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A crise europeia e a América Latina

por Paulo Daniel — publicado 26/11/2010 10h42, última modificação 26/11/2010 10h42
A crise que a União Europeia está vivendo, não tenhamos ilusão, afetará a América Latina. Resta saber qual o tamanho dessa interferência e o quanto nos prejudicará?

A crise que a União Europeia está vivendo, não tenhamos ilusão, afetará a América Latina, por uma razão muito simples, qualquer interferência na renda nos países desenvolvidos, interferirá na renda dos países periféricos ou em desenvolvimento. Resta saber qual o tamanho dessa interferência e o quanto nos prejudicará?

Os esforços financeiros e fiscais são bastante significativos. A Grécia anunciou medidas que deverão possibilitar a redução de seu déficit fiscal de 13,6% do PIB para 2,6% em 2014. A Espanha buscará diminuir seu déficit de 9,3% para 3%, até 2013. A Itália anunciou que fará um ajuste de 24 bilhões de euros em seu orçamento para o período 2011-2012, enquanto que a Irlanda pretende reduzir seu déficit fiscal de 12% para 5% até 2015, e Portugal buscará diminuir seu déficit de 7% para 4,6% em 2011.

As medidas de ajuste fiscal anunciadas incluem diminuição de gastos, redução de empregos no setor público, aumento na idade de aposentadoria, aumento de impostos e privatização de algumas empresas públicas.

A Alemanha, por exemplo, busca economizar 80 bilhões de euros em quatro anos, para reduzir seu déficit dos atuais 5%, para 3% do PIB em 2013. No mesmo período, a França busca reduzir seu déficit de 8% para 3%, economizando 100 bilhões de euros. O Reino Unido também anunciou planos que, segundo estimativas, implicarão no maior esforço fiscal desde a Segunda Guerra Mundial.

Neste sentido, as dificuldades econômicas na Europa podem afetar as economias da América Latina e Caribe, tanto comercial como financeiramente. O alcance destes efeitos dependerá da duração e magnitude da crise da dívida na Europa e da atuação dos governos latino-americanos.

Se a crise europeia se ampliar e chegar a afetar o desempenho da economia global, as exportações da região poderão sofrer uma diminuição resultante da queda nos preços de matérias primas. Este ano, o preço médio das matérias primas sofreu uma contração de 3,3%, destacando-se a queda no preço dos alimentos (6,5%) e dos metais (2,6%). O preço do cobre caiu em 4,7%, e o preço do barril de petróleo tem oscilado entre 75 e 85 dólares.

Outro dado interessante é pela importância da bolsa espanhola na região, fortalecendo os vínculos financeiros com a Europa, e ao mesmo tempo, a possibilidade de contágio por esta via. Em países como México, Chile, Paraguai e Peru a participação dos bancos espanhóis no sistema bancário representa mais de 20% do total de ativos.

Além do que, com a desvalorização do euro e o maior risco na União Europeia abrem a possibilidade de um incremento nos fluxos de capitais para a região, na medida em que os investidores optem por destinos mais seguros e de maior rentabilidade.

Isto poderia gerar maiores pressões para a valorização das principais moedas da região, aprofundando o dilema das autoridades monetárias acerca da dificuldade de usar a taxa de juros como medida para combater a inflação, já que ao aumentá-la poderiam provocar uma acentuação ainda maior da entrada de capitais e provocar maiores especulações cambiais.

Que alternativa nos restará? A mesma desde a intensificação da crise em setembro/2008, ou seja, estímulo da demanda interna via consumo e investimento, redução das taxas de juros e intensificar o comércio Sul-Sul, evidentemente com forte participação do Estado no processo econômico. Essa alternativa ainda é possível, pois o sistema financeiro é sadio e as contas fiscais latino-americanas estão relativamente em ordem.