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Economia

A grande crise e a crise norte-americana

Em crise, a grande perda dos EUA hoje é moral, com o fim de sua liderança no planeta, a qual precisa partilhar com aliados e antigos contendores
por Roberto Amaral publicado 22/11/2011 09:28, última modificação 22/11/2011 09:28
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Nada acrescenta ao conhecimento da realidade simplesmente reafirmar a gravidade da  crise européia, que salta do campo da economia para o terreno da política. Até aqui, porém, sem maiores riscos institucionais. Lembramos, apenas, que, para além da agonia  do euro (uma moeda sem Estado) essa crise escancara os problemas estruturais do velho e exaurido continente, como crescimento populacional negativo, grave carência de energia, baixa produção de produtos primários, inclusive alimentos, alto consumo e elevados custos sociais e previdenciários, por sinal, as primeiras vítimas  dos economistas.

A questão a considerar, neste texto, é a gravidade da crise norte-americana, onde, aliás, tudo começou. E ponderar o preço a ser ago pelo resto do mundo, Brasil inclusive.

Nos EUA, como nos países da zona do euro, o desafio desrespeita os limites da economia e das finanças, e caminha para além da recessão. Também na sede mundial do capitalismo, economia e política são irmãs siamesas da crise,  a política agravada pela falência de lideranças, de que a frustração representada por Barack Obama é apenas um exemplo. A mesma mediocridade percorre a Europa de um norte a outro. No caso norte-americano há um ingrediente a mais a considerar, qual seja o impasse político-administrativo derivado do bi-partidarismo disfuncional. Lembro o conflito Casa Branca x Capitólio quando da votação do teto da colossal dívida norte-americana. Mas não é tudo, pois talvez o mais grave e mais profundo e duradouro seja a desmoralização do sistema representativo, eivado de fraude (relembro a primeira eleição do Bush filho) e decidido pelo poder econômico, o crescimento da direita dentro da direita republicana, de que o tea-party é apenas o coadjuvante mais estridente. E, como corolário, a rejeição popular à política e ao poder das urnas, muito bem, vocalizado pelos jovens e ‘indignados’ do ‘Ocupem Wall Street’, movimento de rebeldia que rapidamente se espalhou por centenas de cidades norte-americanas.

Desdenhoso das lições do New Deal rooseveltiano, o governo Obama (cuja fragilidade é um agravante na crise) injeta (2009) 140 bilhões de dólares para salvar os poderosíssimos Citigroup, Bank of America, JP MorganChase e Wells Fargo. Com essa operação, realmente ancorou as instituições prevaricadoras, que, mal saídas da bancarrota, voltaram a apresentar lucros e distribuir dividendos com seus acionistas. Mas os grandes beneficiários foram os executivos manipuladores do mercado e responsáveis pela quase quebra do sistema, os quais também voltaram a perceber salários e ‘prêmios’ que desrespeitam a maioria da população, afligida com estagnação e desemprego. Mantendo o mesmo nível de coerência míope, a administração democrata bancou 100% das emissões de títulos novos dos bancos inadimplentes, dando-lhes recursos para voltarem ao mercado, o que na prática não se consumou, pois uma das molas atuais da crise norte-americana é o desinvestimento derivado do entesouramento de bancos, economia privada e particulares, agravando o desemprego e o consumo interno do qual dependem as exportações de metade do mundo.

Ora, a história conta como reage o sistema financeiro em tempos de crise, a saber, adotando políticas defensivas, as quais, alimentando um círculo vicioso, aprofundam, a crise por ele mesmo causada. A banca privada opta por restringir empréstimos (como ocorreu entre nós em 2008) e aumentar suas reservas de uso, e as empresas, por conseqüência, reduzem ou simplesmente deixam de realizar investimentos, decrescendo a capacidade produtiva, que gera riqueza e empregos. Finalmente, os consumidores põem o pé no acelerador, e, agora tementes do futuro, se tornam conservadores.  Trocando em miúdos: depressão. Embora mantendo os setores de inteligência, pesquisa e inovação em solo americano, a indústria manufatureira migrou para o exterior, em busca de custos de produção mais baixos,  salários menores e menor proteção laboral, aumentando os lucros de seus acionistas, isto é, expandindo o capital,  mas atingindo a força do trabalho americana. A economia concentrou-se no sistema financeiro.

Nada menos do que 2/3 do PIB norte-americano derivam do consumo das famílias. Mas o desemprego chega a 9% (14 milhões de americanos), praticamente o dobro dos percentuais anteriores à crise, que já consumiu 8,8 milhões de postos de trabalho.

Os indicadores macroeconômicos dos EUA, portanto, são inquietantes.

De tudo isso podemos concluir que o grande império está de joelhos?

