Você está aqui: Página Inicial / Economia / A Economia e os economistas

Economia

Transformações

A Economia e os economistas

por Paulo Daniel — publicado 13/08/2010 10h43, última modificação 13/08/2010 10h43
13 de agosto é o dia dos economistas. Para lembrar a data publicamos este artigo do economista Paulo Daniel

Nos últimos tempos, os países têm enfrentado uma variada gama de problemas econômicos. Aparentemente, soluções diversas foram experimentadas e vários desses problemas ainda não foram resolvidos, mesmo quando soluções diametralmente opostas foram empregadas.

Como se constroem as diferenças na “comunidade” dos economistas? Antes de responder explicitamente a essa pergunta, é necessário entender que a noção de mercado aqui não pode ser entendida como se ela se referisse a algo meramente “natural” e espontâneo como, por exemplo, uma feira medieval de produtos de alimentação.

Nesse tipo de mercado, os produtos vendidos atendem determinadas necessidades humanas e sociais, as quais se originaram fora dele.
O produto gerado pelos economistas é algo imaterial que visa atender necessidades que foram, elas próprias, em boa medida, criadas inclusive pelos próprios economistas.

É certo que a existência objetiva do sistema econômico requer a análise econômica e a função do economista. É certo que a acumulação de capital em escala global tem uma lógica própria que se impõe à teoria econômica, como uma determinação quase sempre não reconhecida ou mesmo encoberta.

Sob essa determinação de fundo, entretanto, as competências e as qualidades requeridas daqueles que vão cumprir a função de economista, assim como das teorias que empregam, são produzidas no próprio colégio dos economistas que se situa, no interior do próprio sistema econômico.

É evidente que, a preparação do economista nunca é meramente técnica, mas envolve também o fornecimento de uma visão do mundo e modos determinados de se apropriar intelectualmente da realidade, os quais visam, sobretudo, compreendê-la e, também, mistificá-la. Portanto, na economia como em qualquer outra ciência não há neutralidade.

A partir da II Guerra Mundial consolida-se a hegemonia americana na ordem capitalista. O período que vai de 1945 a 1970 caracteriza-se pela enorme expansão do capital produtivo e das grandes empresas coorporativas e transnacionais, principalmente norte-americanas.

Com a crise dessa hegemonia a partir de 1971, inicia-se um período de predomínio do capital financeiro. Com a expansão acelerada do mercado internacional de empréstimos, ocorre uma progressiva limitação da soberania dos Estados nacionais que passa, em parte, para os organismos reguladores transnacionais.

O neoliberalismo torna-se, assim, a ideologia do mundo do capital a partir das duas últimas décadas do século XX.

Desde então houve um empenho generalizado para desmantelar o estado de bem-estar social, assim como para privatizar certos segmentos da produção que estavam nas mãos do Estado, o que institucionalizava um certo compromisso de classe entre o capital e o trabalho.

É a partir do entendimento dessas transformações que podemos compreender a construção das diferenças entre os economistas, assim como perceber que a sua fonte é de natureza educacional e cultural. É assim que podemos perceber o estreito vínculo entre a estrutura de diferenças aí existente e a sua forma de expressão em termos de valor mercantil.

Ao longo desse processo de mudança, a teoria econômica abandona o modo de pensar o keynesianismo que, historicamente, representou o reconhecimento da classe trabalhadora como ator social com certa força própria e alguma autonomia e, portanto, com aspirações e direitos que tinham de ser considerados pela política econômica.
Eis que essa era uma perspectiva que enfatizava a necessidade da intervenção estatal para moderar e “sublimar” os conflitos sociais (os quais se manifestam como desemprego, inflação, etc.), com o objetivo de garantir um melhor desempenho do sistema econômico ao longo do tempo.

Portanto, principalmente a partir da ampliação da financeirização da economia mundial, a teoria econômica inicia seu processo de empobrecimento semântico e comunicativo, assumindo, então, a forma de uma linguagem tipicamente matemática que só pode ser aprendida por meio de exercícios, com um mínimo ou nenhuma reflexão. É justamente por isso, entretanto, que vem a ser mais adequada para a administração autoritária das contradições e dos conflitos da sociedade atual.

Espera-se; de fato, com a crise financeira internacional, tendo seu ápice em setembro/2008, que parte da ciência econômica comece a ser questionada pelos seus modelos e a alta matematicização.
Neste sentido, o velho e bom Keynes nos mostra quais características um economista moderno e atual deve possuir:
“O verdadeiro economista tem que possuir uma rara combinação de qualidades. Tem que ter algo de matemático, historiador, político e filósofo.

Tem que entender de símbolos, mas expressar com palavras. Tem que observar o particular através do geral e combinar o abstrato e o concreto em um mesmo pensamento.

Tem que estudar o presente à luz do passado para saber o que fazer no futuro. Nenhuma parte da natureza humana ou da sociedade pode ficar completamente fora de seu campo de atenção.

Tem que ser intencionado e objetivo simultaneamente; tão puro e incorruptível como um artista, mas, às vezes, tão pragmático como um político.”