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A culpa é minha, ou de quem eu quiser

por André Siqueira — publicado 13/04/2009 15h05, última modificação 20/09/2010 15h06
Depois de algumas semanas de suspense, o Conselho de Administração da Sadia decidiu que vai processar o ex-diretor financeiro da empresa, Adriano Ferreira. Ainda em dificuldades para financiar o rombo de 2,5 bilhões de reais das aventuras com derivativos, a companhia deve ter considerado que culpar o executivo era um sinal de compromisso com a boa governança.

Depois de algumas semanas de suspense, o Conselho de Administração da Sadia decidiu que vai processar o ex-diretor financeiro da empresa, Adriano Ferreira. Ainda em dificuldades para financiar o rombo de 2,5 bilhões de reais das aventuras com derivativos, a companhia deve ter considerado que culpar o executivo era um sinal de compromisso com a boa governança.

Para quem não conhece, ou não gosta do termo, governança corporativa define a capacidade de ser transparente e seguir as boas normas do mercado. Ou seja, usar operações destinadas a proteger da receita para ganhar dinheiro fácil e fora da atividade principal é um sinal claro de má governança. Melhor culpar alguém.

Os conselheiros não esperavam, provavelmente, que a resposta do executivo fosse circular por caixas de mensagens de inúmeras redações brasileiras. Demitido sumariamente há cerca de seis meses, logo após a divulgação do prejuízo, Ferreira contratou uma assessora de imprensa e enviou uma Nota à Imprensa. Não sei o que pensaram os coleguinhas, mas acho que pegou mal para a empresa.

Em português claro, o executivo explicou algo que para o povo do mercado não era novidade nenhuma. A Sadia, a exemplo de várias empresas brasileiras, vinha ganhando muito dinheiro na especulação contra o dólar. De acordo com Ferreira, os derivativos responderam por 60% do lucro da companhia nos últimos seis anos, período em que esteve à frente da área financeira.

As empresas brasileiras são reconhecidas pela capacidade de sobreviver e se adaptar às mudanças bruscas na conjuntura econômica – desde que as mudanças ocorram no front interno. Como, então, foram no contrapé pela crise financeira internacional? A pergunta traz a resposta: porque o barulho começou lá fora, e invadiu o País muito rapidamente.

As perdas cambiais atingiram justamente as empresas mais ligadas ao governo. E não por acaso, conforme comentou comigo, no fim do ano passado, um ex-presidente do BNDES. O aval para as operações era dado pela própria equipe econômica do Planalto, que garantia que não deixaria o câmbio fugir do controle. Mas deixou e, por isso mesmo, ficou o dito pelo não dito.

O presidente Lula criticou duramente as empresas especuladoras. Mas ajudou como pôde algumas delas. Como a Votorantim, que recebeu uma formidável injeção de capital do Banco do Brasil por intermédio do banco do grupo. Outras ficaram caladas, e só revelaram os prejuízos agora, com a divulgação do balanço do último trimestre.

Errada foi a Sadia, ao tentar atribuir toda a culpa em uma única pessoa. Acabou por trazer de volta à tona um assunto que deve ser motivo de profunda vergonha.