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Economia

Delfim Netto

Guerra Cambial

21.02.2012 10:48

A estratégia chinesa

É perda de tempo criticar a China porque adotou um “dollar standard” para administrar com milimétrico controle as variações do câmbio, mantendo sua moeda, o yuan, desvalorizada. Isso lhe tem proporcionado um enorme proveito em seu comércio externo. O Brasil fez algo parecido há quatro décadas, quando iniciou a diversificação de suas exportações, administrando um mecanismo “flexível” de câmbio em relação a uma cesta de moedas, o que ajudou sua economia a crescer 10% em média nos sete ou oito anos que precederam a maldição da crise do petróleo no último quarto do século XX.

Há praticamente três décadas a China mantém uma inteligente política de desenvolvimento (estimulada pelos EUA para isolá-la da URSS no tempo da Guerra Fria), apoiada numa consistente taxa de câmbio superdesvalorizada. Devemos cumprimentá-la ou invejá-la por cuidar tão bem dos interesses de seu povo? É correto culpá-la pela gênese da “guerra cambial” entre Estados Unidos, Eurolândia e ela própria? O Brasil foi muito criticado pela concorrência sob o pretexto de que “manipulava” o câmbio, à época.

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Hoje, podemos dizer que manter o câmbio superdesvalorizado e fingir que segue as regras do “bom e honesto comércio” definido pela OMC é uma manifestação hostil com relação aos seus parceiros. No caso, por exemplo, da perda das condições de competição interna entre os produtos da nossa indústria e os produtos chineses importados, é possível aceitar que a superdesvalorização do yuan, somada à supervalorização do real, é uma das causas, mas não é a causa de tudo. É, entretanto, tolice dizer que as perdas são devidas à incapacidade competitiva da indústria nacional.

A luta entre os três parceiros é complicada. A China leva uma grande vantagem: adotou, sem vergonha e sem remorso, uma espécie de “dollar standard”, com o yuan controlado num nível praticamente fixo com relação ao valor do dólar americano. A briga de cachorro grande é entre a América e a Eurolândia. Os Estados Unidos beneficiam-se do fato de ser uma federação fiscal, com instrumentos redistributivos, de ter uma única língua, facilidades migratórias em seu imenso território de economia diversificada e poder dispor de um banco central como emprestador de última instância.

É preciso lembrar que o socorro ao setor financeiro que produziu a crise de 2007-2009 destruiu as finanças dos EUA e revelou as violações fiscais dos países da Eurolândia, cuja correção exige uma redução da demanda pública. Para não diminuir a demanda global (e o crescimento do PIB) é preciso, portanto, aumentar a demanda do setor privado.
É por isso que o Federal Reserve e o Banco Central Europeu, com suas políticas monetárias, estão criando uma desvalorização competitiva entre o dólar e o euro. Os emergentes (com exceção da China) veem as suas taxas de câmbio valorizar-se e seus mercados predados pelo uso da capacidade de produção ociosa dos três gigantes.

Tomemos o caso da Itália para facilitar o entendimento. Não há dúvida de que suas finanças nunca foram de boa qualidade nas últimas duas décadas. Apesar de vários “planos de salvação”, acumulou uma dívida imensa (com relação ao PIB); foi enormemente beneficiada pela entrada na Zona do Euro, que produziu uma convergência da taxa de juros que paga por ela a taxa da dívida alemã, porque os mercados anteciparam que ela cumpriria as condições do Tratado de Maastricht. Ao mesmo tempo, a evolução da política italiana e a falta de continência salarial valorizou “virtualmente” a lira, que está apenas nominalmente fixada em relação ao euro. Isso produziu um déficit em conta corrente que foi financiado de forma inconsequente pelo sistema financeiro internacional, com a conivência das “notas” das agências de risco, para os papéis italianos.

A solução mais razoável para a Itália e seus parceiros é a desvalorização do próprio euro com relação ao dólar. Ela não terá nenhum efeito sobre o comércio dentro da Eurolândia, mas será equivalente a uma desvalorização das suas moedas, aumentando as exportações e diminuindo importações de fora da Zona do Euro.
Um pouco mais da metade das exportações italianas e de seus parceiros são para países fora da Eurolândia, o que significa que a desvalorização do euro é uma ajuda para compensar parte da queda de atividade interna produzida pela política de aperto fiscal.

O grande embaraço é que a política do Fed também estimula a desvalorização do dólar perante o euro, o que já produz resultado visível nos saldos em conta corrente dos EUA, excluído o petróleo.

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Sua opinião

  1. Claudio Braga de Abreu e Silva disse:
    Prezado Prof. Delfim Neto, Lendo seu oportuno artigo "A estratégia chinesa", gostaria que o Sr conhecesse as minhas propostas para sairmos dessa armadilha de juros altos e câmbio apreciado, que sempre tem contado com as suas críticas contundentes e fundamentadas. Minhas sugestões estão no meu artigo "Uma nova e derradeira indexação negociada", que está no link: http://www.claudioabreu.com.br/10.pdf. Ele que foi publicado no Vínculo, jornal da AFBNDES, em 02/12/2010, mas que a meu ver ainda continua valendo, pois de lá pra cá pouca coisa mudou. O interessante é que a minha proposta para o cambio, que seria atrelado a uma cesta de moedas, é muito semelhante a política cambial adotada pelo Sr., quando foi ministro da Fazenda nos final dos anos 60 e início dos 70. Acrescento que na minha proposição, os juros e o cambio estariam amarrados e subordinados a indexadores inflacionários diários. Não sei se o Sr. vai se lembrar, mas, há 19 anos atrás, quando era Deputado Federal, eu lhe enviei o meu trabalho "A indexação Diária negociada", de 31/08/1993, que acabou servindo de base para a elaboração do Plano Real; ele está no link http://www.claudioabreu.com.br/02.pdf . Tal fato explica o porquê do nome do meu artigo atual. Aproveito a oportunidade para lhe agradecer o telegrama que me enviou naquela oportunidade que pode ser visto no link http://www.claudioabreu.com.br/04.pdf , no qual apresento as aproximadamente 40 mensagens de agradecimento que recebi das pessoas para quem remeti aquela minha proposta. Um grande abraço, Claudio Abreu
  2. Luiz disse:
    José, nossos carros são muito, mas muito defasados sim, pelo menos os modelos ditos "populares"(que são vendidos a preços de carrões por aqui). Os crash test só CONFIRMAM isto, basta ver os resultados do LatinCap, que não é nem tão rigoroso assim(só faz testes de batidas frontais). "Nossos carros"(fabricados por multinacionais que tem acesso as tecnologias mais modernas do mundo) são comparáveis, em segurança, ao carros da Europa de 20 anos atrás! Por isto os mexicanos estão dando uma surra no Brasil na balança comercial, mesmo com o Gol sendo vendido pela metade do preço por lá...
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