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Economia

"Legado"

A Copa do Mundo, a Olimpíada e as “cidades de exceção”

por Bruno Huberman — publicado 10/11/2010 16h58, última modificação 10/11/2010 17h19
Professores e especialistas discutem os impactos urbanos dos megaeventos esportivos a serem realizados no País

Professores e especialistas discutem os impactos urbanos dos megaeventos esportivos a serem realizados no País

Na segunda-feira 8, no Palácio dos Bandeirantes, residência oficial do governador de São Paulo, no nobre bairro do Morumbi, na Zona Sul da capital, encontraram-se o governador Alberto Goldman, o prefeito paulistano Gilberto Kassab e o presidente da CBF e do Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo de 2014 Ricardo Teixeira. A reunião foi para oficializar o estádio a ser erguido em Itaquera, na Zona Leste, pelo Corinthians e pela construtora Odebrecht, como palco da abertura do torneio. O projeto, que ainda não foi apresentado à Fifa, foi remodelado e “reorçado”. Agora, o “Itaquerão” terá espaço para 65 mil espectadores e custará 200 milhões de reais a mais, em um valor total de 600 milhões de reais. No entanto, todos os presentes não souberam responder quem bancará a nova diferença, uma vez que já estava definido que o BNDES emprestaria o dinheiro para o plano inicial.

Enquanto isso, no centro da cidade, ocorria na Sala dos Estudantes, da Faculdade de Direito do Largo São Francisco da Universidade de São Paulo, um seminário sobre “Impactos urbanos e violações de direitos humanos nos megaeventos esportivos” organizado pela relatora especial da ONU e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP Raquel Rolnik. O objetivo é discutir os efeitos nocivos que o Mundial e a Olimpíada no Rio de Janeiro em 2016 deverão fazer.

“Hoje nós vivemos em uma ‘cidade de exceção’”, afirma o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Carlos Vainer, um dos debatedores da mesa. “Nesta situação, são suspensos os direitos básicos e o município é regulado de acordo com as conveniências localizadas, neste caso pelo mercado”. Vainer afirma que as cidades transformaram-se em um espaço de negócios e não de debate político e democrático. “A democracia participativa atrapalha os negócios do governo com a iniciativa privada. Os megaeventos são uma oportunidade única de negócio para as metrópoles mundiais adequarem-se à concepção de cidade moderna criada após a Olimpíada de Barcelona em 1992. Por isso engalfinham-se pelo direito de receber estes eventos”, conclui.

“Os megaeventos esportivos deveriam se ajustar às cidades e não as cidades se ajustarem aos eventos”, diz o professor escocês da University of Central Lancashire John Horne. “Megaeventos esportivos fazem pouco para os países que os hospedam, contudo eles são importantes para descobrirmos quem é e onde está o poder”. Como já dissera Vainer, o poder é o mercado, porém, os meios pelas quais essas operações são realizadas são o que Horne chama em inglês de “BINGO”, algo como “Organizações Não Governamentais Ligadas aos Negócios”. Leia-se a Fifa e Comitê Olímpico Internacional (COI).

“Fazer campanha contra uma Olimpíada ou uma Copa do Mundo é a mesma coisa que fazer campanha contra o Papai Noel”, afirma Horne ao lembrar que lutar contra os malefícios de um megaevento esportivo é muito difícil porque, assim como o Papai Noel, “trata do imaginário lúdico das pessoas”. “Há uma manipulação muito grande nos cidadãos dos municípios que hospedam esses eventos, os impedindo de enxergar de verdade o que está acontecendo com sua cidade. Manipulação feita principalmente pela mídia”, completa Vainer.

A pior consequência, do ponto de vista da urbanista Raquel Rolnik, é o menosprezo da parcela mais pobre e marginalizada das cidades. A origem está no processo ambíguo de urbanização dos municípios brasileiros, porque essas pessoas nunca tiveram condições de ter acesso à terra e de uma moradia digna, porém sempre deram “um jeito”. Nunca foram “cidadãos de fato e direito”.

“Essas pessoas nunca receberam atenção até os governantes perceberem valor eleitoral nos habitantes das favelas e periferias. Aí surgiram os programas assistenciais, contudo o problema nunca foi resolvido para poder desconfigurá-lo assim que necessário”. E a hora chegou. “Os megaeventos legitimam as ‘cidades de exceção’. Nós já vivemos há anos essa situação em que são negados os direitos humanos básicos e as pessoas são obrigadas a saírem de suas casas”.

Os “benefícios” e “legados”, para a alegria das construtoras, são impostas em detrimento de comunidades e favelas pobres que ficam próximas as instalação esportivas e vias de acesso. Grandes cidades brasileiras como Belo Horizonte e Rio de Janeiro estão vendo pessoas serem despejadas por imposição do Estado sob a alegação de interesse maior para os megaeventos. Um exemplo é a Vila Autódromo na capital fluminense, como contou a moradora Inalva Brito, que também estava presente a mesa. “Nós temos de dizer não à remoção e ao reassentamento e como resposta ter o direito à cidade que os moradores das comunidades não conhecem. A Vila Autódromo terá que ser removida porque ‘promove riscos aos Jogos Olímpicos’”.

“A Olimpíada e a Copa do Mundo são momentos importantes para pensarmos alternativas, pois as outras experiências sempre mostram uma vitória do ‘evitar’: evitar demolir, evitar desapropriar. Nós temos que lutar por conquistas de novos direitos. Estou certa que lutar contra os megaeventos esportivos é mais difícil do que ser contra o Papai Noel”, finaliza Rolnik.