Você está aqui: Página Inicial / Diálogos Capitais / Turismo: O legado da Copa e das Olimpíadas

Diálogos Capitais

Fórum Brasil

Turismo: O legado da Copa e das Olimpíadas

por Envolverde — publicado 18/03/2014 17h45
Segundo especialistas, os megaeventos geram oportunidades únicas para o País
André Luy
Turismo

Da esq. para a direita, o presidente do Fórum dos Operadores Hoteleiros do Brasil, Roberto Rotter, a presidente da rede Blue Tree Hotels, Chieko Aoki, o secretário executivo do Ministério do Esporte, Luis Fernandes, e o jornalista Adalberto Marcondes

Megaeventos como a Copa do Mundo podem trazer benefícios e projeção internacional ao país-sede. Contudo, também podem acarretar problemas, como o endividamento em moeda estrangeira e um passivo de grandes estruturas, com alto custo de manutenção e sem utilidade para a população.

Para avaliar o legado da Copa do Mundo no Brasil, que tem início em junho deste ano, e das Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016, autoridades e empresários do setor hoteleiro se reuniram no "Fórum Brasil - Diálogos para o Futuro", promovido pela revista CartaCapital, na tarde desta terça-feira 18.

A mesa, mediada pelo jornalista Adalberto Marcondes, diretor da agência Envolverde, contou com as presenças de Luis Fernandes, secretário executivo do Ministério do Esporte; Chieko Aoki, presidente da rede Blue Tree Hotels; e Roberto Rotter, presidente do FOHB - Fórum dos Operadores Hoteleiros do Brasil.

"Eu sou de uma geração que tinha um sonho: o de ter novamente uma Copa no Brasil. Mas será bom para o Brasil ter um evento desta magnitude?", provocou Marcondes na abertura do encontro. Rotter contou que a escolha do Brasil como sede dos megaeventos obrigou o país a adotar padrões internacionais em reformas de diversas áreas estruturais.

O dirigente explicou que os preparativos vão além das necessidades para os megaeventos. A indústria hoteleira começou a vislumbrar oportunidades que vão além destas ocasiões, seja em cidades sem oferta de vagas para hospedagem, seja em segmentos ainda não atendidos, ampliando a oferta de hotéis econômicos, por exemplo.

Isso gerou, segundo ele, um dinamismo na economia. Para cada quarto construído, criam-se um emprego direto e seis indiretos. Hoje, existem 200 mil diárias disponíveis nas cidades- sede. "Antes de ser um evento esportivo, os jogos são eventos de negócios, pelas transações que geram".

“Está previsto um 'black out' de negócios de outras áreas a partir do fim de maio, quando se reduzirão as atividades regulares para o acompanhamento dos jogos."

Em sua intervenção, Chieko Aoki comentou: "Vejo como um legado positivo a  realização dos eventos por diversos fatores, como a vinda de pessoas importantes; muitas que ainda não conhecem o Brasil. É um público a ser conquistado."

Para a executiva, outro fator positivo é a difusão e a valorização do esporte. "Eu acredito muito no esporte, por significar saúde, trabalho em equipe, competência e esforço", explicou. "Os brasileiros vão se envolver, o que ajudará a combater problemas como o tráfico e consumo de drogas, por exemplo".

Cada hotel de sua rede está se preparando por meio do programa "Capitão do Time", que cuidará de todo o aspecto da recepção aos visitantes. Ela lembrou as verbas extras obtidas e a sua aplicação em melhores estruturas.

Empreendedorismo e criatividade - O moderador Marcondes chamou a atenção para o fato de os eventos estarem sendo tratados de modo político. "O aspecto empreendedor foi alimentado?". Rotter responde que sim. "Em muitos locais próximos aos estádios, surgiram pequenos negócios aproveitando ao maior fluxo de pessoas nos arredores."

Chieko Aoki também respondeu a esta questão. "De fato, ocorreram muitos investimentos. Lembro o caso de Cingapura, onde muitos hotéis enormes ficaram ociosos, a solução foi criar uma zona duty free, além de dar capacitação intensa em turismo receptivo. Isto resolveu".

