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Os nhonhôs em festa

por Rosane Pavam publicado 16/02/2012 11h47, última modificação 06/06/2015 18h14
O Brasil, País da sobremesa segundo o escritor Oswald de Andrade, só encena o fim das desigualdades sociais nos dias em que reina o Carnaval
carnaval

Em 1903, TRaul Pederneiras ilustra a elegância da carnavalesca erotizada, oposta à brutalidade do folião de rua. Foto: reprodução do livro Ecos da Folia

O Brasil é o país da sobremesa, decretou certa vez Oswald de Andrade, um escritor pouco lido e ainda menos compreendido onde nasceu. Neste país colonizado por nhonhôs a partir do -suor de escravos negros e de índios, onde a justiça e os direitos de cidadão sofrem de risonha ausência, há muito o pão foi substituído pelos brioches, ainda que aqueles nascidos da melancolia, algo que nem Maria Antonieta poderia supor. Rainha consorte da França até que a guilhotina cortasse sua emblemática cabeça, em 1789, ela antecipou as ideias do escritor modernista ao sugerir aos pobres, em uma frase famosa, que substituíssem a essência farinácea por uma doce e cara ilusão. A monarca, que abusava das festas e dos adereços, guarda correspondência com este país onde a desigualdade é um Momo para sempre entronado. O Brasil adora Maria Antonieta, algo facilmente observável nos dias de folia, quando as escolas de samba copiam suas vestes e seu gosto excessivo. Se assim é, por que não votar nela como madrinha eterna de nosso carnaval? Ou, melhor dizendo, de tantos entre nossos carnavais?

Naturalmente, a concorrência não seria fácil para a soberana. A cada ano, a festa multiplica-se em musas e sentidos, causando uma grande confusão na cabeça de seus intérpretes. O historiador Elias Thomé Saliba chama esse estado de coisas de “desordem interpretativa”. Ele já notou: “No carnaval, como no futebol, ninguém passa por perto sem dar o seu palpite inteligente”. A doença da interpretação nos acomete desde que o Brasil é Brasil. Ao acaso, é possível citar Olavo Bilac, pontificando sobre a folia com as vestes inconscientes de um folião, ele que foi o príncipe dos poetas brasileiros: “Como enfim a sem-vergonhice está no fundo da natureza humana e como não há lodo que não goste de aparecer ao sol, inventou-se o carnaval, três dias libérrimos, 72 horas descaradas de sorte a assentar que todos os vícios podem andar à solta, cabriolando na praça pública, de garrafa desarrolhada na mão e perna leve no pincho do can-can. E o que é o carnaval senão uma volta temporária aos tempos dos costumes bárbaros?”

A ironia na apreciação de Bilac é que, ao dizer isso, ele investiu contra a folia esganiçada, suja e violenta do populacho, servindo-se, para isso, de seus modos de burguês desenvolvido, aquele representado pelo próprio carnaval com o passar do tempo. É uma festa de reis, rainhas e madrinhas abiloladas. E as madrinhas de cada festa pouco a pouco se tornam não aquelas que sambam nas pistas, até porque o samba deu lugar à marchinha nos desfiles, segundo bem observou o historiador José Ramos Tinhorão em um texto ácido, na contramão do pensamento de seu doce país. As madrinhas se transformaram em símbolos das nossas incongruências.

*Leia matéria completa na Edição 685 de CartaCapital, já nas bancas

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