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Uma verve surreal

por Francisco Quinteiro Pires — publicado 12/04/2013 13h05, última modificação 12/04/2013 13h05
O Brasil publica pela primeira vez a ficção de Edward Gorey, autor que influenciou Tim Burton
Gorey

Elogiado por Max Ernst e Vladimir Nabokov, o autor salta do impreciso ao inexplicável em suas narrativas

De Nova York

O ilustrador e escritor norte-americano Edward Gorey (1925-2000) aceitou iniciar negociações quando a Walt Disney Company lhe propôs a criação de um parque temático inspirado nos seus livros. Logo desistiu do projeto, no entanto. “A certa altura, ele achou que a ideia não era tão boa”, conta o artista visual Clifford Ross, amigo de Gorey por mais de 30 anos. “Ele gostaria de alcançar uma audiência ampla, mas tendia a recuar ao primeiro sinal de sucesso.” Enquanto se protegeu da fama, Gorey foi cultuado e tornou-se influência para Tim Burton, Neil Gaiman e Lemony Snicket. “Depois da sua morte, a popularidade aumentou”, afirma Ross. “Os administradores do acervo puderam divulgar o seu trabalho com mais liberdade.”

A Bicicleta Epiplética (Cosac Naify, 66 págs., R$ 35), a primeira obra de Gorey publicada no Brasil, emprega uma fonte que imita a letra do autor. “Trata-se de um trabalho apropriado para introduzir a essência do seu estilo”, diz Ross. Traduzido por Alexandre Barbosa de Souza e Eduardo Verderame, o volume narra as aventuras de dois irmãos, Embley e Yewbert, iniciadas enquanto brincavam num momento que já “não era mais terça-feira, mas ainda não era quarta”. Eles se lançaram numa jornada “quando ouviram um barulho atrás do muro” e “uma bicicleta desacompanhada apareceu”. Dali em diante “atravessaram muitos campos de rabanetes”, onde “não viram nenhum”, “uma tempestade horrível se formou” e “quase foram atingidos por um raio várias vezes”. Embley até matou um jacaré com “um chute na ponta do nariz dele”. Ao sobreviverem a outros reveses, como o desabamento de um celeiro, “voltaram para casa e descobriram que não havia mais nada lá além de um obelisco, erguido em memória deles 173 anos atrás; a bicicleta soltou um suspiro e caiu aos pedaços”.

Publicado em 1969, A Bicicleta Epiplética pertence ao gênero nonsense. Para Gorey, a existência tinha pouco sentido. “Eu acredito com firmeza no que alguém disse certa vez. A vida é o que acontece enquanto você está fazendo outros planos”, afirmou em entrevista reunida no livro Ascending Peculiarity, Edward Gorey on Edward Gorey (2001). Especialistas interpretaram suas obras como um esforço para organizar o caos. “O mundo é incerto, escapa ao controle. Não está submetido a uma trajetória linear e somente um conjunto de compulsão e estilização pode começar a combater essa desordem”, escreveu a crítica de arte Karen Wilkin em The World of Edward Gorey (1996). O ilustrador norte-americano, entretanto, rejeitou a tentativa de moldar a realidade à semelhança da sua imaginação. “Se sou, de fato, alguma coisa, eu sou taoísta”, explicava. Viver, para ele, foi adaptar-se ao fluxo das coisas, fossem agradáveis ou não.

*Leia matéria completa na Edição 744 de CartaCapital, já nas bancas