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Economia

“Cabeças de planilha”

A economia e o renascimento da história

por Luis Nassif publicado 03/04/2013 11h46, última modificação 06/06/2015 19h22
Os resultados das políticas sociais brasileiras, nos últimos anos, são significativos

Alguns anos atrás cunhei a expressão “cabeças de planilha” para criticar um tipo de economista incapaz de uma visão sistêmica da economia.

Sempre me impressionou o modo de pensar dos físicos. Se uma ação específica for aplicada em determinado corpo, pode alterar completamente sua natureza. Os resultados das políticas sociais brasileiras, nos últimos anos, são significativos.

Ao sair da miséria absoluta e descobrir o consumo, houve uma mudança radical na vida dos beneficiários. Deixam de ser párias e se convertem em cidadãos consumidores .

A curto prazo, a inclusão fortalece o mercado interno. A médio prazo, tem consequências políticas extraordinárias, criando uma nova geração de cidadãos que será cada vez mais exigente em relação aos serviços públicos, ao ambiente econômico etc.

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Quando teve início o processo de privatização – ainda no governo Collor – junto com um grupo de pessoas defendíamos a privatização com fundos sociais, um modelo que permitiria ao trabalhador se beneficiar dos ganhos da privatização. Haveria a legitimação da privatização; criação de um mercado de capitais popular; criação de freios ao poder dos novos grupos que se formavam.

Prevaleceram os interesses imediatos dos grupos e dos privatizadores.

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No mês passado, um trabalho dos economistas Daron Acemoglu-James Robinson ("Economics versus Politics: Pitfalls of Policy Advice", Fev., 2013) – recomendado ontem por Delfim Netto – trouxe luzes de forma brilhante ao que eles denominam de “dois tempos da economia”.

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Eles supõem uma política econômica em dois períodos.

No primeiro período, imaginam uma política econômica totalmente virtuosa, sem a promiscuidade de interesses escusos ou cálculos políticos.

Acontece que, qualquer que seja a decisão, ela influenciará o tempo político do segundo período.

As medidas poderão, por exemplo, fortalecer os grupos dominantes e enfraquecer os grupos que atuam como contrapeso.

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Tome-se o caso do enfraquecimentos dos sindicatos nos Estados Unidos. Sem o contrapeso, houve um aumento extraordinário do poder dos executivos, em vários escândalos corporativos e, mais que isso, em uma ampliação tal da desregulação financeira que levou à grande crise de 2008.

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Analisa também a privatização da Rússia, importante para desmontar a burocracia anterior, mas feita de tal maneira que gerou uma classe de oligarcas extremamente corrupta.

Ou os casos da mineração na Austrália, no século 19, e em Serra Leoa, no século 20

Na Austrália, liberou-se para garimpeiros. Produziu-se, inicialmente, uma mineração menos eficiente. Nos anos seguintes, os garimpeiros se organizaram, criaram seus sindicatos e uma força pró-democratização de grande porte que ajudou a civilizar o país.

Serra Leoa optou por uma mineração racional, conduzida por grandes grupos, com 100% de aproveitamento, pagamento de impostos ao poder público etc. Em 1935 o governo colonial concedeu os direitos à Serra Leoa Seleção Trust (SLST).

A empresa tornou-se um poder dentro do Estado, controlando inclusive milícias para garantir o monopólio contra a mineração clandestina. Nos anos 50, já existiam 75 mil garimpeiros ilegais. Jamais saiu do atraso.

Os sindicatos – 1

O trabalho traz uma análise rica sobre o papel dos sindicatos. “Na maioria das situações, os sindicatos claramente criam distorções econômicas, empurrando os salários dos seus associados até em relação aos não-sindicalizados empregados”. Podem também desencorajar a adoção de tecnologias que melhorem a eficiência da empresa. Por outro, ajudam a contrabalançar o poder das empresas, especialmente dos grandes grupos.

Os sindicatos – 2

O trabalho descreve a importância dos sindicatos para oapoio às instituições democráticas em todo o mundo. Os exemplos são variados. Participaram da democratização europeia antes da Primeira Guerra. O trabalho enaltece três exemplos recentes: a Solidariedade, contra o regime comunista da Polônia; a luta contra o apartheid na África do Sul; e a formação do Partidos dos Trabalhadores, no Brasil.
Os sindicatos – 3

Por outro lado – continua o trabalho – o poder dos sindicatos pode ser um tiro pela culatra se significar aumentos reais de salario maiores do que a economia ou as empresas podem suportar. O pico da influência sindical nos EUA foi no início dos anos 50. Depois, foram perdendo relevância. a partir na década de 1970,com as políticas que incentivaram o livre comércio, aumentando a concorrência com a produção interna.

Os sindicatos – 4

A postura anti-sindical do governo Reagan trouxe consequências maiores para a economia norte-americana, tendo papel relevante no aumento das desigualdades de renda, além da esbórnia dos altos executivos e da desregulação financeira. Por outro lado, o aumento dos custos trabalhistas acabou implicando na transferência de parte relevante da produção industrial para outros países.

Desenvolvimento e democracia – 1

O trabalho divide o desenvolvimento econômico em dois campos: o de “acesso aberto”, caracterizado pelo desenvolvimento com democracia, sociedade civil rica e vibrante, com várias organizações e relações sociais, incluindo o Estado de direito e os direitos de p[ropriedade. E o de “acesso limitado”, no qual há crescimento econômico fraco, pequeno números de organizações sociais, muitos privilégios e aplicação desigual das leis e dos direitos.

Desenvolvimento e democracia – 2

Há uma curiosa crítica à democracia nos países pobres . Segundo o trabalho, a violência é prejudicial aos interesses da elite. Por isso, desenvolve-se um sistema político que manipula o sistema econômica, para preservar privilégios, e o sistema jurídico, para garantir a ordem política. Esse mundo das ordens naturais, dizem os autores, não ajuda a construir nações nem a modernizar países.

 

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