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Tempo quente no polo

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 31/08/2012 12h17, última modificação 31/08/2012 12h17
O derretimento acelerado do Ártico se une às evidências cada vez mais impressionantes e convincentes do aquecimento global
GELO

Groenlândia. Fim de geleiras milenares, um dos sintomas de um processo que matará milhões

Apesar da onda de calor e secas que devastam colheitas em várias partes do mundo, apesar do furacão que mais uma vez atrapalha os republicanos e suas convenções, aquecimento global e a mudança climática estão praticamente ausentes do debate político. Há os que citam a Bíblia (como o senador republicano James Inhofe, do Oklahoma) para argumentar que o clima é assunto divino no qual os homens não devem interferir e mesmo políticos mais racionais, como Barack Obama, David Cameron e Angela Merkel, evitam o assunto, impopular com eleitores mais preocupados com emprego e consumo, razão pela qual ignoraram a Rio+20.



No campo científico,
os alarmes não param, porém, de disparar. O último foi o anúncio pela Nasa de que a camada de gelo do Oceano Ártico, em 26 de agosto, derreteu para 4,1 milhões de quilômetros quadrados, o menor tamanho já visto desde que ela começou a ser monitorada por satélite e tinha 7 milhões, em 1979, e deve encolher mais ainda, pois o auge sazonal do derretimento é em meados de setembro. O menor tamanho antes medido tinha sido de 4,17 milhões, em 18 de setembro de 2007. Medições de submarinos mostram que o gelo também perdeu ao menos 40% da espessura e 70% do volume desde os anos 1980. O Ártico pode ficar totalmente livre de gelo no verão a partir de 2050. O processo se realimenta e agrava o aquecimento regional e global, pois enquanto o gelo reflete 80% da luz do sol, o mar escuro reflete só 10%, permitindo mais absorção da luz e ainda mais degelo.
Os poucos especialistas competentes e honestos que ainda duvidavam se dobram às evidências, entre eles o físico Richard Muller, da Universidade da Califórnia. Cético em relação a estudos anteriores, ele criou em 2011 o projeto Berkeley Earth Surface Temperature (Best), financiado em parte pelo magnata do carvão Charles Koch, ambos esperando desmentir o aquecimento global. Depois de reunir 1,6 bilhão de medições de temperatura de 44 mil localidades diferentes desde 1753, sua equipe teve de concluir que estavam errados: a Terra de fato se aqueceu 1,5ºC nos últimos 250 anos, 0,9ºC desde 1960 e a atividade solar nada tem a ver com isso. Essencialmente, todo o efeito se deve à emissão de gases de efeito estufa pela atividade humana, como admitiu o próprio Muller em artigo no New York Times de 28 de julho, no qual previu também que o planeta se aqueceria mais 1,5ºC em apenas 50 anos – ou mesmo 20, se a China continuar sua tendência de crescimento acelerado com uso intensivo de carvão. A maioria dos especialistas considera crítico um aumento de 2ºC, a partir do qual as mudanças climáticas seriam irreversíveis, com o derretimento do permafrost (solo congelado) do Hemisfério Norte e Antártida e a liberação de gases de efeito estufa ali retidos.
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