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A China vai parar de importar grãos do Brasil?

por Rui Daher publicado 22/07/2013 10h25
Mesmo com sua economia em desaceleração, país asiático vai continuar precisando de alimentos

Foi anunciado o crescimento de 7,5% para o PIB da China no 2º trimestre de 2013 em relação ao mesmo período do ano passado. Confirma-se tendência de desaceleração no mais recente motor da economia mundial.

Nada imprevisto, até porque desejado pelo governo chinês desde que percebeu insustentável manter por 35 anos crescimento médio anual de 10%.

O pouso vem sendo suave e pode nem mesmo parar nesses 7,5%. O Centro de Pesquisa em Desenvolvimento do Conselho do Estado prevê que o crescimento chinês, no período 2018/22, se estabilize em 6,8%.

Se os países que se beneficiaram do estrondoso desempenho da economia chinesa nas últimas décadas, sobretudo exportadores de bens primários, bambearam os joelhos, folhas e telas cotidianas, seguindo volúpia catastrófica, nada fizeram para acalmá-los. Educadas que são, evitaram termo mais forte e bradaram: ferrou!

Não será tarefa fácil para o país transitar de uma economia altamente acelerada e com sérias distorções para uma mais lenta e equilibrada. Com menor dimensão, Japão e Coreia do Sul passaram pelas mesmas dificuldades nas décadas de 1970 e 1990, respectivamente. Pode acontecer quando uma economia menos desenvolvida começa a alcançar as mais avançadas.

A China planeja diminuir o peso de exportações e investimentos públicos para dar espaço ao consumo privado, que representa 35% do seu PIB. No Brasil, essa participação chega a 62%.

Sugiro calma. Não creio ter chegado o momento para que jovens em mochilas ergam cartazes em frente às representações diplomáticas chinesas no Brasil: “Tem que crescer, tem que crescer, tem que crescer!”. Chinês é meio encrencado para entender isso como um “direito fundamental da democracia”.

Puxarei brasas para as minhas sardinhas.

Nos últimos 12 anos, o consumo de alimentos básicos (arroz, milho, trigo e soja), no Império do Meio, cresceu 10% acima da produção, cuja capacidade de expansão está limitada por fatores climáticos, ambientais e de relevo, associados a um sistema coletivizado de baixa produtividade. Daí a sanha por importações.

Esse quadro tende a piorar para eles, o que não entristecerá nenhum produtor rural brasileiro, argentino ou norte-americano. Na China, é intenso o processo de urbanização de populações rurais. Tanto autóctone como estimulado pelo governo que, até 2025, deverá levar 250 milhões de pessoas para cidades recém-construídas.

O Partido Comunista Chinês age para inverter destino de populações antes mantidas nas zonas rurais através de reforma agrícola que, na década de 1950, distribuiu pequenos lotes de terra para, anos mais tarde, coletivizar suas produções.

Na década de 1980, cerca de 80% dos chineses viviam no campo; hoje, são 47%. O mesmo êxodo que ocorreu aqui através de construção política, econômica e social de cunho capitalista desregrado.

Com uma população quase sete vezes maior do que a nossa e renda familiar em contínua expansão, a produção de alimentos básicos na China, segundo dados de USDA e FAO, é apenas três vezes maior do que a do Brasil.

Entre 2000 e 2012, foram decrescentes as áreas plantadas com trigo e soja e não evoluiu a de arroz. Apenas a do milho teve crescimento. No mesmo período, lá a produtividade cresceu 20%; no Brasil, o dobro.

O desempenho agropecuário chinês, por todos os ângulos que se analise, é insuficiente para o crescimento populacional e a incorporação de novos segmentos ao consumo.

Conclusão à base de Maracujina: a China continuará a aumentar a demanda por bens primários e industrializados da agropecuária, e não terá como deixar de fazer grande parte das compras no Brasil.

Feliz década nova, agropecuarista!

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