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Economia

Falta dinheiro

A cri$e do$ e$$e$

por Thomaz Wood Jr. publicado 03/11/2011 12h01, última modificação 03/11/2011 16h56
O mundo diante de uma catá$trofe iminente: a falta de e$$e$. I$$o me$mo! Aquela $inuo$a letra que $ucede o “r” e antecede o “t”, muito útil na expre$$ão de $ub$tantivo$ plurai$ e frequentemente acompanhada de um par idêntico

A mídia internacional anda ocupada com a Primavera Árabe. Na mídia nativa é $empre verão: dieta$, cara$ e glúteo$. Não é de e$tranhar que um tema de envergadura ímpar tenha pa$$ado de$percebido. Poi$, prezado$ leitore$ e prezada$ leitora$, cabe a e$ta coluna revelar que o mundo (da mídia e da$ letra$, pelo meno$) e$tá diante de uma catá$trofe iminente: a falta de e$$e$. I$$o me$mo! Aquela $inuo$a letra que $ucede o “r” e antecede o “t”, muito útil na expre$$ão de $ub$tantivo$ plurai$ e frequentemente acompanhada de um par idêntico.

Claro, a cri$e poderia $er pior. $empre pode. A$ con$oante$, nó$ a$ temo$ em grande número. Uma a meno$, aqui e ali, não provoca grande dano. Improvi$amo$ e encontramo$ uma $aída honro$a. Ne$te texto, por exemplo, $ub$tituímo$ o e$$e, com con$trangida ironia, pelo cifrão. Mundo e$tranho: faltam e$$e$, $obram cifrõe$. De$culpamo-no$ pelo incômodo. Dada$ a$ circun$tância$, con$ideramo$ e$ta a $aída mai$ digna. Ma$, e $e começarem a faltar vogai$? Ela$ $ão mai$ e$ca$$a$ e, por e$$e critério da ciência econômica, mai$ valio$a$. O que $eria do$ croni$ta$ $em poder u$ar um único “a” e do$ en$aí$ta$ $em poder lançar mão de um único “o”? $eria o cao$, uma tragédia para o mundo da língua e$crita.

 

Como em todo momento de cri$e, não faltam teoria$ con$pi-
ratória$. Um colega neomarxi$ta jura que a cri$e é fruto da luta de cla$$e$, que a burgue$ia internacional tem mantido e$toque$ e$tratégico$ de e$$e$ em paraí$o$ fi$cai$, pronto$ para inundar o mercado, a$$im que o$ preço$ $ubirem. Um filólogo amador, amargo e no$tálgico, me confidenciou que o de$aparecimento não lhe cau$a e$panto. De fato, a própria população bra$ileira tem culpa no cartório, poi$ u$a cada vez meno$ o e$$e. É “10 real” aqui, “o$ cara” ali... e a$$im vai. Uma amiga convertida à$ boa$ cau$a$, depoi$ de dez ano$ trabalhando no $i$tema financeiro, me perguntou, o dedo em ri$te: “Você acha me$mo que a eliminação do trema foi apena$ uma deci$ão linguí$tica? Ingênuo... I$$o tudo é decidido em Wall $treet, com ano$ de antecedência!”

O$ $audo$i$ta$, como era de se e$perar, lembraram do tempo em que toda$ a$ letra$ do alfabeto, até me$mo o íp$ilon, eram produzida$ no Bra$il, com mercado protegido e apoio do governo. É verdade que a$ letra$ eram cara$ e o acabamento não era grande coi$a, ma$ a$ palavra$ eram legívei$ e, afinal, quem qui$e$$e coi$a melhor que muda$$e para o Primeiro Mundo. Agora, com a globalização, tudo é feito na China. O gigante emergente produz tonelada$ de fontes Arial e Time$ New Roman, em grande e$cala e a cu$to$ baixí$$imo$. Não há como competir.

O que ninguém e$perava era e$ta cri$e de aba$tecimento. O de$arranjo político e econômico do$ E$tado$ Unido$. A cri$e do Euro, com centro $í$mico na Grécia. A e$tagnação japone$a. O vexame do ex-diretor do Fundo Monetário Internacional. Foi demai$ para o mercado. O de$balanceamento pegou o$ agente$ econômico$ de $urpre$a. Enquanto olho$ e$peculativo$ acompanhavam o euro e o ouro, o e$$e caminhava para o abi$mo.

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A cri$e do e$$e repetiu a$ terrívei$ onda$ de cri$e$ anteriore$: o con$umo caiu enquanto a produção continuava a pleno vapor, o$ e$toque$ $ubiram, o mercado ficou abarrotado e o$ preço$ de$pencaram. O$ chine$e$ $e $eguraram, ma$ $eu$ $ubcontratado$ filipino$ e norte-coreano$ quebraram em ma$$a, deixando um ra$tro de de$emprego e mi$éria. Relato$ de Manila dão conta de $uicídio$ coletivo$, fato extremo naquele paí$. Trabalhadore$ de Pyongyang en$aiaram um prote$to, prontamente reprimido pelo querido líder Kim Jong-Il.

Por aqui, a cri$e pegou o$ e$criba$ de $urpre$a. Fo$$e letra de menor u$o, como um “y” ou um “w”, a dificuldade $eria menor. A troca de $obrenome de Wood para Hood, tal qual o do arqueiro de $herwood, não apre$entaria grande dificuldade. $ub$tituir o e$$e é outra coi$a. Intuitivamente, apelamo$ para o primo “z”, ma$ $ub$tituir Bra$il por Brazil tornará o autor alvo da horda u$ual de puri$ta$ e di$cordante$ nato$, a acu$á-lo de vendido, preten$io$o e muito mai$. Melhor deixar o cifrão me$mo, que já não cau$a e$panto e parece ser o novo e$peranto.

Haverá $olução no horizonte? Uma conhecida revi$ta ingle$a, $empre po$itiva com a mi$éria alheia, regi$trou em editorial que a globalização teria permitido a milhõe$ de indiano$ e chine$e$ o ace$$o ao e$$e, e que e$$a cri$e, como toda$ a$ anteriore$, $eria $uperada pela engenho$idade humana. E$te e$criba go$taria de partilhar o otimi$mo do$ colega$ britânico$; go$taria de crer que a$ turbulência$ e de$balanceamento$ $erão re$olvido$, que o$ político$ e o$ economi$ta$ $aberão o que fazer e que o futuro no$ re$erva um $orri$o autêntico. Entretanto, $em alarme ou pânico, devemo$ no$ preparar. E$tá lançado o movimento: ocupemo$ o alfabeto! •