Você está aqui: Página Inicial / Destaques CartaCapital / Um cineasta e a sua causa

Destaques CartaCapital

Newsletter

Um cineasta e a sua causa

por Orlando Margarido — publicado 08/03/2013 11h21, última modificação 08/03/2013 11h21
Um dos últimos em instinto político, Ken Loach reverte o consagrado

Ken Loach acredita que a história deve ser pensada por meio das pessoas e, mais importante, das pessoas comuns. Sua esperança como homem de ideias socialistas e cineasta que desde os anos 1960 busca captar a voz de uma classe ausente dos meios de expressão é conectar o público a pessoas que cumprem seu cotidiano com a altivez dos anônimos. “É mais humano dessa forma e não quando acadêmicos nos dizem o que fazer”, diz o britânico. “Não gosto da glorificação.” Por isso há valor para o realizador quando uma senhora, versada nas dificuldades da guerra, deseja ver algo mais que ganância. Ou um médico sonha atender pacientes sem depender do auxílio social deles. Mais ainda, fazer todos crerem, como crê um ex-operário aposentado, na força de cada um em mudar um sistema arruinado. São personagens reais tanto quanto é Robbie, o protagonista que Loach encontrou para sua mais nova ficção, A Parte dos Anjos,estreia da sexta 8.

Atrai o realizador o idealismo em comum a essas pessoas. Robbie é uma recriação na tela da trajetória semelhante de Paul Brannigan, ex-presidiário desempregado que Loach encontrou num centro comunitário e tornou ator. O aprendizado documental na tevê inglesa deu-lhe a intuição para encontrar essas vozes genuínas e há mais delas nas entrevistas de seu mais novo documentário, The Spirit of  ‘ 45,exibido em fevereiro em seção paralela do 63º Festival de Cinema de Berlim. Loach compareceu a duas conversas públicas, das quais CartaCapital participou, para debater sobre sua carreira e seu retrato da reestruturação da Inglaterra após a Segunda Guerra Mundial. Com rico trabalho de arquivo, o diretor recua a anos antes do conflito para contextualizar o impacto nas inovações propostas pelo governo, e chega aos dias atuais. Propõe mostrar como um momento de união pela volta da prosperidade se desintegraria em atos de uma política radical de privatização na era Thatcher.

Nesse arco histórico cabem muitos, se não todos os seus filmes que retratam a classe operária do país. É o que mais uma vez se vê em A Parte dos Anjos, Prêmio do Júri no Festival de Cannes, na trajetória do jovem sem perspectiva que tem sua chance final ao sair da prisão. Só não é uma das habituais produções do diretor por se tratar de uma comédia. No mais, mesmo que divirta com seu grupo de espoliados que se envolvem com o universo do uísque na Escócia, o realizador mantém seu foco realista, a condução natural dos atores e o roteiro bem forjado com o fiel parceiro Paul Laverty. “É preciso estar atento ao instinto dos atores, é fundamental para um filme”, ensina. “O roteiro não pode estar totalmente fechado.”

*Leia matéria completa na Edição 739 de CartaCapital, já nas bancas