Você está aqui: Página Inicial / Destaques CartaCapital / O jornalismo como fábula

Destaques CartaCapital

Newsletter

O jornalismo como fábula

por Francisco Quinteiro Pires — publicado 19/10/2012 11h34, última modificação 19/10/2012 11h34
Para biógrafo, o repórter Ryszard Kapuscinski inventou fatos em nome de “interpretar” culturas
Kapuscinski

Ação militante. Kapuscinski contraiu malária e tuberculose para entender os desfavorecidos. Foto: Cortesia de Jerzy e Izabella Nowak

De Nova York

Ryszard Kapuscinski (1932-2007) tornou-se um mito do jornalismo ao contar mentiras. Quem revela essa informação, a contragosto, é o seu biógrafo, o repórter polonês Artur Domoslawski. Ele preferia não ter feito essas descobertas, pois foi amigo de Kapuscinski, a quem chama de “mentor”. Uma vez desenterrado um segredo, por dever profissional não há outra alternativa, segundo Domoslawski, a não ser comunicá-lo ao público. Lançado em 2010, Kapuscinski Non-Fiction foi agora traduzido para o inglês com o título Ryszard Kapuscinski, A Life (Verso, 460 págs., US$ 34,95). “O livro provocou um enorme alvoroço”, diz Domoslawski a CartaCapital, por mostrar como Kapuscinski criou uma imagem fictícia de si mesmo. Os resenhistas da imprensa anglo-saxã foram unânimes na discussão das falhas do jornalista polonês. Ninguém o perdoou.

“Não quero acusá-lo”, diz o biógrafo. “Proponho apenas que seus livros, grandes obras literárias, sejam colocados na estante reservada à ficção.” Enquanto pesquisava, Domoslawski se perguntou se o tipo de escrita importava para compreender Kapuscinski. “E a minha conclusão é que, sim, isso importa para nós, jornalistas. Devemos fazer um pacto de honestidade com os leitores. Se o jornalismo avança a fronteira da literatura, paga um alto preço, a perda de credibilidade. Ainda mais hoje, quando é tão fácil verificar informações.”

Domoslawski refere-se ao poder de checagem ampliado pelo uso da internet. Fabulistas e plagiários, ele acredita, correm mais riscos. Nos Estados Unidos, houve dois casos nos últimos tempos de atentado à ética da profissão, revelados primeiro na rede mundial de computadores. Então repórter da The New Yorker, Jonah Lehrer pediu demissão quando descobriram uma entrevista inventada com o compositor Bob Dylan no livro Imagine: How creativity works (2012). Fareed Zakaria, apresentador do canal CNN, cometeu plágio em sua coluna na revista Time. Zakaria desculpou-se e levou apenas uma suspensão.

*Leia matéria completa na Edição 720 de CartaCapital, já nas bancas

registrado em: