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O golpe da sutileza

por Rosane Pavam publicado 31/08/2012 12h20, última modificação 31/08/2012 12h20
O novo filme de Ugo Giorgetti revive a atmosfera cultural que desafiou a ditadura brasileira e sustenta que nem todos os militares apoiaram a barbárie
Ugo

O sonho absoluto. O plano da resistência e a ética militar em Cara ou Coroa, de Ugo Giorgetti. Foto: Mujica

Ser ou não ser Ugo Giorgetti, eis uma questão para o cinema do Brasil. Uma questão de diferença. Nos últimos 20 anos, os filmes brasileiros caminharam entre a ingenuidade deliciosa, a violência policial, a exclusão urbana e a estrada, por vezes a rodoviária, dos sentimentos comuns. Raros filmes se pareceram, portanto, com aqueles que Giorgetti faz. Depois de seis anos, um novo longa-metragem de ficção do diretor, Cara ou Coroa, apresenta uma visada surpreendente da história local. O diretor foge às narrativas cinematográficas de suspense, usuais e compreensíveis, sobre a ditadura dos anos 1960. E faz o impensável, um filme sutil sobre o período.

Como exemplo, ele não vê em todos os militares brasileiros bandidos por princípio, destacando que a barbárie jamais foi defendida pelo Exército em uníssono. Em seu filme há um entendimento de que os reacionários do cotidiano, as figuras cômicas, rígidas de ignorância, como o taxista interpretado de forma sobrenatural por Otávio Augusto, também foram capazes de gestos de humanidade. E, no Brasil, um diretor teatral de esquerda, tão bem-intencionado, também pôde errar nos seus caminhos pessoais ou artísticos, sem que isso lhe tivesse alterado os méritos da luta e do coração.

O corajoso cinematógrafo do artista é um farol virado para trás. Sem tremer a câmera, espetacularizar o olhar dos personagens, granular a fotografia ou almejar a mais nova das tecnologias, este cineasta diz as coisas complicadas da maneira mais direta. Tem sido seu uso, este de devolver ao espectador os seus comportamentos, bons ou maus, presentes ou passados, construindo uma atmosfera mental que explique sua própria vida em sociedade. Não é um cineasta da política, no máximo da política como um contexto para as ações humanas.

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