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A manada pula a cerca

por Luiz Antonio Cintra — publicado 12/10/2010 15h03, última modificação 22/10/2010 11h32
Nem o aumento do IOF contém o fluxo de dólares para a nossa economia

Nas últimas semanas formou-se um consenso no mercado financeiro internacional em torno das distorções cambiais crescentes que se acumulam desde setembro de 2008. E dos efeitos colaterais desse desequilíbrio sobre o comércio mundial, ao valorizar exageradamente algumas moedas nacionais, como no caso do real, ao mesmo tempo que turbina a capacidade exportadora de outras, destaque para a China, cujas autoridades monetárias se encontram na berlinda graças ao controle exercido sobre o yuan.

Ainda que com menor visibilidade, os bancos centrais dos EUA, da União Europeia e do Japão também entraram na mira dos analistas. Suas atuações teriam o efeito de inflar ainda mais a liquidez internacional, ao optarem por manter suas taxas de juros próximas de zero por tanto tempo.

No caso brasileiro, o Ministério da Fazenda deu um sinal de que sua ofensiva não será apenas retórica, como alguns críticos apontaram, desde que Mantega aumentou o tom das críticas em torno da cotação da moeda brasileira. Na segunda-feira 4, e para se contrapor ao apetite estrangeiro, o governo decidiu dobrar o imposto cobrado do capital que vem ao Brasil para ser aplicado em renda fixa, de olho no rendimento dos títulos da dívida pública brasileira, que pagam até cinco vezes mais aos aplicadores do que seus equivalentes dos mercados desenvolvidos.

Por decisão de Mantega, o IOF passou de 2% para 4%, o que retira uma parcela da rentabilidade desses papéis, mas ainda assim garante um lucro muito superior à média internacional. Ou seja, mesmo que siga na direção cor-reta, avaliam os economistas, a iniciativa dificilmente será suficiente para evitar mais valorização do real, já abaixo do patamar de 1,70 por dólar.

À medida que a cotação da moeda dos EUA recua, os investidores conseguem ampliar o apetite brasileiro por produtos e serviços importados, retirar o que resta de competitividade das exportações made in Brazil e ampliar os ganhos em dólar de suas aplicações em renda fixa.

O resultado é o crescimento acelerado do déficit em transações correntes do País, que deve fechar o ano perto de 50 bilhões de dólares. O risco maior, segundo analistas, será percebido em 2011, mantido o atual ritmo de crescimento do PIB, próximo de 7% ao ano, segundo as projeções mais confiáveis. O mais provável é que a nova equipe econômica tenha de pisar no freio.

De acordo com esses economistas, dificilmente o governo que assume em janeiro de 2011 poderá manter o ritmo de crescimento do PIB e o atual arranjo macroeconômico, com destaque para a trajetória dos gastos públicos e o próprio patamar dos juros. Estima-se que em 2011 o déficit supere os 60 bilhões e exponha o País a uma crise, caso os países desenvolvidos decidam rever suas políticas monetárias de juros muito baixos. Por enquanto, não há esse risco. Na semana do dia 4, o Japão anunciou a decisão de se alinhar com os bancos centrais dos EUA e União Europeia e cortou ainda mais sua taxa de juro básica, para chegar a zero.

É essa conjuntura que levou o Prêmio Nobel Joseph Stiglitz, professor da Universidade de Columbia, a expor sua desconfiança sobre a política monetária que os países ricos praticam, a começar pelos EUA. Ao manter suas taxas em níveis tão baixos, os EUA, mas também o BCE e o Banco do Japão, criam uma liquidez excessiva, que tende a seguir para emergentes como o Brasil, que oferecem baixo risco, retorno elevado e perspectiva de crescimento sustentável nos próximos anos. Na avaliação de Stiglitz, o Federal Reserve é tão responsável quanto os chineses em matéria de fomento do desequilíbrio global.

“A inundação de liquidez segue para o exterior, causando problemas em todo o mundo. O receio é que provoque uma bolha nos mercados financeiros emergentes. Nós dizemos ‘não, não, nós não estamos fazendo desvalorizações competitivas (do dólar)... isso é o que a China faz. Nós não fazemos esse tipo de coisa, não manipulamos a nossa moeda, tudo o que fazemos é política monetária convencional’. Mas o resultado dessa política é a desvalorização competitiva do dólar.”

Stiglitz acrescenta à sua análise o que considera outro erro dos desenvolvidos, que têm concentrado esforços em cortar gastos – além de manter as taxas baixas – para reconquistar a confiança dos investidores internacionais, reativar os investimentos produtivos e tirar do horizonte a possibilidade de novas crises bancárias e de países, como as da Grécia, Espanha ou Irlanda.

Para o economista, é “um mistério” o fato de o governo norte-americano não criar estímulos fiscais que permitam reativar o consumo das famílias, como, aliás,- fez o Brasil. A explicação que Stiglitz considera mais plausível para essa postura de Obama é que os republicanos teriam conseguido “capturar a opinião pública” contra o déficit público, mediante políticas austeras de controle dos gastos, ainda que isso possa jogar os EUA novamente em uma recessão ou manter a economia global em banho-maria.

Um dos mais respeitados comentaristas econômicos do jornal inglês Financial Times, Martin Wolf tem se dedicado nos últimos tempos a esse problema, cujo enfrentamento considera inadiável.

Segundo Wolf, no caso brasileiro, o cenário preocupa justamente pela alta capacidade que o País tem de atrair capitais do mundo todo, como ficou demonstrado no aumento de capital da Petrobras. Ao contrário de Stiglitz, contudo, Wolf poupa os BCs dos países desenvolvidos. E centra sua artilharia contra o governo chinês, que deveria ser forçado pelos demais a rever a valorização de sua moeda. Para chegar lá, o comentarista deixa de lado sua tradicional postura liberal e defende medidas duras e intervencionistas para enquadrar os chineses.

“Como a China pode ser persuadida ou coagida a mudar suas políticas?”, pergunta Wolf. E responde: “O G-20 deveria unir-se para pedir essas mudanças. Mas se as negociações continuarem a fracassar, é preciso estudar opções. Sobretaxas às importações são uma possibilidade”. Mais adequado seria manter as barreiras comerciais como última opção e concentrar esforços em uma mudança nas regras dos mercados de capitais. “Uma guerra comercial seria muito perigosa. Insistir que a China deixe de comprar os títulos das dívidas de outros países enquanto mantiver controles rigorosos sobre as entradas de capitais é mais direto e proporcional, além de, acima de tudo, ir em direção à abertura do mercado.”

Em Washington e Bruxelas, sede da União Europeia, a saída encontrada até o momento inclui forte pressão diplomática, além de uma decisão da Câmara dos Representantes dos EUA, que, caso entre em vigor, reduzirá a imbatível competitividade chinesa, taxando as importações. Nos últimos dias, por sinal, autoridades brasileiras deram sinais de que pretendem participar dessa pressão contra o que o ministro Mantega chamou recentemente de “guerra cambial”.

No caso brasileiro, contudo, o impasse internacional é ampliado pela taxa de juros de 10,75% ao ano, muito acima da média internacional. Sem reduzir os juros e em meio a um cenário tão turbulento, a situação brasileira seguirá em rota perigosa. O desfecho dessa história conhecemos muito bem.