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O sono dos injustos

por Orlando Margarido — publicado 14/09/2012 11h30, última modificação 14/09/2012 11h30
O júri veneziano dormiu no ponto ao preferir a visão do fundamentalismo e do mal do dinheiro à análise de uma era
Veneza

Pedras no grande capital. Seymour Hoffman recebe o prêmio como melhor ator em The Master

A Itália que dorme um sono profundo não pareceu ser a imagem significativa da incessante roda do capitalismo, ainda que este se exponha como um pesadelo atual no país. Para mostrar como a engrenagem cruel gira sem piedade, preferiu-se um título bem a calhar. Pieta, do sul-coreano Kim Ki-duk, foi erigido como a crônica sombria que melhor saúda os tempos atuais, a considerar uma certa linha temática presente no 69º Festival de Veneza encerrado no sábado 8. Ao celebrar o filme com o Leão de Ouro, apontou-se o extremo e não a reflexão dilatada no tempo, reveladora de uma época e seus costumes sociais e políticos.

Foi assim que boa parte da mídia e da crítica especializada se referiu a Bella Addormentata, o novo trabalho do diretor italiano Marco Bellocchio integrante da competição oficial. E o fez como análise obrigatória para um filme que arriscava ser entendido apenas como a investigação de um caso real de eutanásia. Entre 1992 e 2009, a jovem Eluana Englaro permaneceu em estado de coma até que seu pai obtivesse a autorização para desligar os equipamentos médicos. O processo mobilizou a Itália entre católicos e conservadores de um lado, liberais de outro. Bellocchio lança mão do fato como pano de fundo e constrói dramas similares para discutir equilibradamente a questão. A bela adormecida do título não é, claro, mera alusão a uma fábula. É um país como um todo que está na mira do cineasta.

Não para o júri oficial, que esnobou um dos melhores filmes, se não o melhor, da vitrine veneziana. Apenas se fez um charme a Bellocchio ao eleger o melhor estreante do festival Fabrizio Falco, presente tanto no longa-metragem È Stato il Figlio, de Daniele Ciprì, como em Bella Addormentata. Ciprì, fotógrafo do Vincere de Bellocchio, ainda levou um prêmio de contribuição técnica pelo ofício em seu próprio filme, uma comédia de humor negro que evoca a Sicília da periferia. Em entrevista a um grupo de jornalistas no qual estava CartaCapital, Ciprì comentou que talvez a Itália não estivesse pronta para ir ao divã com Bellocchio. Ao final da mostra, dedicou seu prêmio ao amigo. “Bella Addormentata merecia um júri que soubesse entender sua qualidade”, disse à mídia italiana.

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