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Diálogos Capitais

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“Sou de Brasília, mas juro que sou inocente”

por Redação — publicado 18/09/2014 12h56, última modificação 18/09/2014 14h08
Debate promovido por CartaCapital discute as eleições no Distrito Federal e os problemas políticos e estruturais que fizeram surgir uma espécie de coronelismo
Agência Brasil
Arruda

Ex-governador não pode concorrer neste ano

Brasília vive um caso particular. A posição privilegiada da Capital Federal como sede do poder político nacional não exime o brasiliense de carregar a má-fama dos políticos que recebe e dos que elege. “Quando falo que sou daqui, logo tenho que me explicar: Sou de Brasília, mas juro que sou inocente”, costuma brincar o poeta Nicolas Behr, cuja frase estampa camisetas espalhadas pela cidade.

O panorama político-eleitoral do Distrito Federal (DF) foi debatido no evento Diálogos Capitais nas Livrarias, promovido por CartaCapital e realizado nesta quarta-feira 17 em Brasília. Mediado pela repórter Cynara Menezes, autora do blog Socialista Morena, o debate contou com a presença de Nicolas Behr e do cientista político e diretor do Instituto de Pesquisa FSB Leonardo Barreto.

O eleitor brasiliense se distingue em dois perfis, explica Barreto: aquele que não depende do Estado e o que depende das benesses dos governos para mudar de vida. “Eles estão em locais onde o acesso aos bens e aos serviços públicos não é universalizado e precisam da intermediação do ente político para receber esses direitos básicos”. Segundo Barreto, esse é um cenário característico do Distrito Federal desde a sua criação, e é a principal variável para explicar o comportamento do eleitor na direção de determinado tipo de político.

Impedido de participar do pleito de 2014 com base na Lei da Ficha Limpa, o ex-governador do DF José Roberto Arruda (PR) mantinha-se até a semana passada à frente nas pesquisas de intenção de votos. Arruda tentava voltar ao posto mais alto do governo local após ser retirado do cargo, em 2010, em meio a uma crise política deflagrada pelo esquema de corrupção conhecido como “Mensalão do DEM”.

“O eleitor brasiliense não tem memória?”, indagou Cynara. A predileção pelo candidato ficha-suja suscitou o questionamento se a posição de Arruda nas pesquisas seria mérito seria do candidato ou se tratava de demérito do atual governador e candidato à reeleição, Agnelo Queiroz (PT), cujo índice de rejeição chega a 47%. Para Leonardo Barreto, Arruda computava o chamado “voto de protesto” e a tendência, que deve ser confirmada nas próximas pesquisas, é a transição desses votos para o candidato em terceiro lugar, Rodrigo Rollemberg (PSB).

“O Arruda só teve chance em um cenário de completo descrédito e desesperança”, afirmou Barreto. Segundo ele, há um processo de negação, reforçado pela percepção criminalizada que as pessoas têm da política. “Qualquer envolvimento político-partidário é uma conduta malvista pelas pessoas”, observou. A tese foi acompanhada pelos demais palestrantes. “Virou algo tão escuso que as pessoas não querem se misturar”, completou Behr. “Brasília é uma cidade tão ousada, em seu traçado e proposta, me admira perceber a forma como o coronelismo se instaurou aqui e o tecido político se recompõe tão rápido”, provocou Nicolas Behr.

Diante da situação, surgiu a óbvia questão sobre a possibilidade de renovar a política local. Para Barreto, a questão esbarra na forma como os políticos do DF são eleitos. Na eleições para escolher os parlamentares que irão compor a Câmara Legislativa, a pulverização dos votos entre os pleiteantes favorece a atual crise de representatividade e o distanciamento da população em relação às decisões tomadas pelo Parlamento.

Dos mais de 900 candidatos ao cargo, os distritais são eleitos com menos de 1% dos votos. “Nossos sistema político para eleger deputados é de fragmentação. Faz com que o eleitor não se sinta representado e o eleito seja incapaz de ver Brasília como um todo”, pontuou o cientista político.