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Economia

Entrevista - Stephen Heintz

"A era do petróleo está chegando ao fim", afirma Rockefeller Fund

por Deutsche Welle publicado 01/12/2015 04h55
O presidente do fundo explica a coerência de deixar investimentos em petróleo e partir para as energias limpas
Mujahid Safodien / AFP
Petróleo

Planta de liquefação de carvão na África do Sul que produz combustível sintético semelhante ao petróleo. Área de energia passa por mudanças

Fundado em 1940 pelos filhos de John D. Rockefeller Jr., o Rockefeller Brothers Fund é uma fundação internacional dotada com 860 milhões de dólares. Com o anúncio de que sairia do mercado de petróleo e carvão, o fundo de investimentos tirou quase 1 bilhão de dólares do mercado de combustíveis fósseis e investiu-os na economia verde – tornando-se figura de destaque no movimento do desinvestimento.

Stephen Heintz é seu presidente desde 2001. Em entrevista à DW, ele fala sobre o que está por trás dessa ação, e porque é coerente uma empresa que cresceu às custas do petróleo deixar de investir em combustíveis fósseis.

DW: John D. Rockefeller (1839-1937) inaugurou uma nova era na história com a Standard Oil. Agora a família Rockefeller está encerrando a era do petróleo?

Stephen Heintz: Nós temos a esperança de ajudar a encerrar a era do petróleo. É hora de se afastar dos combustíveis fósseis e se mover o mais rápido possível em direção a energias limpas e renováveis, a fim de salvar o planeta. A era do petróleo está agora encontrando o próprio fim.

DW: Porque o anúncio de que o Rockefeller Brothers Fund está saindo do mercado de petróleo e carvão causou tanta surpresa?

SH: É irônico uma família cuja riqueza foi criada com a indústria do petróleo estar agora na liderança dos esforços para abandonar os combustíveis fósseis.

DW: Os Rockfellers são uma das famílias mais ricas e influentes nos Estados Unidos. Qual foi o impacto do anúncio?

SH: Eu acredito que ajudou a chamar a atenção para os riscos das mudanças climáticas e contribuiu de maneira significativa para dar impulso ao movimento de desinvestimento. Esperamos que isso ajude a criar uma mudança histórica.

DW: Há cifras?

SH: No momento em que os líderes mundiais se reunirem em Paris em dezembro para a conferência do clima, esperamos que o volume total de recursos alienados por investidores que se comprometeram a retirar fundos de combustíveis fósseis chegue a mais de 2,5 trilhões de dólares. Talvez mais.

Muitas instituições estão saindo do mercado de petróleo, carvão e gás. Proibir o carvão é um primeiro passo importante. Durante a Conferência do Clima em Paris, esperamos anunciar mais de 200 instituições participantes do movimento de desinvestimento – algumas são grandes.

DW: Qual é a razão para essa enorme realocação de investimentos?

SH: Uma urgência moral, assim como o impacto econômico global do carbono. Um de nossos outorgados é a Carbon Tracker, uma sofisticada organização de pesquisa sediada em Londres. Suas análises indicam que de 60% a 80% das reservas conhecidas de combustíveis fósseis devem permanecer no solo, sem serem queimadas. Essa é a única chance de nos mantermos abaixo da linha de aumento de 2°C na temperatura global, evitando maiores catástrofes climáticas.

Em 2014, o secretário-geral da ONU Ban Ki-moon e mais de 400 mil manifestantes marcharam pelas ruas de Nova York com o fim de mobilizar o ativismo em prol do clima. Os acionistas temem que as vendas de petróleo, carvão e gás diminuam?

Sim. Novas e indispensáveis leis climáticas e impostos sobre a emissão de CO2 vão desvalorizar esses recursos.

DW: O que o senhor disse aos membros da família Rockefeller?

SH: Nós dissemos que, como um fundo de doações que concede mais de 40% de seus subsídios para combater alterações climáticas, é moralmente inconsistente permanecermos investindo na indústria do combustível fóssil. Além disso, há uma forte causa econômica para sair do mercado de petróleo, carvão e óleo de alcatrão, e transferir os investimentos para energias limpas e novas tecnologias.

DW: Em 1870, John D. Rockefeller fundou a Standard Oil, transformando-se no homem mais rico de seu tempo. Será que ele se reviraria no túmulo, ao saber das novidades?

SH: John D. Rockefeller era um empreendedor e inovador brilhante. Ele tirou vantagem do que viu no futuro. Ele percebeu que o petróleo, essa nova substância que acabara de ser descoberta, tinha potencial para transformar o mundo – e gerar muito dinheiro. E fez as duas coisas.

DW: O que Rockefeller faria hoje?

SH: A Standard Oil foi a primeira companhia realmente global. John D. Rockefeller era um pensador e agente global. Hoje, ele estaria olhando para a Terra e vendo os enormes riscos da mudança climática, com conseqüências econômicas devastadoras, e grandes oportunidades no setor verde. Ele estaria olhando para a energia limpa e diria: "É para lá que o mundo está indo. É para lá que o mundo precisa ir. Eu quero chegar lá antes, para obter retornos significativos."

DW: Que tipo de organização é o fundo de investimentos Rockefeller Brothers Fund?

SH: Nós somos uma fundação de concessão de subsídios com uma dotação de cerca de 860 milhões de dólares. Combater as alterações climáticas é a nossa prioridade número um. Cerca de 40% de nossos subsídios anuais são atualmente dedicados a salvar o clima. Por isso, nos sentimos cada vez mais desconfortáveis em financiar indústrias que estão causando o aquecimento global.

DW: Quão próximo está o fim da era do petróleo?

SH: Restam provavelmente de 20 a 30 anos.

DW: Ainda é possível prevenir os cenários mais terríveis?

SH: Estamos diante de dois momentos de guinada concorrentes na história global. Um deles é o clima: um ponto sem retorno. Se passarmos dele, não há mais recuperação, e nós sofreremos consequências devastadoras.

O outro é a reviravolta da economia verde. E a questão é qual ponto vamos atingir em primeiro lugar. É uma corrida contra o tempo. Temos de fazer tudo o que for possível para atingir o ponto da energia limpa em primeiro lugar.

DW: O que acontece se falharmos?

SH: Vamos enfrentar enormes transtornos climáticos, derretimento do gelo nos polos, secas e tempestades mais extremas e frequentes. Haverá uma perda massiva de espécies, e teremos que enfrentar enormes desafios para fornecer comida e água a bilhões de pessoas. Cidades ficarão debaixo d'água, ilhas inteiras desaparecerão. Haverá centenas de milhões de refugiados do clima.

Esse sofrimento e a luta por comida e água têm o potencial de causar novas guerras e conflitos. Nós poderíamos passar de uma era de guerras do petróleo para um período de guerras climáticas. Se não prevenirmos as alterações climáticas, a crise de refugiados que vemos hoje vai parecer pequena, comparada à crise que vai acontecer no final do século.

DW: O que fazer?

SH: Temos de acelerar e fazer investimentos maciços em energias limpas. Enquanto sociedade global, temos que proteger o planeta que temos. Este único planeta, do qual toda a vida depende.

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