Luis Fernandes observou que o Brasil receberá os dois maiores eventos midiáticos do mundo em sequência, em contexto favorável, com democracia consolidada e economia estável. "Nós tendemos a não valorizar estes aspectos". Para ele, a Copa e a Olimpíada são aceleradores de mudanças na adequação de infraestrutura urbana e recuperação de áreas com baixo índice de desenvolvimento. "Receberemos 20 mil profissionais de mídia de todo o mundo." Ele lembrou que a venda dos ingressos bateu recorde e a Copa agregará 183 bilhões de reais ao PIB até 2019.

Em sua fala, o representante do Ministério do Esporte disse que potencializar estes ganhos depende de política pública, que se orienta em três dimensões: infraestrutura essencial, política de melhoria em cidadania e oportunidades de inovação e negócios. As escolhas de investimentos são formuladas e aplicadas através de um Comitê Gestor e um Comitê Executivo, com quase 30 instâncias atuantes em 12 polos de desenvolvimento integrado nas cidades-sede.

"Esta é uma oportunidade histórica. Podemos aproveitá-la ou perdê-la. Os investimentos feitos até agora, necessários para o Brasil, estão sendo vistos como custos e não como conquista, o que é um equívoco".

Isto porque, segundo ele, trata-se de projetos escolhidos com soberania, sendo as determinações externas restritas em pontos bem específicos. "No caso dos Jogos Olímpicos temos uma governança semelhante, com a diferença que estará concentrada no Rio de Janeiro". Na sua visão, os eventos estão servindo assim para consolidar parcerias público-privadas, dando base para uma nova forma de gestão e de planejamento de Estado.

Principais temores. Há, contudo, dúvidas quanto ao aproveitamento pós-Copa da infraestrutura, como em locais como Cuiabá, e preocupação sobre possíveis manifestações. "Existem os ganhos reais, mas eles não são percebidos. Seria falha na Comunicação?", indagou Adalberto Marcondes, sintetizando questões da plateia.

"Um hotel é planejado para pelo menos 30 anos de retorno. O hotel não faz um destino. Pelo contrário, se instala onde há estrutura e potencial. Cuiabá é um exemplo disto. As pessoas vão ao Pantanal e a arena pode ser aproveitada para shows e outras atrações aproveitando esta demanda", respondeu Rotter. Para os debatedores, se cada membro da cadeia de desenvolvimento, locais, estaduais e federal, se mobilizarem, as pessoas que visitarem o País voltarão e trarão outros turistas.

"As manifestações geraram uma imagem negativa e faltou difundirmos os aspectos positivos, como fez Nova Iorque com sua campanha da maçã, por exemplo. Os interlocutores devem estar coesos e passar a mesma mensagem, com clareza de informação", completou Rotter.

"Temos potenciais pouco explorados. Existem saídas que nem imaginamos, como um turismo para ver jacarandás em flores, que acontece no exterior, por exemplo. Nós, em nossa cadeia, colocamos jabuticabas nos quartos quando de sua época e nossos hóspedes apreciam muito conhecer esta fruta brasileira. Podemos gerar interesse e manter a visitação ao país em alta após os eventos. Precisamos envolver mais as pessoas e podemos todos ser voluntários da Copa e da Olimpíada", sugeriu Chieko.

"Mesmo com as manifestações, a venda dos ingressos foi recorde. Não refreou o interesse mundial. O futebol é paixão nacional e estamos cuidando de organizar bem este evento. Com isto, talvez, não tenhamos dado ênfase aos ganhos, mesmo divulgando-os de forma ininterrupta. As melhorias serão entregues, inclusive em mobilidade urbana", frisou Fernandes. "Os megaeventos deixarão um legado positivo no desenvolvimento do país", concluiu.

HOTÉIS NO BRASIL

*10 mil unidades, com 28% em redes

* 25 grandes redes hoteleiras

* Crescimento de 12,6 % desde 2007

* Aumento de 21% na oferta de quartos entre 2009 e 2016

* Crescimento do PIB leva a aumento da demanda

 

Fonte: Fórum dos Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB)

 

Neuza Árbocz, da Envolverde, especial para CartaCapital