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O retângulo eterno

por Rosane Pavam publicado 11/10/2012 11h30, última modificação 11/10/2012 11h30
Boris Kossoy realiza uma criação original enquanto reflete sobre a permanência da fotografia
Kossoy

A musa imóvel. Kossoy com Isabella em sua residência e o sutil desequilíbrio na foto de 1971. Foto: Isadora Pamplona

Os barbudos de 30 anos de idade adentram à sala Novas Proposições da Bienal Internacional de Arte de São Paulo e logo se entregam aos comentários. Notam que o maes­tro rege as tumbas do cemitério em uma das fotos penduradas. Um arlequim olha através do matagal. A jovem vestida de noiva senta-se sozinha no banco da estação ferroviária. Os espectadores não se conformam com o que veem e conjecturam o embuste. Nenhum maestro de fraque e batuta conduziria solitário a opereta dos mortos, eles especulam. Um arlequim jamais teria por que observar o espectador à beira da estrada. E noiva abandonada não pega trem. Era 1971 e aqueles barbudos viam em Kossoy um impostor. Isto porque, à moda dos primeiros observadores das imagens impressas, no século XIX, eles equivaliam a fotografia a um teorema da verdade. Um outro criador talvez tivesse se divertido ao ver a própria obra poética movimentar especulações dessa natureza. Mas não Kossoy, hoje com 71 anos, artista e maior historiador da fotografia do Brasil, aferrado, portanto, à honestidade intelectual.
“Mas que burros eles eram!”, agita-se ao falar hoje sobre os antigos frequentadores daquela exposição, ele que acaba de escapar ileso dos efeitos terríveis de uma bactéria alojada em sua corrente sanguínea. O historiador, que passa parte do ano em sua casa no litoral catarinense, fala a CartaCapital na residência paulistana, lá onde as louças, os porta-retratos e as pedras alinham-se à progressão de seu tamanho sobre os móveis antigos, como se conversassem entre si. E onde os manequins, como a Isabella presente em tantas de ­suas imagens, parecem observar o passante sob todos os ângulos da sugestão. Essa casa no Brooklin Velho que Kossoy divide com a mulher, a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, vive agora sob o burburinho de madeiras e tijolos de uma reforma, e se refaz à imagem de seu construtor, também arquiteto, o homem por trás da exposição com 400 imagens da história brasileira a ter lugar a partir do dia 12 de novembro no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.
Intitulada Um Olhar sobre o Brasil: A Fotografia na construção da imagem da nação, a mostra que também resultará em livro no próximo mês, com um total de 430 fotos, consumiu-lhe três anos de pesquisas coordenadas por Lilia Schwarcz para a Editora Objetiva. “A fotografia é aparência, mas também história”, ele considera. “Neste caso, não estou fazendo um volume sobre a história do Brasil através da fotografia, porque essa fantasia não sobreviveria sozinha. Eu a mostrarei, sim, como instrumento de construção da imagem da nação, a partir de marcos históricos, entre o Império e a República. E embora muitas vezes me oriente por datas, como faz a historiografia tradicional, entendo que lançar um olhar dessa natureza sobre o Brasil resultará numa anti-história também.”
*Leia matéria completa na Edição 719 de CartaCapital, já nas bancas