A avaliação da crise norte-americana tem levado analistas apressados a vaticinarem seu imediato colapso, transformando em realidade sonhos idealistas, os quais muitas vezes terminam em pesadelo.

Não obstante essa crise e os abalos que determinou, os EUA, têm ainda a mais forte moeda internacional (sem candidata à sucessão), que podem emitir sem peias. O dólar funciona como um grande porta-aviões escolhido pelo capitalismo mundial para o pouso de suas reservas. É simplesmente a moeda que expressa a dívida internacional. No Brasil, como em todo o mundo, sua sobrevalorização é um estorvo para nossas exportações. Os EUA possuem, com anos-luz de distância do resto do mundo, o maior aparelho militar de todos os tempos, no qual continuam investindo (Finda a Guerra Fria, descartada a ameaça soviética,  orçamento militar dos EUA é igual a 50% dos gastos militares totais do resto do mundo). Suas tropas, seus aviões, sua belonaves, seus porta-aviões, seus marines estão presentes em todos os continentes. Mais do que tropas de ataque (tarefa dos mísseis), são armas de ocupação.  São os EUA o maior centro científico-tecnológico do mundo e o campeão mundial de patentes e publicações científicas, o maior produtor cultural (dominam mercado editorial, o mercado mundial do cinema, da televisão, do entretenimento e da musica), o primeiro destino turístico do mundo,  e ainda são o principal  beneficiário do inglês, como a mais importante língua internacional.

Enquanto grassa a crise, os investidores – países como o Brasil e a China — aplicam em títulos do Tesouro norte-americano. As reservas brasileiras em dólares norte-americanos, por exemplo, somam 340 bilhões. Em maio de 2011 tínhamos US$ 212 bilhões aplicados em títulos do governo norte-americano. A China, maior economia de exportação do mundo, é também a maior credora dos EUA; detém US$ 1,5 trilhões de dólares em títulos da dívida norte-americana e possui 3 trilhões de dólares em reservas estratégicas.

Os EUA são um gigante ferido, um império que, após o longo apogeu, começa a conhecer sua decadência, mas, como gigante, sua agonia será muito longa e cobrará preço altíssimo à humanidade, de que são testemunhas o Afeganistão, o Paquistão, os líbios, os iraquianos, os iranianos, os palestinos...

Portanto, uma ameaça gravíssima.

Autoproclamado xerife mundial dos direitos humanos, apoiou todas as ditaduras sanguinárias do nosso e de todos os continentes, perpetuou na Guatemala crimes contra a humanidade que só encontram paralelo na loucura nazista. Suas atrocidades do Afeganistão e no Iraque ainda não estão de todo reveladas.

A grande perda dos EUA, hoje, é moral, com o fim de sua liderança, a qual precisa partilhar com aliados e antigos contendores.

Corresponde à desmoralização de um mito que, pretendendo apresentar-se como modelo de democracia, conspirou para a implantação de regimes ditatoriais por todo o mundo.

O fim da URSS, levando de roldão a polaridade Ocidente-Oriente, Leste-Oeste, comunismo-capitalismo etc., havia aberto o caminho para a ‘unipolaridade’ norte-americana;  mas esta começa a ceder terreno a uma quase multipolaridade, pois, trata-se de uma multipolaridade que convive com  sua hegemonia militar. Do ponto de vista econômico essa multipolaridade significa a necessidade de os EUA serem obrigados a negociar com o G-20 e muito especialmente com os ‘emergentes’,  como os países que compõem a sigla  BRICS, entre todos se destacando a China, a segunda economia capitalista do mundo, ao suplantar sucessivamente Japão e Alemanha e aprestar-se para ocupar o pódio nas próximas décadas.

Muito contribuiu para a ascensão desses países, a partir de questões geopolíticas como território, população e a posse de recursos naturais, o fato de não haverem adotado, na defesa de suas economias, qualquer dos ordenamentos da ortodoxia liberal. O exemplo brasileiro, na espécie, foi paradigmático com a corajosa decisão de nosso governo de rejeitar a recessão e investir no mercado interno, o que foi feito por Lula e tem continuidade no Governo Dilma, contaminada porém sua administração pelos receios de uma recidiva inflacionária, donde seu comportamento cauteloso em face dos desdobramentos insondáveis da crise internacional. Daí, prometendo relaxar o mercado interno, a reclamada política de contínua embora ainda lenta queda das taxas de juros. Essa política, cuja continuidade o Banco Central anuncia para 2012,  lamentavelmente ainda não se fez acompanhar do controle do câmbio, fórmula única de, assegurando o crescimento, salvar a indústria nacional manufatureira em face da concorrência desigual do mercado internacional, e da artificial desvalorização do dólar.

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