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A crise no Chile

por Paulo Daniel — publicado 08/07/2011 10h47, última modificação 08/07/2011 12h18
Qualquer semelhança com sub-prime norte americano é mera coincidência, entretanto, é importante observar, o modo tupiniquim

Se já não bastasse os países da Europa e os Estados Unidos estarem experimentando a radicalidade do modelo de mercado excessivamente desregulamentado, na América Latina, particularmente o Chile, está começando a viver um temor financeiro generalizado.

O Banco Central e o Ministério da Fazenda de uma das economias mais abertas e dita competitivas da América do Sul se deram conta de que 418 mil chilenos – o equivalente a 12% das famílias – estão envolvidas em uma espécie de crediário fraudado pela rede de lojas de departamentos La Polar S.A. uma das maiores do país, com filiais em todo o Chile e na Colômbia.

Qualquer semelhança com sub-prime norte americano é mera coincidência, entretanto, é importante observar, o modo tupiniquim. No Chile, é muito comum as lojas de departamentos administrarem seus próprios cartões de crédito. Por não serem consideradas “instituições bancárias”, houve uma tendência de o governo fazer “vista grossa” para este setor da economia.

O golpe dado pela empresa consistia em abrir crediário e conceder cartões de crédito a clientes considerados de risco para, em seguida, aplicar juros extorsivos e taxas administrativas sobre as prestações em atrasos. A dívida era, então, renegociada ou “repactuada” de forma unilateral, sem o consentimento do cliente, e a quantia devida no início aparecia multiplicada, paulatinamente, em até 30 vezes. Principalmente desde 2008, devido a esse procedimento, tornou a Polar uma referência para diversos tipos de aplicações no mercado financeiro.

As ações da Polar S.A. eram consideradas uma excelente opção de aplicação financeira, devida a sua liquidez e a facilidade de compra e venda, com isso, milhares de pessoas e fundos privados de pensão realizaram aplicações com a expectativa de ampliar sua renda.

Com o golpe militar em 1973, o Chile se tornou a primeira experiência neoliberal, a economia chilena passou por reformas profundas muito similares e até mesmo mais intensas que o restante da América Latina na década de 90. No Chile não há previdência pública, como por exemplo; há no Brasil. Neste sentido, os fundos de pensão privados e empresas para aumentarem seus rendimentos, investem em ações, que podem subir ou, em como no caso da Polar, correm o risco de desabar. Segundo a Associação de Fundos de Previdência do Chile estimam em prejuízos em torno de US$ 300 milhões.

Para além da crise financeira, há também a crise energética e educacional. Desde maio deste ano o Presidente Sebastián Piñera decidiu colocar para aprovação um projeto de instalação de uma grande usina hidrelétrica na Região de Aysén, no sul do país, numa das zonas mais belas e preservadas da Patagônia. A iniciativa provocou reação imediata dos movimentos de preservação ambiental chilenos e internacionais e fez com que, rapidamente, gigantescos protestos se espalhassem pelo país.

Há pelo menos um mês estudantes chilenos (secundaristas e universitários) não estão dando trégua ao governo de Piñera, reivindicam que a educação seja um direito e de responsabilidade do Estado; aumento imediato do financiamento público; o Estado deve assumir a formação técnica e assegurar liberdades de expressão à docentes e estudantes.

Queiram ou não, o neoliberalismo chileno está em xeque, a capacidade de arrefecimento ou encrudelecimento caberá, evidentemente, a organização dos movimentos populares e do tamanho da crise financeira, mas do ponto de vista, internacional os diversos países latino-americanos que não comungam política e ideologicamente com Piñera, também poderá contribuir para que o Chile comece a trilhar caminhos diferentes ao iniciado pelo golpe militar.