciando o real. No exercício passado foram injetados 4 trilhões de dólares no mercado internacional, e para este ano já são previstos outros três trilhões, oriundos dos EUA, do Japão e da União Européia. Dois trilhões de dólares é o que FMI e ESM terão para acudir os países endividados.

Faça o governo brasileiro o que fizer, o horizonte a curto prazo indica excesso de liquidez.

Afastando-se da tragédia européia (crescimento zero previsto para 2012), a produção industrial norte-americana vem sendo retomada, ainda que lentamente, e a desaceleração chinesa, bem administrada, significa ainda o estupendo crescimento de 8,5% em 2012. A crise européia, que tende a agravar-se com a próxima e inevitável falência da Grécia, com a possibilidade de contaminação de Portugal, Espanha e, até, da Itália (a crise aguda tende a transformar-se em crise crônica grave), reduzirá o espaço para as exportações dos gigantes americano e chinês, cujas economias, consequentemente, demandarão menos importação de insumos e comodites em geral, cujos preços, por outro lado, estão em queda. Os prejuízos para as exportações dos ‘emergentes’ são claros como a luz do sol.

O governo e o frágil e pouco engenhoso empresariado brasileiro devem trabalhar com perspectivas graves, a saber, a continuada queda do dólar frente ao real, o aprofundamento da crise européia, a queda das importações e dos preços das comodites (esse nome bonito escamoteia o fato de que o grosso de nossas exportações são produtos primários), o aumento do preço do petróleo (que pode chegar a patamares hoje inimagináveis dependendo da irresponsabilidade sem limites dos EUA e de Israel). A soma de tudo isso significa o encontro do protecionismo primeiromundista com a maior (ainda maior) agressividade comercial de EUA, Europa (leia-se Alemanha) e China.

Neste quadro internacional absolutamente desfavorável, o Brasil dispõe de uma alternativa, e ela é investir maciçamente, no mercado interno, estabelecer como meta o crescimento anual de 6% e aumentar para 10% do PIB a taxa de investimento. Depois do desmantelamento da economia imposto pelos dois Fernando, voltamos ao Estado indutor de desenvolvimento.

Ocorre, porém, que nossa indústria, que reclama de suas dificuldades para exportar, já não acompanha as demandas do consumo interno, que vêm sendo atendidas pelos importados. E esse consumo não só tende a crescer como precisa crescer já no curto prazo, pois essa é a vacina contra a contaminação européia e as pressões cambiais.  Nesse sentido será a resposta da economia ao reajuste do salário mínimo. Esse crescimento, mantendo o aumento da renda nacional e a contínua queda do desemprego depende, porém, da retomada dos investimentos públicos. Penso que o governo já aprumou a proa no sentido do desenvolvimento, pois assim entendo a autorização (40 bilhões de reais)  para o endividamento doseEstados, que se somam aos 42 bilhões que serão aplicados diretamente pela União nas obras do PAC.

A crise cambial, é óbvio, afeta nossas exportações, não só de manufaturas, como igualmente de comodites. Mas ela não é o único diabo.  A maldição começa em casa porque nosso empresariado não investe em inovação, preferindo importar tecnologia de segunda-mão e pagar royalties. No caso dos produtos industriais, a questão reclama não o aumento da dívida interna via compra de dólar, mas a retomada do controle cambial, a taxação das aplicações especulativas e o aprofundamento da atual política de redução das taxas de juros, possibilitando o investimento privado. Daí derivará o aumento da produção e da produtividade industriais, libertando-nos da suicida dependência de insumos importados.

De 2005 para 2011 (fontes: SECEX/IBGE/BCG/FGV), o aumento participação dos insumos na produção do chamado complexo tecnológico foi de 34,7%; na indústria química,  de 13,5; na indústria metalúrgica  de 9,4% e na têxtil,  de 9%. Indicador de nosso atraso, e de atraso que promete preservar-se, é o fato de o complexo tecnológico depender em cerca de 60% da importação de insumos.

Uma vez mais o cerne da questão aponta para a política de ciência, tecnologia e inovação, que não pode permanecer como ofício e obra únicos do poder público. Faz urgente  a revisão de nosso modelo industrial (anos 50), presidido pela importação de fábricas quase-obsoletas (cujo melhor exemplo são as ‘carroças’ da indústria automobilística) e baixos ou nulos investimentos em tecnologia e inovação, pois as multinacionais importavam a tecnologia produzida em suas matrizes, e o empresário nacional não investia, e ainda resiste em investir na produção local de tecnologia. Eis porque, somos, hoje, entre todos os BRICs, aquele país que menos patentes industriais tem registradas.

A melhor alternativa brasileira para enfrentar o que o ministro Mantega gosta de chamar de ‘cenário internacional desfavorável’ é o investimento na economia nacional, no aumento e distribuição da renda nacional, ou seja, no fortalecimento do mercado nacional.

Para um desenvolvimento realmente sustentável nossa economia requer três reformas para as quais as elites torcem o nariz: a reforma tributária, que proteja a Federação, adote a progressão dos impostos e desonere a produção, aumentando a contribuição dos mais ricos; a reforma do Estado, democratizando-o, eliminando os imbróglios burocráticos antidesenvolvimentistas e restaurando seu papel indutor da economia, e a reforma agrária, talvez a primeira de todas.