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O soneto e a emenda

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 28/03/2013 11h48, última modificação 28/03/2013 11h48
O resgate cipriota pouco melhorou na segunda versão e os líderes europeus parecem não se importar em pôr mais lenha na fogueira

"O país esteve à beira da bancarrota”, disse o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, ao explicar o acordo com o Chipre, na segunda-feira 25. “E deu um passo à frente”, é irresistível acrescentar, apesar do risco de plagiar um ex-ditador brasileiro. Em uma semana, um pacote desastrado foi apresentado tanto pela Troika quanto pelo governo de Nicósia como “a única solução” e depois substituído por outro menos injusto para com os pequenos depositantes, mas talvez mais catastrófico quanto às consequências gerais.

Na versão original seriam confiscados 6,75% de todos os depósitos até 100 mil euros e 9,9% acima desse valor. Na revisada os depósitos menores ficam isentos, mas aqueles acima desse valor perderão 30% a 40% se efetuados no Banco de Chipre, o maior do país (cujo presidente, Andreas Artemis, renunciou por não ter sido consultado), e 100% se foram confiados ao Banco Popular (Laiki), o maior concorrente. Os dois juntos representam metade do sistema bancário. Além disso, os depósitos restantes ficam submetidos a controle de capitais, ou seja, não podem ser sacados do país por tempo indeterminado. Terá um enorme impacto e não apenas sobre os oligarcas e as empresas da Rússia que se diz representarem metade dos depósitos.

Recursos de pequenas e médias empresas e da classe média a caminho da aposentadoria serão devastados, e a economia como um todo, severamente podada. O setor de serviços respondia por 80% do PIB e 70% dos empregos. Sua espinha dorsal eram os bancos, cujos ativos o ministro da Fazenda alemão, Wolfgang Schäuble, e a diretora do FMI, Christine Lagarde, querem reduzir em quase 60%, de sete vezes o valor do PIB para três. Logo se verão índices de desemprego como aqueles da Grécia e Espanha e, se o país permanecer no euro, há poucas chances de que o turismo, a agricultura ou a indústria se tornem competitivos. Como percebem os estudantes que no dia seguinte saíram às ruas para exigir a demissão do articulador da proposta, o presidente do Banco Central, adequadamente chamado Panicos Demetriades.

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